segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Tear de Ondas: Lançamento



É com imenso prazer que o Desde que o samba é samba anuncia o lançamento do meu terceiro livro, Tear de ondas, publicado pelo projeto editorial Aves de água.

O livro, escrito ao longo de 2012, só agora vem a público em sua versão digital.

Para lê-lo, basta acessar a aba intitulada "Tear de ondas" ou clicar aqui!

É possível também ouvir um trecho do livro. Para ouvir, é só clicar em Tear de ondas, I, primeiro movimento.

E não deixem de conferir, também, a página do Projeto editorial Aves de Água no endereço http://www.avesdeagua.com.br


 Espero que gostem!


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Preparação de partida - parte I


Há preparação de partida, sem tantas histórias desta vez. Poucos poemas escritos (ruins quase todos), nenhum texto em prosa que agrade (e muitos parados empoeirando), algumas rugas, livros que se empilham e questões teóricas cada dia mais profundas que sentem, em cada dobra, o peso das decisões. Nenhum romance lido por inteiro num sábado, a descoberta da poesia alemã do século XX, o estudo de grego e hebraico antigos, Dante e Petrarca de foices em punho lutando por um caminho no tempo da eternidade. Até o nada, a velha proposta, parou – não sei se em suspensão ou em queda – ao som deste constante rio em que pedras militantes lutam, como eu, contra a ordem forçada que nos querem convencer a aceitá-las ao chamá-las “naturais”.
Houve neste tempo o vermelho, poucas discussões efetivamente políticas, densas, como as que minha cozinha estava tão acostumada! E esta falta frustrou as panelas, as xícaras, os pratos de vidro, os garfos e, principalmente, as facas. O sumiço da política no almoço deu lugar a discussões de praça que passavam ao largo de tudo isso que antes era pão, café, arroz e feijão. Falam tão pouco desses assuntos! Mas postam fotos, frases prontas no tempo dos novos aforismos sem contexto e de frases sumárias que impõem o silêncio.
     Sinto nos dedos o tempo do fim dos debates, a morte do espaço em que se discutir qualquer assunto era possível, mesmo que em tom discordante. As listas com os nomes de quem diz "não", creio, já estão em redação em algum lugar. Sobrou de tudo a vontade de quebrar o vaso proibido, do alto do aparador, relíquia de família, só para ver que barulho faz quando cai. Caiu e não fez barulho e assustou mais pelos cacos do que pelo efeito da queda, a magia do vaso na fração do ar.
Há caixas que nem saíram e outras que nem chegaram. Há um encontro adiado cheio de amores e dores entre mim e ela que me espera, diferente de quando a deixei, tão diferente e florida naquela manhã de agosto. E nossos desafetos, nossas risadas, nosso ainda encontro casual se dá, repentino, quando uma flor se lança suicida na avenida. Compusemo-nos, os dois, no tempo que nos distanciamos, de carícias íntimas, esses grandes amores que, por amedrontadores, cativam-nos e nos doem nos ossos.
Mudamos, enfim. De mudanças e mudanças, todo ato é partida, toda decisão é uma flor suicida na avenida, curtindo o vento da queda antes de atropelada por um ônibus. E a partida, desta vez, é o vaso-relíquia que caiu da estante e não fez barulho, nem trouxe reprimenda nem castigo, mas quebrou a tradição de família: aquela que insiste, de alguma maneira, em guardar nas coisas o ar respirado por nosso passado e pelos nossos ancestrais. A isso, creio, não chamo mais de lar.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

dos mapas antigos

                         


 Se estiver perdido, compre um mapa. Mas não desses que a Google faz, cheio de coisas que acontecem agora, que você pode colocar no vidro da janela do carro e se guiar. Compre um mapa antigo, difícil de se ver o caminho nele traçado, o nome do lugar que nem existe mais. E veja bem de perto que o cartógrafo errou a latitude, perdeu a conta da longitude e nunca você encontrará aquele lugar. É ali que começa tudo: onde as coordenadas nada dizem, é literatura. Lá, sempre haverá civilização, conforto, conflito, dor a sobrar e uma fina agulha. Procure essa agulha loucamente e costure as coordenadas achadas no mapa comprado na mão do alfarrábio árabe que fechou a livraria para investir em outro negócio. Costure essa matemática e ela guiará você, quem sabe – e só se tiver muita sorte – para o mundo que exite dentro da boca de Pantagruel. E ao sair, passando pela civilização que planta repolhos, você talvez encontre um cachalote, um marinheiro louco, um pirata gatuno que atende às vezes pelo nome de Monte Cristo, uma nave que é capaz de levá-lo à lua, um balão que o faz chegar em Londres, um livro vermelho que uma menina aperta contra o peito, uma família que se consome na dúvida, um dono de fazenda, acordado na noite, escrevendo a história de Viçosa de Alagoas, um velho jagunço deitado na rede. Se encontrá-lo, diga que eu mandei notícias e pergunte: existe?

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

do pé na estrada


Há sempre uma rua que se pode seguir até seu fim e nela virar em outra e assim chegar a uma rodovia. E nela, seguir até seu fim para chegar onde acaba o asfalto e seguir pela estrada de terra que se tornará uma trilha até que, de repente, o caminho então será estreito e, ao olhar para trás, será inútil voltar.
Ali, neste lugar-nenhum, de nome ignorado, eu também possa ser nenhum, de nome ignorado. Falsear a idade, pedir roupas e sapatos, talvez algum prato de comida. Pedir algum serviço simples, braçal, e ficar quieto no lugar, esquecido do mundo. É provável que perto do lugar haja alguma urbanidade, com alguma escola, algum médico, ou nem isso. Então, largar o emprego na roça e trabalhar em algum desses lugares, numa padaria, num bar, num armazém, com um salário pequeno para pagar um aluguel de um quarto de pensão, que já tenha lá algum almoço incluído, com uma dona rabugenta que não tenha a menor noção de onde eu vim, de para onde vou, se tenho ou não família.
Como desconhecido, posso tornar-me conhecido por outro apelido, ou por um nome qualquer que pouco importa. Criarei ali outra história de mim mesmo, recheada de notícias inverídicas. Poderei refazer tudo: minha maneira de me dirigir às pessoas, o trato que dou a mim e aos demais. Poderei fingir-me analfabeto para ver até onde vai a boa-fé humana, testar o que muitos chamam caridade. Deixar-me esquecer de tudo e quando todos já me derem por morto, lá na rua que havia deixado, voltar para o que hoje sou, neste nome, nestes traços. Aparecer, repentinamente, na vida completamente outra para este outro eu que refizer no mundo mais distante, no lugar-nenhum. Chegar quando meus livros já tiverem extraviado, meu diário lido, relido, comentado, meus objetos pessoais vasculhados sem respeito como se vasculham os pertences de um morto. Talvez aí eu entenda o meu rosto que me ronda.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

O rebocador amarelo


Chove há quase 10 dias e o mar está em tudo pela casa. A cômoda sente falta da janela onde um dia passou um paraquedista vermelho contra um azul doído, no fim da ilha. A rede, sem janelas nesta sala só com portas, não vê mais o poema de Neruda escrito no vidro da janela, com o Convento ao fundo. O cheiro de rio que me entra casa adentro (deste rio aurífero e secular, revolvido pelos muitos cobiçosos que atravessaram as águas, tingiram-na de sangue) é outro cheiro, carregado de fantasmas sobrepostos que descem rumo aos fantasmas dos afogados.
O rio quer fazer encontrar os mortos, todos: os desta serra onde só chove, os dos sertões já tão bravios, dos milhares de índios massacrados pelos campos do país, dos negros torturados, açoitados, mutilados e mortos nestas minas hoje só covas vazias recheadas de ecos e de dores. Todos os mortos reúnem-se no mar, o maior dos ventres do mundo. E este mar é vida em profusão.
É só vida, o mar, porque os afogados e os mortos de terra, nas águas profundas, transformam-se nos mais diversos seres. São crustáceos, baleias, ostras, algas. E eu, que me associo a todos os seres do mundo, vivos e mortos, por ter o mar dissolvido no sangue das veias, sinto a falta desta vida potente e azul, e as coisas da minha casa sentem-na também.
Falta o mar neste chão, em mim, nesta página. E por isso li Ode Marítima: porque na mesa, entre Camões e Pessoa, entre Drummond e Cabral, entre os milhares de riachos feitos de letras impressas que seguem para o mar da linguagem, este berço dos mortos, se eu fechar apertado os olhos, vejo o paquete entrando à baía, ouço os cargueiros que levam e trazem o mundo, sinto o cheiro do Atlântico que um dia foi a rotina das minhas narinas.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

o segundo motocontínuo

as madrugadas de domingo, as tardes de quarta, maio, a segunda quinzena de novembro, o dia de pagar o aluguel, a hora do almoço, a viagem na família, o embreaga-te, a mesa laranja, a máquina de escrever, o canto da coruja, joão gilberto, a valsa vazia, a ante-sala madrugada, a janela sob a cômoda, as pombas no meio-fio, os restos de carnaval, o liso do sussuarão, o habitar, as declinações do grego antigo, os sinais vocálicos do hebraico, o tempo verbal, o giz, o grito de gol, um beijo no guardanapo, um bolero ruim, um texto ruim, o passar deste rio.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Ouro Preto, um mimo


Quando não mais se tem saídas e quando o caminho parece um eterno círculo com muros e pedras, surge Ouro Preto, ao sol do fim de inverno, vestida para a festa cheia de mimos. Com tecidos, rendas, anéis de vários lugares do país e do mundo, com sorrisos de dançantes na praça às três da madrugada, a cidade fez sair – como é bem de seu feitio – arte de todas as paredes centenárias. E arte é como café com pão, arroz com feijão. Deve alimentar a vida todo dia, seja no livro que carrego comigo, nas músicas que ouço em casa, na arquitetura secular preenchida com suas pesadas sombras. Ouro Preto alimenta pelo simples fato de estar lá, exposta ao mundo em suas ladeiras, trombando com os idiomas todos, suas misturas e seus encontros cheios de novas experiências, de conversas de madrugadas inteiras sobre aquilo que sustenta os túneis subterrâneos da cidade.

Foi no silêncio do sono das ruas do Antônio Dias que o círculo, enfim, se desfez. A possibilidade de mais, fome insaciável desta última busca, está lá, enaltecida e resguardada, à espera de quem a descubra como quem lhe arrancou ouro. Nas dobradiças das janelas, nas placas em frente às casas, nas padarias, nos becos, em seus museus e templos, seus fantasmas e histórias. Encontrei a rachadura no muro do caminho e lembrei o que buscava no início da empreitada: saciar a vontade de mais, de alguma forma, com muita arte.

Só a arte refaz as pessoas, cria as possibilidades de mundo passíveis de habitação, de contato, esta imensa praça de convites. Achei a praça da arte e enquanto ouvia uma banda da Jordânia (que passa por período tão complicado), comentando sobre o perdido show do Madredeus com uma mulher muito mais fã do que eu, (conversa que desdobra, buscando a Lisboa aspirada, o fado de Mariza, de Cristina Branco, de Dulce Pontes), entre uma e outra observação do arranjo das músicas orientais, cheguei, depois, com passos mudos na madrugada vazia no bairro de Aleijadinho, ao ponto em que o muro se desfaz em pó: a escolha de tudo começa, sempre em mim, por onde aponta o norte onde a arte é guia.

domingo, 4 de agosto de 2013

para ti, palavra-alada


Quando o mundo é uma brincadeira sem graça e tudo, de um estalo, fica cinza. É cinza o rio que passa aqui em baixo, cinza a velha rua de pedra, cinza os versos que li na madrugada. Nenhuma dessas formas de cinza é resposta. A perda, súbita, é como um susto, e eu ainda não sei que reação tomar. Ando no cinza, confuso, e tudo, num estalo, é pequeno: a briga, a mágoa, a incompreensão. Tudo ridiculamente pequeno, e como pó, some na mão.

Neste ano, essa sensação é cada vez mais uma verdade. Fio a fio, a aranha cinza de zinco, o tempo, destece as pessoas do meu passado. Destece a promessa de depois, dissolve tudo e me faz lembrar, olhando com os seus mil olhos, que nada, nunca, pode ser adiado, postergado, remarcado. Que se fazemos isso, é na confiança absurda no depois, de que a aranha cinza de zinco não está a destecer.

E eu que ainda tinha tanto a dizer, a saber, a conhecer pelas palavras que me viriam daqueles que a aranha desteceu, que não mais se pronunciam, que se separam de mim na dor da memória! E é incoerente saber que quando olho para trás, a cada passo que dou para frente, alguém sumiu do presente. Olhando este rio hoje, nesta manhã, ainda não sei destecer o rosto destecido pela aranha. Acho que nunca será destecido, mas não envelhece mais. Não sei bem, mas o tempo pode destecer alguém que a vida já não guarda o corpo, aqui, no presente, mas que ainda se agita na memória, palavra-alada que resiste?

sábado, 3 de agosto de 2013

para Thaís


Recebi a notícia pouco depois de acordar. Recebi telefonemas de toda sorte (alguns que há muito não recebia) e, aqui, em Passagem, é ainda mais difícil de acreditar.
Pensei em ti outro dia, lembrando da última vez que nos vimos. Teu sorriso e um carnaval. E tudo, de repente.
Ainda há fotos tuas (nas gavetas, nas caixas, no computador), ainda há velhas cartas nunca enviadas e bilhetes recebidos em datas variadas. Há a lembrança da última conversa, pelo telefone, um até logo, um até qualquer dia. E de repente o que me perguntam sobre ti não é mais o que andas fazendo da vida, por onde andas, em que lugar do globo estás agora sobre o mar. Eis que de repente, não me chega mais uma mensagem com um novo número de telefone, um novo endereço, uma ligação cheia de novidades, de novos amores e de novas festas em uma conversa recheada de nossas lembranças.
E eu nem sei o que pensar ainda. Ficou, mesmo e fundo, este silêncio. Talvez o mais profundo. O irrecuperável silêncio que, por mais que estude, só agora eu o entenda em profundidade.
Não fui te ver, talvez, por uma covardia íntima. Um egoísmo de não querer apagar a imagem que fica, teu sorriso ao ver margaridas, ao conhecer o mundo, ao fazer algo que gostavas, o sorriso de uma conversa de há muito.
Nos nossos distantes saberes, fica este espaço. E é estranho, podes estar certa, o que sinto agora. Sei que fica a palavra que me deste escrita em pedra, entre meus livros, teu sorriso e minha memória.
Fico contigo aqui, no que sobrou de tua voz em mim, nessas caixas de lembranças. E sabe-se lá por que, nas margaridas que tanto gostavas, no mar, em pedras do chão, nestes sinos.
E de repente, tu te transformas em silêncio profundo e intransponível.

domingo, 30 de junho de 2013

em face dos últimos acontecimentos




É tempo de tanta coisa: de manifestações, de ler o que a tese pede, de festival, de voltar a ouvir Chico e tocar João Bosco ao violão, de ler Baudelaire e de saber, sobretudo, que é hoje. É hoje sempre. Sentir que é hoje. Falei disso com o Pedrão: o hoje sem historicidade, sem sua temporalidade na presença, constituída por mim no meu hoje. Sinto que é hoje além de pensá-lo e qualquer análise muito longa, em qualquer devaneio no que pode ser de tudo e/ou no que foi de tudo, eu me perco nos tortuosos becos dos tempos verbais.

Da memória, em imperfeito pretérito que conjugo sempre, a saudade e a vontade de colocar as ruas por onde hoje piso nas ruas que pisei, as mesmas, mas com outros carros passando, outras pessoas, outras camisas no constante protestar. Há vontade de querer no hoje aquilo que eu vivi, mas não há nisso o minorar o hoje, com as ruas e as pessoas que hoje se ocupam dela, dos prédios e dos usos que hoje fazem as pessoas, de como, principalmente a juventude, faz uso desse hoje tão permeado de virtualidade e novos termos e usos – de telefones no hoje dos bares, nas fotos que hoje servem para o hoje, sem tanto recordar, numa outra experiência de viver, diversa da minha juventude. Este hoje muito mais denso, como um grande pêssego. É hoje nos olhos dos estudantes, hoje nos armazéns, hoje nas padarias onde se discute o manifesto – que ainda acontece hoje na internet, agora em algum post partilhado – sempre o só instante e o eterno adiamento do hoje também, porque é sempre hoje e tudo pode ser deixado para amanhã, até o amor.

Ontem, quando acordei, olhei o relógio verde da cozinha e pensei em um ponteiro dos segundos em motocontínuo – diferente daquele que reparte o hoje. Senti a angústia que faltava, a angústia que me levou ao salto ao lugar que eu tanto estudo. Quando Ana me perguntou o que tinha, respondi profundo: nada. Sentindo o movimento dos segundos em mim mesmo, como se a pergunta que me faço diariamente voltasse além da problemática central dos meus dias, senti lá, naquela suspensão, o que me refez. Voltei ao hoje mais sóbrio, outro por certo, mas que, até este instante, só consegue perceber de possível um breve tatear momentos-hoje.

sábado, 1 de junho de 2013

quando


teremos um caso qualquer quando o tempo já não for urgência e quando o que tivermos de pressa for uma ida ao armário, ao banco, às frutas da feira. teremos um caso quando o braço já for mais brando, o olhar mais manso, nosso sabor mais sóbrio. então, não perderemos tempo com presentes e festas, com bebedeiras de dias inteiros, e ao som de uma leve música, seremos (os dois) a leve dança que sempre adiamos, o beijo esquecido nas poeiras das estradas. só aí, maduros, o amor será mais que um só sentido.

(parte de nós de nós, ainda em composição)

da passagem


Na ironia do destino, foi em Passagem, ao lado de um rio, que eu fixei minha morada, cheio de perguntas e de decisões por tomar. Mais que morada, vivo em outra passagem que habito. A passagem das horas que estudo diariamente, relendo e pensando; a passagem que é a estrada de Minas pedregosa, que está repetidamente lida e repensada sobre a mesa; a passagem das águas do rio que passa por debaixo da minha janela, a passagem do tempo daqueles que ainda vivem aqui o entre-lugar de suas muitas opções e escolhas, aquilo que desorienta pessoas próximas a mim aqui. Nestas passagens, perdido ainda, vi BH numa linha divisória daquilo que pode vir a ser uma reconquista ainda indecifrada. Vi outras possibilidades de destino e ando cheio delas pelos becos, alimentando sonhos novos que nunca me ocorreram, decisões mais sólidas que ainda não havia computado, novas esperanças para trilhar um outro caminho que me era, até então, nebuloso e complicado, sem destino aparente. Mas na escolha tudo pode ser novo de repente, surpreendente como a passagem que sempre muda tudo, cheia de outras esperas, com grandes e largas estradas a caminhar, mais claras que esses becos de indecisão. A escolha das escolhas, ainda por tomar, que me sugerirá tantas mudanças porque nela haverá mais por mudar que coisas e suas funcionalidades. A minha mudança misturada para outra passagem, no eterno não permanecer. Partir, quem sabe, para mim mesmo mais sóbrio em alguma outra esquina além, em um lugar que reúna o que busco e que pode me surpreender com o movimento característico de uma novidade passageira.

sábado, 25 de maio de 2013

Porque o Corujão




Eu tenho me visto pela cidade. Vi a mim mesmo nos olhos de uma vendedora de loja que lembrou-se de que eu vendia, nas tardes de há mais de 12 anos, salgados e doces. Vi-me nos olhos de Cabeça quando passei por ele no Jardim e ele fez a mesma referência, com abraços calorosos de quem não se vê há quase 7 anos, desde um acidental encontro no Maleta. Este mesmo eu que encontro pela cidade também surgiu-me quando encontrei Cíntia, meio-dia, no Jardim, e se eu fechasse apertado os olhos, veria um banco onde as meninas todas estavam sentadas chamando por mim para comprar salgados depois da aula. Laura lembrou uma frase daquela época, que ela não viu, mas que ela adorou a história, de como conheci Ana Luíza em meio a sanduíches naturais. E foi a isso que Boy e Aline fizeram referência quando me convidaram para padrinho, e Aline lembrou do apelido há poucos dias.

Esta é a imagem minha que mais tenho revisto desde que cheguei: a época em que vendia doces e salgados pelas ruas. O apelido voltou cheio de ternura nos lábios de diversas pessoas! Ontem, tudo isso se resumiu nas lágrimas de Marcele. E o Corujão, lugar onde tudo sempre acontece, me deu mais esse presente. Marcele chorava porque me via depois de 10 anos. E lembrou tantas histórias, e se explicou para os presentes conhecidos tentando transmitir o sentimento. Dois velhos amigos que há muito não se viam numa mesa de bar onde tudo um dia começou. E ela lembrou do tempo dos salgados também, contou do seu momento presente, rimos daquela época e nos descobrimos vizinhos, nesta Passagem que sempre me surpreende.

Ainda não tomei um café na casa de Mãe Dôra, ainda não fui ver Tetê, ainda não vi a Lourdes (que espera não só a mim), ainda não tomei uma Brahma com Vanessa, Costilla chega essa semana próxima, Fabrício aparecerá qualquer dia, preciso ligar para o Fernando, preciso andar de trem aqui com o Welber, mas ontem, depois que Marcele chorou ao me ver sentado sozinho esperando Pedrão chegar, queria ter visto todo mundo e pensei que, como a noite já era mágica, que Edmar chegaria depois de sair do Sagarana, que Giu pediria uma dose de vodca, que Ana, Maguinho e o Boga gritariam na porta, que um violão chegaria nas costas do Dudu, que Clarinha chegaria com o sorriso imenso cheio dessas alegrias que transbordam em lágrimas no Corujão, no que existe além dele em mim, na sua continuidade nas ruas, nas calçadas centenárias.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Dos mapas



Chegar para partir não mais para outro lugar no mapa, mas para outro lugar em mim, entre as costelas, onde há frio como lá fora, onde há espaços ainda sem muito nome e nem muita função. Nos novos espaços, há choques constantes de tempos e de palavras, de verdades nunca sentidas – se é que verdades são, do que duvido – no fundo onde é tudo duplo: as ruas por onde passo, os contato com velhos conhecidos, o apreender os novos sem delimitá-los. Geografizar tudo em mim, desenhando um outro mapa e tecendo uma longa manta a que chamarei, outra vez, Minas Gerais. Nela, nem eu, já acostumado ao som das ondas, nem os livros, carregados ainda de grossa maresia, nem os móveis, habituados com o passar das tardes no calor, sabemos mais ao certo que lugar no mapa ocupamos, se de fato ocupamos mapas e lugares. Um longo vitral lilás nas manhãs frias explica a necessidade maior de café e cobertas, mas não explica as montanhas e o espinhaço, o sol batendo nas rochas. O frio é satisfação e não maltrata mais as mãos, há muito castigadas pelo tempo, mas não passa no turbilhão, no vento, nos nós dos dedos, na dor incessante no ombro esquerdo. O rosto no espelho não entende mais o que é o novo espaço urgente e intenso em um tempo de calma e contemplação. Sim, é tempo de contemplar por horas o pequeno rio. Mirar nele o espelho fluido e constante que é um conjunto difuso de explicações. E o rio me mostra que é preciso reaprender o outono no lugar estacionado no calendário. Decifrar o frio e o fio e refazer toda uma linha de pontos dados porque os nós estão se anovelando. O novelo aumenta, tropeça no bordado e em adjetivos. Tropeça em mim cada um desses nós que não podem buscar ouvidos ou pretendê-los no movimento incessante de intensidade, onde tudo é mais urgente; onde eu, que não tenho tanta urgência, ocupo a espera de outro mapa sem saber se no mapa ocupado há nomes e veredas, há a quem buscar abrigo na alvorada. Neste mapa, quem sabe se existe, e no outro, que não sei se existirá, haverá outro manto que é Minas, ainda não tecido nem experimentado, refeito no rosto que já tem, estranho rosto que já foi meu, um eu que agora vaga na noite em busca de outra face. Contorcer o rosto para nele caber os tantos mapas, as linhas da mão que nada dizem, os astros sobre a cama nos vidros sem palavras das janelas. Enredado, deito e contemplo o mapa do céu, com a colcha na mão, ainda sem saber se é manto, capacho, mortalha ou estandarte. Branca, sobretudo, pois não retirei dela as cores que a ela alinhavaria, as que aquecem, de fato, o que existe de cru nos riscos das calçadas, dos vícios das pedras vasculhadas deste rio. Então, desteço as noites e os dias sem ainda ter tecido coisa alguma, mas sabendo sempre que o primeiro ponto é rio.

terça-feira, 7 de maio de 2013

outrem


passageiro de mim desembarco
desse trem só movimento
no outono estacionado pleno em nada

teço o trilho azul que segue além
ao som de um rio decomposto
coberto de anilina e falsa forma

percebo neste trem do qual despeço
a peça pulsante de sentido
proposta pela máquina adiada

feita de delírio e triste espanto
na corrida desmedida, só mistério,
do que antes já foi vida e é resposta

condenso o trilho azul transpondo a linha
que divide o riscado das palavras
para trazer em mim o mesmo

que perdido já é falta
na paragem deste trem, som do vazio,
soltam ao ar as folhas deste outono

lugar que marca a ida e desencontros
na constelação contrária de um lago
onde miro o que em mim é outro dia


Passagem de Mariana, 7 de maio de 2013.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Das perguntas


Hoje tenho mil perguntas, menina. Chegará o dia que nem mais perguntas terei, tão grandes elas se tornaram. Ainda tenho perguntas que cabem nas palavras, mas sei que chegará o dia em que as palavras não mais serão uma opção, nem os gestos, e as línguas não mais poderão dizer o que pretendo de uma forma simples e limpa, como o descascar de uma fruta. Hoje, menina, ainda posso, quem sabe, esboçar um sorriso diante do medo da pergunta, sem saber ao certo se a pergunta que me provoca o sorriso me causa outra pergunta ou me assusta tanto que não posso senão ter com ela uma reação de convidado de sala de chá. Enquanto tenho perguntas, tenho dedos, olhos, mãos e sabores e mil ondas, uma quebrando sobre a outra e nas outras ondas outras formas de saber (que não entendo), como aquela conversa sobre a nobreza potente e divinal do mar que resume as metáforas da criação em ferro, sais e água. Enquanto tenho perguntas, posso ver nas chamas suas muitas cores a que chamam cores de chama, as brasas dos cigarros carregados de poemas de Bandeira, o vício dos antepassados de Pantagruel. O problema, menina, é que perguntas nunca sessam de perguntar, como crianças travessas que nos puxam as barras das calças. É preciso novamente jogá-las para o ar para caírem em minhas mãos com largos sorrisos para, em breve, ver-me envolto de crianças querendo o ar da discussão a me puxarem violentamente as calças e eu ficar, por fim, nu diante de todas, com o mesmo sorriso de sala das primeiras perguntas. Enquanto ainda tiver perguntas, ainda tenho um rosto ao espelho que duvida, sempre, da idade que quer ter a barba, que duvida sempre se é água mesmo o que sai da torneira, se é dia o que entra pela janela do apartamento. E se entramos em saber o dia, a aguá e o apartamento, entramos em saber mais do que é tudo isso além de tudo isso e para tudo isso há subterfúgios e quartos escuros, há sempre o debaixo da cama. Mas não sei se há embaixo da cama o debaixo da cama enquanto pergunto o que me pergunta a pergunta e de qual abismo eu falo quando falo do abismo da mesma pergunta perguntada e tudo por fim é complexidade e cor e densidade e brilho e fascínio e olhos e uma torneira aberta de um homem a se barbear. Enquanto houver torneiras, menina, pode ser que eu tenha um rosto para além das águas, da espuma e da lâmina.

Das palavras


O que fazer quando há palavras nos poros, nos dedos dos pés, nas paredes brancas da casa, nas janelas? O que fazer para pegá-las, colocá-las todas em seus tantos compartimentos e subdivisões – nas suas cores, seus contrastes, seus pesos e medidas – e organizá-las em horas de conduta como se elas, alunas respeitosas, fossem capazes de entender o sono, o silêncio, a hipocrisia sadia dos lugares de convite? Como fazer quando as palavras saem porque é preciso o tecido cheio de nós, e em cada nó uma pergunta e em cada pergunta outros tantos nós, como uma caixa de fundo fundo de onde brota grosso e complexo novelo que nada mais faz com a vida do que torná-la mais complexa? O que fazer quando é preciso dividir as palavras – no tempo, no branco da página, na lousa, na cama, com as pessoas – e entender que existem palavras de bom-tom, palavras de uso diário como minhas camisas, palavras viciantes como o ópio, palavras que só podem ser ditas à meia luz e ao pé do ouvido? E se elas, todas, desrespeitassem certas normas de conduta, estariam por fim soltas da velha sintaxe, essa amarra maior que nos prende e que as obriga a voltar, emudecidas, aos seus lugares na gramática? E se as palavras, revoltadas, implodissem a gramática, a sintaxe, a práxis, a ortoépia e desse a todos esses termos nomes de flores, de belas cenas, ou só grossas cores e densidades? Se as palavras, saltadas de tudo isso, sem sintaxe e gramática, pudessem ter mais sabor que as frutas, mais aromas que os perfumes, mais sal que o mar, estariam elas nos abandonando por fim? Será que só nesse fim, onde as palavras podem, enfim, se verem livres de nós e das línguas, das letras e dos sons e dos gestos dos surdos e dos dedos dos cegos, será que só aí elas parariam de sofrer e nos deixariam em paz, como são as cadeiras, as conchas, as colchas de retalhos, um lápis?

sexta-feira, 12 de abril de 2013

José, e...

De repente, ficou o convite suspenso, aquela cerveja prometida, um dia em que tocaria violão para você. De repente, a possibilidade de outro carnaval de novo em Minas, de outro carnaval em que rir era a maior terapia, como nosso carnaval capixaba, de mais uma noite lembrando de sua assinatura do Pasquim, falando dos livros que você leu, dos que eu li, das nossas primeiras leituras. De repente, eu não vou ter mais as perguntas, os conselhos, o falar de futebol, o esperar para ver quem agora está comigo (e nem deu tempo, meu velho, desta vez) e de nós todos - eu, você e os meninos -, dos nossos muitos momentos nesses 30 anos. E é difícil quando tudo, até a expectativa da notícia da minha volta, agora tornou-se só a reticência e a lembrança. De repente, esta casa, este outro lado da rua, esta madrugada em lembrança e reticências. Para hoje, não há poemas que preencham esse silêncio.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Carta ao mar

Não, mar, não é um abandono. Eu subo as montanhas porque eu busco outra forma tua, flutuante, na neblina. Eu vou te ouvir, mar, em uma de tuas formas, como um pequeno riacho aurífero que corta o mundo até teu abraço salgado de lágrimas. Eu subo, mar, pois quero teu afeto ainda doce de chuva, sem tanto rugir, para assim lembrar da tua fúria com mais memória de sal preservada. Lembrar das tuas ondas no cais em maio, teu azul profundo de setembro, teu constante quebrar que perturba e perpetua a mais autêntica forma de amar.
Não haverá, mar, entre nós, as corriqueiras distâncias. Soltarei no riacho da pequena Aldeia as palavras que te disse em muitas tardes destes anos que passaram. E se não ouvirei mais teus barcos, teus navios manchados de mundo gritando ao entrar na baía,  buscarei perceber no vento um pouco do que corre sobre tua pele de espuma.
Teu vestido azul, mar, não estará mais na vista do dia, ao sol, como tornou-se em mim um constante contemplar. Estarão os muitos verdes, o dorso do Espinhaço imponente e assustador, as explosões dos bambuzais morros à-fora. No verde do manto do rochedo, eu verei teus olhos e estaremos nós dois, novamente, na impossibilidade que é nosso trocar afagos quando banhas meus dedos com teu suor de agonia pleno de sorriso. E sempre será possível jogar meu corpo nas águas de algum rio para ele me levar a ti em algum pensamento possível de ser compartilhado só contigo, deste pensar que cada dia é mais inútil de comunicar e mais afastado do sentir.
Até breve, mar, no espaço. Fica meio beijo na areia que tu levarás aos afogados e levo-o em mim no sal sanguíneo do meu corpo, morro acima, para os pés de ferro onde o Espinhaço tem forma de menino.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Era preciso compartilhar o mar, o Penedo, o cais do centro. Talvez dar aos olhos dos outros o que é possível discernir no convento, a Reta da Penha cortando, minúscula, a parte leste da Ilha. Dar o cheiro do mar, as conchas partidas entres os barcos da Prainha, o sol que se deita ao longe, cobrindo de sombras dentadas a praia desenhada pelo vento. Era preciso dividir os barcos que saem lentos da baía, que entram lentos por debaixo da ponte pela manhã, o som de suas chaminés que ouço dentro da madrugada. Mas nada disso se dividiu, se compartilhou. A Ilha ainda fica reclusa, aparente aos meus olhos, aos olhos que a ela se acostumaram, voltados para dentro com uma ácida timidez. E se perdeu, por fim, a chance de se dizer da sua beleza quando, num dia comum, em plena quarta-feira, uma escadaria do centro apareceu colorida, ornada com sombrinhas, meu presente singelo para depois.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Tear de ondas, I, primeiro movimento

Pela primeira vez, o Desde que o samba é samba extrapola a palavra escrita e lança-se no espaço do áudio.

O poema que aqui eu leio é o primeiro do meu próximo livro, Tear de ondas, que será lançado, espera-se, até o fim de 2013.

O áudio é uma parte do texto, que possui grande carga visual. Por isso, o leitor - agora ouvinte - deste blog não receberá mais que uma pequena amostra, um leve aperitivo, só o som do movimento dos pentes deste tear.

Espero que gostem.

Para ouvir, clique em Tear de ondas, I, primeiro movimento

sábado, 2 de março de 2013



Terminado. E o que significa? Significa voltar para a casa que pede atenção? Para as cadeiras que precisam de reparo, para os móveis que precisam de mudança, para a máquina de escrever que silenciou em respeito aos prazos? Significa voltar ao vento da janela, à cômoda que tudo acompanha, ao sabor frio do mar em março, seu balanço constante de sim e sim sempre em espuma? Significa voltar às ruas, olhar as pessoas no rosto, ler romances do XIX, reler poemas de Neruda, ouvir Caetano e mexer em antigos papéis? O que significa, por fim, terminar? O nome é terminado, terminação de algo que me chega na ponta do braço e some, entre os dedos da mão, como a areia da praia? Significa empacotar tudo, colocar em caixas e caixas a vida – se é que a vida é possível de encaixotar-se – e montar em um antigo vento que carregará a nau imaginária de mim de volta ao que de montanha tenho no sangue? Significa ver a montanha que me guarda o Espinhaço, seu olhar imponente que espera a cada instante o carinho do sal do Atlântico que nunca retirará dele as arestas, que nunca preencherá o vazio deixado pelo ouro retirado de seu ventre? E o que significa esta nau que vaga no vento, de velas infladas, com bússola que indica milhares de caminhos, mas que sempre me leva ao mesmo solo antigo de um garimpo abandonado, suas bateias de ferro que aqui, frente ao convento, são o preto vento que me entra pela casa? Como mergulhar neste vento que é só mar e busca, e enfim, ter um significado terminado para o que se há de terminar? 

sábado, 19 de janeiro de 2013

Do amor, II

Como saber do amor além de seus contratos? Além de seus mais leves anseios e mais profundas formas de tranquilidade? Além de nós dois, expostos sobre as velhas sombras que nos acompanham pela vida sem razão aparente, esta forma insdispensável que nos contrapõe ao mesmo êxito? Como inaugurar o amor além de nós mesmos, problematizá-lo, digeri-lo, se nele estamos imbuídos ao contrário acordo que firmamos com os passos, com os objetivos primeiros dos nossos passatempos, do nosso rumo mais válido entre o sim e o sim? Como pensar o amor além da sua miséria maior, cheia de vontade, de nosso melhor espaço de sono e nossa pior verdade de ausência, quando nenhuma palavra anseia ser, por fim, ela mesma, plena de razões, quando não entendemos as velhas posturas daquilo que nos extrapola, do que nos está além em todas as suas propostas mais básicas, mais indistintas? Como delimitar, por fim, um amor possível dentre todos os que experimentamos na tarde, no fim de mês, no sábado pela manhã, no banco? Como amar na cidade que não comporta mais nada e onde os sons são abusos; os aplausos, provocações; as manias de sentir, coisas perpétuas? Como, enfim, amar a potênica que o amor nos delega, a potênica que existe dentro da palavra, seu sal e seu mais?

domingo, 13 de janeiro de 2013

dos versos


A máquina de escrever trabalha incessantemente em algo que ainda nem tem forma, mas é em verso bruto que precisa de gaveta e lapidação, de tempo – muito tempo – como os que eu deixo guardados nas caixas espalhadas pela casa. Há então a busca por outros versos, mais leves e de força. Nos versos laranja que a Vanessa escreveu e que não mais tiveram versos sucessivos. Nos que escrevi sobre a foto de Joana, nos que Fabrício traduziu – em bela e aventurosa tarefa, e que tem exemplar dedicado a Edmar aqui esperando o caminho dos correios, a postagem urgente que nunca acontece e que incomoda a mim por não fazê-la cumprir seu destino. Há também os versos da tese, o que está no pulso da Ana, os que escrevi para ela e que ainda não foram postados, dedicados, remetidos. E os versos todos se aglomeram e enchem os pulmões de densa neblina e fumaça. Querem sair, urgentemente, como o vômito a que Gullar comenta no prefácio do Poema sujo, ou como as ondas dos versos de Neruda, ou como as partitivas e desenhadas palavras dos densos poemas de R. D. Laing. Dentre os versos que se acotovelam nos pulmões, entre a neblina e a busca pela liberdade, um açucarado verso de Césaire: “Le sucre du mot Brésil au fond du marécage.” Césaire, que ainda espera uma tradução corajosa e aventureira, que merece estudos e que quase ninguém conhece no Brasil. O martiniquenho que tem belos versos sobre o samba, que põe nosso batuque em sua lírica. E Césaire tem ficado junto com tantos outros versos neste balde de vontades que não me abandona os pulmões, que não se resolvem! – se é que versos se resolvem algum dia. Nem o mar resolve esses versos. Quem sabe jogá-los na água salgada do mundo, como diz João Cabral, mas não para tirar os que boiam. Para ver os que afundam numa turva água do mar. Para ver qual deles germina no meio do sal e que, potente, cresça varando o leito das águas, chegue às nuvens e viva qual planta carnívora que vai, por fim, nos devorar.