quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Pelo mês do aniversário do Poeta Maior

Estamos a praticamente meio mês das comemorações do aniversário de Drummond. Este ano, se estivesse vivo, o poeta comemoraria 108 anos de vida em dia de eleição. E neste ano, ele não aparece, escondido que está, dentro de seus livros.

O mais engraçado é que a popularidade de Drummond vem assomada de uma série de coisas. O poeta é mais uma marca do que reconhecido pelos seus textos. Tem estátua no Rio, estátua em Itabira, Fundação cultural, selo comemorativo, moeda especial da casa da moeda, bóton, camisa, chaveiro, bibelot de estante, xícara, quebra-cabeça, viaduto, bilhete de ficha de cerveja de festa de DA de letras: Carlos Drummond de Andrade virou coisa.

As coisas Drummond, pelo país, são rios de lucros para comerciantes que o exploram como a uma mina de ferro, de ouro, vendendo-o a um conjunto de fãs que colecionam - como eu - cada uma dessas quinquilharias. Falta ser marca de perfume e rótulo de conhaque.

Logo ele, que inveja a força das coisas. "E eu não sou as coisas e me revolto", verso de Nosso tempo. Logo ele, tão preocupado com o não tornar-se etiqueta, que tanto pediu pela paz dos picos de Itabira, quando ainda existia pico em Itabira.

A coisificação da figura do poeta é um fenômeno ainda não pensado e de difícil digestão. Como coisa, Drummond vira marca, produto, tem preço estampado. Drummond já foi moeda corrente de rápida desvalorização no plano Cruzado.

Nisso, claro, há o reconhecimento do amor que o povo tem por seu poeta. Se não fosse amado, não seria tão lembrado. Mas o problema é que em tudo que se vê gosto também se vê dinheiro e o que ele é capaz de fazer com a imagem do poeta: vendê-lo, só por ser ele, por qualquer meia dúzia de reais.

Isso me incomoda um pouco. Drummond deveria ser lido, ser estudado, estar na vida das pessoas por seus textos. Não porque se tornou coisa, como monumento público ou xícara de café. Deveria estar por ser literatura, não pela sua figura pessoal. Transformar Drummond em coisa é esquecer, em parte, o que Drummond dizia, na ilusão de que a comercialização de sua imagem o mantém vivo.

Deveria estar na boca do povo e não no bolso das políticas públicas oportunistas, como a secretaria de turismo de Itabira tanto explora, e a de obras de BH tanto faz questão de edificar. Os escritores brasileiros deveriam ser patrimônios não por serem pessoas geniais, figuras de outdoor, e sim porque escreveram coisas geniais, que não se estampam nos mesmos outdoors.

Não acredito que a coisificação do poeta propicia uma maior leitura de seus textos. É fenômeno que merece ser pensado. Fato é que Drummond agora é produto mercantil do mundo caduco que criticou.

Mas, independente de ter virado coisa, Drummond merece os parabéns, talvez um dia, um feriado. Parabéns, poeta!

Um comentário:

  1. É isso aí! Mas como diria o nosso bom velhinho:

    "As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis / à palma da mão / mas as coisas findas / muito mais que lindas / essas ficarão"

    Evoé!

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