quinta-feira, 21 de junho de 2018

Sobre perder a paciência


Estou de saco cheio da direita coxinha do Brasil. Cansado mesmo. Porque é um conjunto de absurdos que se sobrepõem. Cansado do seu constante preconceito, do seu ódio profundo e da sua completa falta de leitura e informação. Cansado de tentar argumentar.
Nos últimos anos, eu ouvi um caminhão de abobrinhas. Ouvi que bandido bom é bandido morto, que há sim cidadãos de primeira e segunda classe, que é um absurdo um funcionário que recebe comida e casa em troca de trabalho reclamar que não recebe salário. Cansei de ouvir um conjunto grande de machistas falarem absurdos de alunas, de colegas, de funcionárias, entendendo as mulheres como coisa, como propriedade. Cansei de ouvir que defendem a família e mantêm amantes, que defendem a propriedade e invadem terras de assentamentos, compram terrenos ilegais, ocupam áreas de preservação. Cansei de ouvi-los reclamar de corrupção e estufar o peito e dizer que sonegam impostos porque é a única forma de engordar muitas vezes o já alto lucro da exploração do trabalho.
Os absurdos são sempre os mesmos, das mesmas fontes. Fiscais da língua, não sabem escrever direito, mas zombam dos pobres que, ignorantizados por um sistema educacional elitista e excludente, não tiveram acesso à escola. Pessoas que acham um absurdo o preço cobrado pelas diaristas e empregadas domésticas, mas que nunca receberiam o que elas recebem para limpar sequer suas próprias privadas. Cansei de tanta homofobia, que não vê o amor em suas múltiplas formas.
E não, não é uma questão de política partidária. É de educação mínima, de humanidade. Essa classe não é humanizada, educada suficiente. É ignorante porque ignora saber, ignora aprender e é incapaz de lidar com o outro em suas múltiplas formas. É uma burrice galopante e desgovernada que se arvora em títulos que nada valem, em uma hierarquia impossível de ser pensada no Estado Democrático. Essas pessoas que acham que sobrenomes ainda têm algum valor moral. Que defendem que faxineiros não podem conversar ou se relacionar com médicos porque os “doutores” de coisa alguma se sentem sempre superiores. Cansei.
São toneladas de arrogância e ódio. Porque eles sabem que não têm nada. Não têm estudo humanizado, não têm leitura de mundo, não têm complexidade de raciocínio. Não têm prestígio, não têm poder. Sabem que se nós soubermos que eles ainda vivem e esperam que tudo funcione como no século XIX vamos sentir pena e nojo deles. E eles não estão mais em nenhum lugar de discurso possível no mundo. A eles cabe a força. Porque é disso que se valem os ignorantes. Os idiotas.
Cansei também dessa fixação que têm com Lula. Eles falam mais em Lula do que qualquer outro seguimento. Eles o odeiam porque ele existe. Eles o odeiam porque ele nunca foi um deles e foi o presidente do Brasil mais respeitado no exterior. E eles não vivem sem o Lula porque eles não têm mais onde depositar a culpa de suas próprias desgraças e frustrações. Eles se ferraram sozinhos pelas escolhas que fizeram, mas culpam o Lula pela desgraça. Como culpam as mulheres e os maridos que os obrigam a trair, como culpam o demônio pelo pecado que cometem, como culpam os signos pelas arrogâncias e faltas de educação que praticam. Sem o Lula, eles teriam que lidar consigo mesmos, e nem eles mesmos se suportam.
E eles estão aí, relinchando. E seguirão. Mas eu não tenho mais tempo para esses relinchos cheios de ódio. Eu não tenho mais paciência. Eu tenho mais o que fazer da minha vida. Que chafurdem na lama xingando o Lula pelo fato de estarem dois séculos fora do tempo.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

um conto curto


Por anos adiado, cansou-se. Parado na rua, numa tarde de sábado, olhando os carros passando sem tanta pressa, pensou que um café com ela seria bom, mas ela havia dito que talvez na semana seguinte, quando tivesse em melhor condição de tempo. Cansou-se quando, numa noite de segunda, pegou o ônibus e foi, novamente sozinho, ao cinema, mas que no próximo sábado seria ideal porque ela poderia, enfim, deixar o gato na vizinha e ir, mas com um tempo curto, apertado, cheio de compromissos. Cansou-se numa quarta de férias, numa livraria, quando achou o verso do poema do livro que iria comprar bonito, e sabia que não adiantaria ligar o telefone porque, talvez, estivesse ela ocupada com outro a-fazer.
O tempo, essa joia. E ele descobriu a joia, claro, sozinho. Como em todos os compromissos sociais, como em todas as noites remarcadas e vazias, como no balcão do bar quando se soube desempregado e estava em completo desalento. Sozinho no velório do amigo, na comemoração do título de campeão. Sozinho quando se via tendo que sentar ao telefone todo dia no mesmo horário para saber de problemas que não lhe interessavam, de pessoas que muitas vezes ele nem conhecia, mas que saberia que talvez aquilo fosse a única oportunidade de atenção, até o próximo não, até a próxima data remarcada, a viagem reprogramada. Outro constante adiamento, sempre uma rotina.
Na tarde de sábado, quando definitivamente se cansou, uma criança brincava com um balão colorido. Vermelho, o balão sem hélio, só com ar de pulmões, escapava pela calçada. A criança corria atrás até o balão atravessar a rua. Uma criança e seu balão. Cansou-se. E olhando as próprias mãos, sorriu. A liberdade é imperiosa quando se faz lúcida. Ela nunca houve. Um sonho, um fantasma? Uma projeção sua? Uma insegurança? Uma conjuntura histórico-social invertida e, portanto, justa? Que diferença fazia naquela tarde! A alegria de saber-se presente e de nunca mais ser adiado, reagendado, remarcado e postergado, fazia-o se sentir livre. Não era mais como um livro, um boleto, uma conta. Era um ser livre, capaz de correr na calçada com a criança atrás do balão que escapava e que estava ali, como tudo o mais estava ali. Estavam ali as árvores que ele via, o sorriso dos transeuntes, o casal de namorados abraçados e distantes. Estavam ali os vidros das janelas, os cães de rua. Nada ali lembrava que haveria depois. Ele, sempre para depois. E sentiu a vontade madura de só correr pela rua, para sentir se as pernas ainda estavam ali e se não o adiariam também. Se o ar em seus pulmões não teria um compromisso inadiável que impediria sua presença. Se os sapatos não o trocariam por uma sapateira, se seu suor não o deixaria em troca de escorrer-se no chão de algum banheiro. Só a sensação de pertencimento do tempo. O tempo que é sempre hoje. Essa joia. O tempo que era sempre mais rápido que ele, e que o fazia querer correr. O tempo imperioso e libertador. Cansou-se. Depois... Nunca mais outro depois.

domingo, 3 de junho de 2018


a mudança é um poliedro
é interna
carnuda
abissal em cada caminho
transforma o pós em então
e o hoje se alonga ao longo passar

a mudança é um poliedro
remonta velhos carnavais
busca nos becos a fome antiga
o beijo ameaçado
o amor nunca vivido de fato
adiado
irrompe a manhã de cores
[vermelha amplidão de mim]
onde me desfaço em descompassos
descarna as peles das cores
minhas cores em sal

a mudança é um poliedro
múltipla hecatombe de processos
dados que não sei ler
informações difusas de mim
num rosto que é meu ante o espelho
um rosto alongado e triste
marcado pelos segundos do tempo
um tempo multilateral e opaco
cheio de velhas fotografias e perfumes
e um sorriso largo que sempre volta na noite
entalhado em madrigais

a mudança é um poliedro
confusa amarração de notas
sem verticais sabores
onde o que cabe na mão é falta
[o reflexo dos óculos nas janelas dos ônibus destinos afora]
[o espelho da água quando vista por debaixo quando submerso]
entender que o limite da água sobre a cabeça
argêntea
é só outra passagem
uma mudança
dentro de outro poliedro

quarta-feira, 21 de março de 2018

Queria poder dizer coisas boas
do tempo que vivemos.
Nas filas dos bancos,
muitos comentam a sensação de precipício.
Lembranças como âncoras capazes de dar razão à escolhas impensadas.

Hoje sou eu o estranho no meio de tudo
quando penso?
Estranho por entender que nada retornará?

Mas ainda há sonho entre ladeiras de pedras e noite.
Ainda há sonho, suas portas cinzas de duas abas,
suas janelas, sua imensa casa.

Estou nele clandestino
morando novamente num sorriso
em meio a esse tempo amargo de embargo.

Há barulhos no forro do teto.
Há medo nas mãos e nos gestos.
Há medo de tiros e guardas.

Mas há sonho onde entro
e está na sala o lutar sentado à espera
habitado por desconhecidos que me me abraçam
habitado por uma memória coletiva
daqueles que habitam o mesmo sonho.

Há uma amarga e estranha lembrança,
entre um cinza e outro de dias de chuva sem bucolismo e lirismo,
de mofo nas coisas que realmente incomodavam,
de aranhas venenosas e verdes
descendo pela lateral dos muros que pouco compreendíamos,
que davam para o odor de valas comuns
invadindo as janelas.

A vista arrepiante do lugar fechado
do horizonte mostrado na ponta do dedo:
morro por onde passavam carros barulhentos.

Mas é isso que guarda o lutar na sala do sonho:
o opaco abismo para nos dar coragem de passar.

Estamos, braços dados, indo à porta:
como quando da primeira vez.
A rua íngreme de todo dia,
cheia dos nossos afetos
mudará o rumo da praça.

A praça, nossa casa.
À praça, todos gritam!

E no retorno de nós de braços dados à praça
às ruas
revemos velhos rostos conhecidos,
mudados pelo tempo e pelos hábitos.

Revemos de novo o sonho.
Revemos de novo o lutar:
Não mais os dias cinzas de agonia.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Edson Luís, Marielle, quantos mais?


Este blog tem, desde a campanha de 2010, denunciado que as elites brasileiras não perderam o tom golpista. Assim os chamava já naquela época. Quando Dilma foi eleita, pensei: é muito para os militares. Isso pode reacendê-los. E aconteceu.
Lembro-me da noite que Dilma ganhou a eleição em 2014. Estava em BH. Desci de ônibus para o comitê da campanha, vazio, porque a festa havia sido transferida às pressas para a sede do Partido. Aécio havia fechado dois quarteirões de avenidas em torno do seu comitê nacional, em um prédio de um hotel desativado na Praça Afonso Arinos, onde a esquerda sempre se reúne em BH, antes de sair ou voltando de um protesto. A poucos quarteirões do comitê de Dilma. Os dias finais da campanha foram violentos. Sair de vermelho sozinho em BH poderia acabar em espancamento na rua, com aplausos da polícia. No dia da apuração, horas antes do resultado, a PM de Minas estava fardada e pronta na frente do prédio e Aécio havia se apropriado da cidade como se fosse dele.
Na primeira chamada de televisão, ainda perto do comitê da campanha do PT, esperando por Isis, uma amiga, na Avenida Brasil, saiu a primeira chamada de que Dilma estava na frente, por pequena margem. Garçons de um restaurante burguês da avenida sorriam. Seus clientes não. Quando o resultado das urnas anunciou a presidência de Dilma, disse à Isis, já na rua em frente a sede do PT: “quero ver se os golpistas deixarão o mandato dela acabar”. Estava certo. E juro que queria estar errado naquela noite.
Quando o processo do golpe iniciou, pensei: nunca foi sem militares. Em algum momento eles voltarão. Voltaram. Estão nas ruas do Rio, e não é propaganda, é atividade de tomada de poder. Falta agora não ter a eleição e o golpe estará, definitivamente, terminado. Se não acontecer antes das eleições, acontecerá depois, quando Lula ou seu indicado for eleito. Porque eles não sairão de lá tão fácil. E tudo o que acontece no cenário político atual pode ser justificativa para que, numa jogada de parlamento, Temer passe a faixa para Braga Netto. O Palácio Duque de Caxias, o Comando Militar do Leste (novamente o Comando Militar do Leste), já deve ter seu ministério todo formado. Não se deve discutir outra coisa no Clube Militar. Esses nomes que antes colhíamos dos livros de história agora de novo nos jornais. Na boca e no dia-a-dia das pessoas.
Eu sabia quem queria o Brasil de volta. A classe média não estava na conta. As viúvas do Regime repetiram o texto de 1964. Repetiram as faixas, as mesmas faixas, repetiram as datas. Foram só a manobra que foram em 1964. Porque a classe média é o cão raivoso da elite. A classe média baba e rosna para ganhar os ossos da ceia, as migalhas que a elite lhe joga da janela para que os membros da classe média disputem privilégios com os narizes na lama. Pagará um preço por tudo isso, mas prefere pagá-lo a ver a igualdade de oportunidades chegar a todos. Prefere pagá-lo a ver o país protagonista no cenário internacional. A ver o Brasil produzir ciência e tecnologia de ponta, criar patentes de medicamentos e de sistemas de engenharia. Prefere tudo, menos as classes populares definindo os rumos do país. Porque elas esperam por isso, pagaram caro por décadas para ter essa chance e nunca conseguiram. Porque a classe média é, no fundo, egoísta. Ela está há séculos querendo entrar na casa das elites, parada na porta esperando uma brecha. É convidada vez ou outra para uma festinha, mas nunca participa das decisões. E como pode o povo, de repente, decidir, sem nunca ter lambido as botas das elites antes? E isso viria, mais dia menos dia, na sucessão eleitoral aberta pelo PT, para a dinâmica de novos – e importantes – governos populares. Isso seria intolerável para ela.
Um dia, ainda durante o curso do golpe, um ex-militar da cidade onde eu moro disse que torcia pela volta do Regime e que assim que os militares tomassem o poder, eu seria o primeiro que ele pediria a prisão, a tortura e o assassinato. Isso porque eu defendo as conquistas dos anos do PT, defendi e defendo Lula, defendo o ensino gratuito para todos. O ex-militar, com esse ódio guardado em algum lugar, disse que me colocaria na prisão para ser brutalmente torturado porque eu discordava dele. Nem nos anos de luta estudantil e de militância no Movimento pelo Passe Livre, contra a máfia dos transportes capixaba, eu fui ameaçado nesse tom. E eu nem sou tão ativista quanto Marielle. Eu não sou nada perto de Marielle.
Eles são capazes dessas ameaças e mais, são capazes de genocídios. A matança começou antes de Marielle. Matam ativistas nos rincões do país há décadas. Matam líderes do MST, líderes de comunidades quilombolas, líderes dos povos indígenas, líderes sindicais do campo, matam líderes comunitários e representantes das favelas. Matam negros por serem negros, pobres por serem pobres e jogam corpos anônimos em valas comuns, nos valões, em rios. Mas a execução de Marielle foi um recado: “estamos de volta, preparem-se”. Estão de volta e prontos para reabrirem seus porões. Prontos para matarem os que não conseguiram matar e calar quem não calaram para satisfazer o sadismo do sistema e para impor a agenda política que nunca venceria nas urnas. Impor pela força.
Estamos em 2018? Não, estamos em março de 1968, com mais um caixão atravessando a Cinelândia. Edson Luis. Marielle. Quantos mais? Por quantos nomes mais precisaremos gritar “Presente” em passeatas porque nos levaram suas vidas? Quantas panelas sujas de sangue voltarão às sacadas para repetir com suas batidas os tiros de fuzil que se ouvem nas matanças diárias nas periferias do Brasil?
É 1968, não se enganem. Estão de volta, a poucas horas de concluir seu plano sórdido. E eu não me assustarei com outro modelo de AI-5 antes de outubro desse ano. Estamos, novamente, em 1968, repito. Infelizmente a noite voltou mais rápida. A luta será maior dessa vez.

quarta-feira, 14 de março de 2018

As minhas águas do mundo


Nasci às margens do Córrego da Serra. O da Serra deságua no Arrudas. Quando nasci, o Arrudas tomava a parte baixa de BH nas suas muitas enchentes. O da Serra nem era possível de ser visto e por anos achei que sua existência era lenda. Via-o sumir no Parque das Mangabeiras para o sem fim. O da Serra cai no Arrudas. O Arrudas segue para o das Velhas.
Conheci o das Velhas ainda criança. Cruzava a ponte sobre o das Velhas para chegar em Antônio dos Santos, distrito de Caeté, onde meus avós compraram um sítio. Tinha um rio que cortava o distrito, o Vermelho, alimentado por águas desse sítio. O Vermelho cai no das Velhas. 
O das Velhas nasce em Ouro Preto. 
O das Velhas cai no Chico. O Chico vai bater no meio do mar, como falava o Velho Gonzaga.
Morei às margens do Córrego do Seminário. O do Seminário deságua no Carmo, que corta Mariana. O do Carmo nasce em Ouro Preto. Quando o do Carmo abraça o Piranga, eles viram o Doce. O aurífero do Carmo, revirado pela eternidade pelo ventre de ouro. O do Carmo. Nome da padroeira, nome da Vila que sumiu quando a Fiel Cidade Mariana ganhou nome. O do Carmo. Da igreja que pegou fogo, dos reis congos do Rosário que vão à Mariana todo 16 de julho louvar a Virgem, receber o manto: o Capitão, a Tropa, a Corte, o Rei e a Rainha. Estava um dia na padaria, num 16 de julho de há muito, quando o Rei Congo entrou coroado, vestido de cetim azul. Levantei para Nossa Majestade, o Rei. Saudei o Rei. O Rei Congo. Nosso Rei Congo, que recebeu às escondidas o manto do Carmo da mão do prefeito, depois que o rei congo do Rosário de Ouro Preto lembrou que estava em outro reinado, de poder de outra monarquia. Nosso Rei Congo, da Vila do Ribeirão do Carmo. 
O Carmo abraça o Piranga. Desse amor, nasce o Doce. O Doce vai bater no meio do mar, como diria o Velho Gonzaga.
Depois, morei nas margens do Manhuaçu. O Manhuaçu alagava tudo em novembro, nas cheias. O Manhuaçu ainda alagada tudo, nas cheias. O Manhuaçu deságua no Doce. O Manhuaçu é o maior afluente do Doce.
  Por um tempo perto de um afluente do Chico. Por outro tempo, perto do futuro Doce, e de outro afluente. Por outro tempo, no Atlântico, onde deságuam o Chico e o Doce. 
Hoje moro às margens do Chico. 
Minha vida definida por dois rios: o Chico e o Doce. Ambos morrendo. O Doce, pelo minério. O Chico, pelo desmatamento e pelo assoreamento. Morrem também o da Serra, o Arrudas - há muito morto, só esgoto - o das Velhas. Morrem o do Carmo, cheio de mercúrio da mineração e cheio de esgoto, o Piranga, assoreado e cheio de esgoto, e o Doce, hoje só resíduo de minério. Morre o Manhuaçu, envenenado de agrotóxico das lavouras de café.
Tudo isso vai bater no meio do mar. O Atlântico. O meu Atlântico.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

corpulso


Sem corpo é impossível. Porque o corpo é imperioso, necessário. Urgente. Definidor e problemático, ponto partido de partida de onde sai-se ao outro, também corpo, nos seus espaços urbanos cheios de corpos e suas linguagens, cheios de corpos e seus suores, cheios de corpos partidos em mãos e braços, paletós e pulmões, partes indefinidas de biologia. O corpo catalogado, dividido, numerado, tatuado, contato e expandido. Explorado até o enjoo, abusado e perecível. Comum. Substantivo comum sem gênero.

O corpo definido, moldado, medido, pesado, na ideia de corpo comum social onde há um corpo especial que não é o meu, não é o seu, não é de gente possível de anatomia natural. O corpo a que se deve amar, mas sem corpo. Por que? O que se deve ter, que não é. Por que? Onde o que é corpo engloba olhos e vaginas, pênis e pâncreas? Onde joelhos e onde amídalas? Onde isso perde o nome que tem na medicina e volta ao corpo como corpo, inteiro, para ser tocado e sentido, ser bebido e devorado em rituais antigos, sugada cada gota sem desfazer a face, preservado em faixas embebidas de ervas para renascer no além, onde o corpo é necessário, porque não há mais nada além? O corpo quadro no museu exposto e quente onde a mão sente seu pulso em tela ou pele de peles se esfregando nas roupas que se raspam nas ruas lotadas? Como amar o corpo em seu corpo sem mais, e viver nele esse amor sem distância e telefone, sem site e revista, sem foto de comida às três da tarde de frente à praia em Cancun que ninguém irá com seus corpos se banhar e se lamentam, mas não lamentam perdê-los entre papéis e quartos de escritório, teses de passado tempo, histórias de Stendhal?

Na carência de alimento, o amor cria narrativas. Um início, um meio, nunca um fim. E sempre, ou quase sempre, um corpo secundário, um sentimento inflado e vermelho, em primeiro plano do palco, tentando convencer a todos que existe autônomo. Corpo como um copo com pouco líquido que cheira sândalo, mas não se bebe com a boca com sede de água de poço fresca, para lavar o esôfago da fala inútil e fatal que tenta provar que o amor é além-corpo.

Pensar o corpo nele, seus poros. O corpo no corpo, seu devir. O corpo principal e central, que emana e pulsa, que esquenta a mão do outro quando há toque, umedece-a. Sentir o corpo pulsando nas palmas das mãos, nos lados dos dedos. Dar-lhes cheiros de corpo ou de jasmim, quando achar ocasião. Vesti-lo de aromas em pedaços e pensar: é corpo que se sente nas narinas, também corpo. É corpo que se sente na boca, nas línguas e nos dentes. É corpo que se sente no outro corpo emaranhado, onde tudo se perde: noções absurdas de tempo e de limites. Um corpo com-sem fronteiras, por fim, implementado, pleno. Capaz de ousar o fim. Mas é corpo que há, sem mais.

Além é palavra. A palavra corpo e sua função de sujeito e sua função de objeto. A palavra corpo descrita da morfologia: substância substantiva substantivável de sublime. O corpo nu, sem palavras. O corpo aquém e além da linguagem, debaixo da unha e na pele riscada de vermelho, no cabelo que se aperta e se afaga com suor e sabão. A impossível implosiva violência significante impondo ao corpo o corpo, contra e entre, para e desde, onde e perante, por-se atrás, por trás, através. Terminando o inalcançável termo, tato palatal, saliva e espuma, onde não há divisórias. Corpo, enfim, sujeito e objeto sem sintaxe.