segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Eu posso vir a ser preso por isso (?)


As últimas ações que se deram no mundo da arte, iniciadas com a prisão de Maikon Kempinski em sua performance “DNA de DAN”, em Brasília, em julho deste ano, desencadearam um movimento articulado e perigoso que desembocou no cancelamento da exposição Queermuseu, em Porto Alegre, e a recente polêmica da performance do MAM, na qual uma criança, acompanhada de sua mãe, toca o corpo nu de um homem.
Chama a atenção alguns elementos nas ações contra os demais cancelamentos e censuras que a arte vem sofrendo ultimamente. A primeira é a de que a caça não é à arte somente, mas aos locais públicos de sua exposição. Tanto a Polícia, no caso da performance “DNA de DAN”, em Brasília, quanto o MBL, em Porto Alegre e em São Paulo, usaram de discursos conservadores contra espaços de arte – seja a rua, sejam museus –, com amplo apoio de uma parcela também conservadora da sociedade.
Juntamente com essas iniciativas, a recente decisão do STF sobre o ensino religioso nas escolas e a campanha por uma Escola sem Partido – absurda do ponto de vista pedagógico e político – preocupam porque direcionam dois olhares complicados. Ambos ligados às práticas públicas e privadas.
Se uma pessoa não gosta de uma obra de arte ou de uma performance, isso é um problema individual que está ligado aos seus valores, gostos e crenças. E é legítimo que essa pessoa desgoste. Agora, quando a questão é silenciar a arte, esse problema passa a ser coletivo. Se uma pessoa tem uma fé na qual acredita e parte dela para observar o mundo, essa é uma decisão individual. Quando o ensino religioso de determinado segmento começa a ser imposto por órgãos de Estado isso é um problema coletivo. E quando o problema é coletivo, mais do que tensões de frente devem ser colocadas à mesa para a discussão.
Uma empreitada contra a arte e outra contra a livre escolha religiosa, ao mesmo tempo, são preocupantes. Primeiro porque o que se faz, em uma, por incisivo apelo a valores de um grupo, é o banimento de pessoas dos espaços onde estão as artes. Há, assim, um crescente silenciamento dos lugares questionadores da sociedade, que problematizam valores, posturas e condutas públicas. Se a onda seguir por esse caminho, em breve teremos livros proibidos, músicas proibidas, e a manifestação coletiva dos discursos, a liberdade de expressão, a democrática relação da coletividade com a arte estarão ameaçados. Além disso, se um único grupo ditar o que deve ou não ser arte e o papel que tenha que desempenhar, isso limitará a arte a atender e propalar uma única ideologia, um único conjunto de valores.
No mesmo caminho, uma linearidade de ensino religioso que contemple um único viés de doutrina – porque as religiões têm suas doutrinas – problematiza a pluralidade do espaço da sala de aula. Em um país de maioria cristã, muçulmanos, budistas, taoistas, umbandistas, membros do candomblé, kardecistas, ateus, agnósticos sofrerão imposições que extrapolam o espaço privado e o direito individual de escolha.
Em cenários alarmantes de retrocesso de dinâmicas coletivas, outras questões se colocam. A quem isso interessa? Quais as forças que, conjuntamente, patrocinam ambas as ações? Quem financia e a quem isso será interessante?
Não é possível pensar isso desligado da campanha que ganha adeptos pelo país em favor da volta do Regime Militar. Também não podemos desligar isso da crescente onda fascista em que se ampara Jair Messias Bolsonaro na sua caminhada política visando o Planalto. Muito menos deixar de pensar isso quando políticas públicas de retrocesso e de austeridade econômica tomam o país. Todos esses discursos estão, em algum ponto, muito ligados. Amarrados a ideologias perigosas que já vivemos em outros tempos.
O discurso unilateral e individual da moral não pode e não deve entrar sem crítica nos espaços coletivos e públicos que, por lei, são de livre expressão. Qualquer discurso que silencie a arte ou que impossibilite a diversidade – sexual, racial, religiosa, etc – é problemático e antidemocrático. É ser contra as múltiplas formas de discurso, é ser contra os espaços públicos de diversidade, é ser contra a pluralidade e a coexistência da diferença, patrocinando posturas em que uns tenham mais direitos que os outros.
Assim, reitero: há mais por trás das manifestações contra a arte. Há mais por trás nessa decisão do STF. E o que está por trás não é nada ingênuo e nada distante de uma ideologia cruel que pode – e vai – ser muito útil ao que está se arquitetando atualmente no país.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Um desabafo



Os políticos envelheceram e treinaram muito bem os seus herdeiros. Estes, por sua vez, ganharam fácil os cargos deixados pelos seus pais, ou estão agora dividindo com eles corredores do Legislativo brasileiro. Isso tudo porque a concorrência ficou muito pouca para eles. Porque vocês sabem, política é coisa de ladrão. Então, muita gente boa que poderia ter entrado para a política não foi por desestímulo de muitos lugares e/ou por simples desinteresse (sem contar as ameaças de morte, os assassinatos que rondam esse trabalho).

O Legislativo virou um mercado. O mercado do voto. E voto tem preço. Tem acordo, tem conchavo, tem promessa de tudo quanto há e a máquina que sustenta esse mercado impede com truculência quem quer fazer política. E a máquina é velha e está trabalhando na área há séculos.

Além disso, a televisão fez, como nunca, um trabalho primoroso nessa direção. Inverteu a ordem: o que era para ser politicagem ganhou estatuto de Política (assim, com maiúscula). O que era para ser Política virou politicagem. Aliás, a imprensa faz isso o tempo todo, e o resultado é que a política ficou na mão dos politiqueiros, lesmas lentas e espertas.

Mas, se ninguém se interessou pela política, se tanta gente boa, competente, nunca quis o pleito, quem se interessou?

Primeiro, os herdeiros. Gente que se reveza no Legislativo desde que o Legislativo existe no Brasil. Entendam: político profissional que quer aquele filão para sempre, nunca pleiteará o Executivo, seja a prefeitura da menor cidade do Brasil ou a Presidência da República. O Legislativo é grande, as Câmaras e Assembleias são cheias de corredores, gabinetes, comissões. As pessoas se escondem mais fácil, trabalham menos. O politiqueiro quer a cadeira na Câmara, na Assembleia, no Congresso. Vai evitar o Senado, porque no Senado há mais holofotes. Ficará, mesmo, do gabinete para o plenário, em corredores, não fazendo nada, viajando, inaugurando placa de rua aqui, asfalto novo ali, empregando um amigo de um parente acolá. E assim, ficará por toda a vida. Numa votação mais pública, como a que deflagrou o Golpe, é que o Brasil vê de fato essa rapaziada, votando pelos vendedores de seguros, pelo primo, pelo filho mais novo, pelo marido - prefeito honesto preso na manhã seguinte.

Não precisa ir longe para ver esse tipo. Em muitos municípios do Brasil, encontramos vereadores perpétuos. Entra pleito, sai pleito, e eles continuam lá, quietos. Dormem nas sessões, propõem trocar a mão de uma rua de sentido, o nome de um bairro, buscam dar nome para avenida, trocam um canteiro central, pintam a Câmara, liberam um calçamento no bairro mais pobre. Vez por outra, falam grosso na rádio, enchem as páginas dos jornaizinhos locais ávidos por intrigas politicas. Mais nada. Do gabinete para o plenário, de lá para a fazenda, para a casa, para uma viagem longa. E assim segue.

Isso sem contar os deputados. Em Minas, por exemplo, nos últimos 100 anos, procure um pleito sem algum deputado que não se chame Andrada, Neves, Cunha, Cardoso, Baeta, Abi Ackel ou outro nome figurão do tempo do Império, da Colônia, dos idos de Vila Rica. Esses estão na política há gerações. Nas secretarias de Governo (de município, de Estado), como assessores de parlamentares, em cargos de confiança, em cargos fantasmas em repartições públicas. Ficam nisso eternamente. E claro, colocam os filhos e netos como assessores de um amigo deputado em outro município, para ganhar experiência na função. Em breve ele substituirá a família no Legislativo. Tancredo Neves fez isso com certo jovem que nunca aparecia (e até hoje não aparece) em Brasília.

Essa é a mais antiga fatia do bolo político. E com o constante trabalho de criminalização da Política, eles foram se mantendo ali, entrando e saindo de pleito, lançando-se candidato à deputado, voltando à Câmara do município, ou ficando como deputado até se aposentar e voltar para a sua cidade, satisfeito dos serviços prestados ao Brasil. Fica-se assim protegida a herança, a propriedade, seu gado, seu legado. Uma bala aqui, outra acolá.

Depois deles, vêm o filão que percebeu que se organizando politicamente poderiam ganhar um número muito maior de adeptos. Um púlpito aqui, uma pregação ali, e em menos de vinte anos, pastores, evangelizadores, gente de todo tipo de função nos ministérios da fé das igrejas pentecostais e neopentecostais do país ganharam um filão e tanto. Voto fácil o do fiel. É misturado com uma quantidade enorme de situações e de discursos, confunde rápido a cabeça do eleitor. Deus e Política deram-se muito bem num passado não tão recente, e estão de volta juntos, à toda, e querendo mais.

Destoando dos dois filões, poucos sem nenhum passado político, sem nenhum parente político, sem padrinho político. Pouquíssimos. Jovens, então, quase nunca. Mulheres, pouquíssimas, negros, pouquíssimos. As juventudes dos partidos conseguem eleger poucos de seus candidatos, conseguem manter poucos de seus efetivos membros. Poucos chegam às campanhas. Outros tantos se desiludem, desistem. Nos grêmios, nos DCEs, nas lutas estudantis, tantos outros se perdem, entre uma passeata e outra, entre uma panfletagem e outra. Outros tantos têm até espírito político, mas não encontram legendas que os amparem, e há sempre uma dúzia de abutres esperando a candidatura para lhe sugarem o sangue. Muitos deles parentes, desses sem nenhum escrúpulo.

Então, não me assusta um congresso velho como o nosso. Não me assusta ver os mesmos nomes, seja o do Pastor ou de seu filho, ou de seu neto, ou o do tricentenário sobrenome. Não me assusta que no primeiro levante político da juventude deste século, que começa com junho de 2013 e explode nas ocupações das escolas Brasil a fora, que a polícia fique mais truculenta, violenta e opressora do que nos anos de chumbo.

O medo é: e se esses jovens se organizarem, entrarem para partidos políticos, eles podem querer fazer Política, e não politicagem. E como ficam os esquemas? E os séculos de politicagem em vez da Política? A politicagem do voto pedido em troca de, do voto feito pelo asfalto na rua do bairro carente, para o fazendeiro que iludiu a todos como se fosse um bom patrão, bom para o município, para aquele que teve pai político, tio político, primo político e que diz que tem a política no sangue. E se esses jovens resolvem, mesmo, fazer Política de fato, transformando a realidade de milhões, como fica a tradicional lesma de nojentas relações espúrias que há séculos é o Legislativo brasileiro? Onde ficam os Cardoso Jr., os Abi Ackel Jr., os Neves Jr., os Cunha Jr.? Como ficam?

Por isso prender, bater, explodir com bombas. Esfolar essa juventude que se quer politicamente formada para que o medo da cadeia as impeça de ir como candidata e eleitora às urnas – se ainda as tivermos no futuro. Para que fiquem caladas como as juventudes anteriores, que não discutiam política, futebol e religião. Só assim, e com muita televisão e jornal vagabundo que não serve nem para enrolar peixe de feira, é que os donos dos filões e dos esquemas vão continuar nos buracos de ratos que habitam e que chamam oficialmente de gabinetes.

E como os políticos dos filões precisam de novos herdeiros nacionais, agora querem fazer crer há uma quantidade enorme de pessoas que um milionário invasor de terras e um playboy que imita o Sílvio Santos são o futuro da política do Brasil. E muitos vão engolir essa mamata, porque um deles é bom porque reformou a Brasília velha do seu José, lá da casa do chapéu, demonstrando se importar com o povo brasileiro falido que só tem uma Brasília velha.

sexta-feira, 17 de março de 2017

torcido de torcida


A vida sobre todas as perguntas essenciais. Mas espero. Espero as coisas que não se explicam. Onde está meu amor preto e branco. Imenso, me vem – seja lá por qual caminho – nesse vendaval. Porque eu não entendo muito bem de cores. Entendo quase nada de amor. Mas o amor preto e branco, que me vem, é além da carne das coisas, estranho e indomado. Torcido. Amor que torce, me torce por dentro. Amor torcido de torcida. Feito blusa no varal. Não entendo o amor pelo Atlético, mas eu entendo de camisas no varal e tempestades. Estendido, meu amor conhece profundamente os desafios contra o vento, os vendavais e as tempestades. De torcer por dentro o vento. E o ultrapassar preto e branco, profundo e intermitente, este infinito bipartido.