domingo, 21 de dezembro de 2014

porque as partes se partem

dizem que é preciso virar palavra, virar imagem. dizem que é preciso viver a falta, essa grossa sombra que não compreendemos. mas os mistérios, os destinos, as sombras grossas e marrons dessa falta não são precisas. não há precisão quando o que mais há, gritante, é precisão. ela falta? ela soma? ela nos vive por nós, no momento da absurda verdade que, de tão natural e real, tem ar de irrealidade, parece impossível? 
e ainda há estrada, há mais caminho. há mais dos bailes delas nas antigas salas que hoje ninguém mais frequentará. nem mais vestidos, nem mais o som e a surda condensação que extrapola o que há de doar. abre-se o salão da memória para o baile que ela habitou. e agora, no sempre, habitará?

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Para os artistas, com carinho.


     O que fazer, artista, depois de tanto acumular? O que escolher de cor, de som, de palavra, cheio que está de cores, sons e palavras? Qual movimento deve escolher, artista, se a dança já tem tantos, se os prédios já têm curvas, se as telas já têm outras formas de usar o som? Como, artista, diante de tanto novo, pode ainda fazer algo novo, problemático?
     O que escrever, artista, depois de tanto texto, seja sua escrita a pintura, a escultura, a dança, a música? O que escrever, artista, diante do que é branco, no silêncio? Em que casa viver, artista? Na que tem cores, que é das palavras-cores, ou na sem cores, só silêncio e branco? E se trocar a cor do papel artista, será novo o que você comunica, será nova sua expressão?
     Quanto tempo demora seu traço, artista? Um minuto, um mês, uma vida? E nesse traço, quanta força empreendida? O que soma em você, artista: a vontade de partir o branco em cores, quebrar o silêncio com traços, gestos, música e palavra? Qual vontade é essa? Quanto de medo há em você, artista, e quanto de coragem em seu expressar? Como, artista, saber se na máscara que vestirá, na cena próxima do ato antigo, irá honrar a todos os atores que, como você, já quiseram inovar tantas máscaras?

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

corda de tecer

para ana.



amor, tece as mãos!
as quatro mãos do destino
e as reconhece plurais e espelhadas
sem certeza.


onde não teceres quatro mãos,
amor, fia as que faltam
ou desfia todas.
transcende as mãos em outras linhas
faz bordado que embola
- tantas voltas -
no avesso complicado da cor.


amor, tece mãos!
com elas
desenha dedos para perceber-te no escuro
(porque há outros
sentindo)
e ensaia um pensar difícil e cifrado
para nelas
para ambos desistirem do pesar que há nisso
e, então, de mãos tecido, amor, sem mais pensar
conta-te fio a fio
destece-te
e toma o ar em par de asas!

domingo, 19 de outubro de 2014

Dos ares lavados


“.............................................................................
Um toque, e eis que a blandícia erra em tormento,
e cada abraço tece além do braço
a teia de problemas que existir
na pele do existente vai gravando.

 

Viver-não, viver-sem, como viver
sem conviver, na praça de convites?
Onde avanço, me dou, e o que é sugado
ao mim de mim, em ecos se desmembra;
nem resta mais que indício,
pelos ares lavados,
do que era amor e dor agora, é vício.
…...........................................................................”


Mineração do outro – Carlos Drummond de Andrade



Fazer as malas como quem compõe o corpo a ser decifrado. Escolher cada roupa e cada cor de roupa, escolher as cores mais nulas porque a cor, seu contraste, devia dar espaço ao corpo que compunha. Cumprir a coragem de romper silêncios e distâncias, naquela mala – corpo em composição – crendo haver no ato algo maduro, lúcido, sóbrio. Havia. Mas havia quilos de medo, apreensão, cicatrizes. Mas era preciso cumprir a coragem que a existência nos obriga, correr o risco, sim!, porque a vida é feita de correr riscos. E rompeu-se a distância no tempo presentificado e lento, sem haver depois – que haveria.

Abrir a mala como quem abre um corpo e retirar-lhe os sentimentos em camisas, peças íntimas, um par de chinelos velhos. Tirar do corpo, peça a peça, o que deveria – pesado e medido – dizer em precisão, em primazia. E o corpo abriu-se aos poucos, ainda cheio dos avisos do medo, mas cheio de coragem. Como romper as fortes águas do mar – que ali havia – bravio a ponto de expulsar, mas em calmaria incomum, de duvidar serem águas do mar a penetrar, calma e cristalina lagoa que se tornaria em onda despregada que não imaginava haver – e haveria?

Fechar a mala como quem costura um cadáver. Sem capricho porque o corpo não precisaria mais ser visto. Descomposto, confusos órgãos e sentimentos, medos e coragens, com corpos por costurar em mim, neste mim que em mim, profundo, esconde-se de tudo, pequenino. Desmembrado, rasgadas as partes sem nenhum cuidado, sem capricho. Tudo, de repente, cortado como a um mutilado, como corpo sem autópsia. Morto? Mas corpo ainda, sem destino, sem ação porque no aniquilamento foram-lhe cortadas as pernas. Para onde seguir, amor, sem corpo agora que seja seu, depois de aberto em flor e de rasgado a dentes espumantes, ódio pútrido? Houve a onda em fúria, e se partiu na areia.

Tiro do corpo amputado, a mala fria sem cuidado, os frangalhos da empreitada. Não houve o que o corpo, nu e composto, pensou encontrar? Há ainda algum corpo a vestir os sentimentos que, embolados e sujos, saem, um a um, da mala, para que agora, em casa, protegidos, possam ser lavados, perfumados, pendurados nos varais? E o segundo vigilante guardou o movimento da onda quebrando na areia, recuo das águas que não percebi porque mirava relaxado as estrelas, quando na sombra da noite o mar partiu camisas, mala, corpos e palavras? O segundo, será que ao menos o segundo teve piedade quando a onda partiu tudo cheia de ódio e fúria, barulhenta na praia dos destinos, sem nenhum cuidado ou gentileza? Guardou o segundo do quebra-mar a memória do vivido?

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Embreagai-vos

Mais uma vez Baudelaire.

"É necessário estar sempre bêbedo", que esteve comigo desde os primórdios de meus estudos, e estará sempre. "Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, (...) embreagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor".

Nunca tão atual como agora, em que o tempo da informação venceu o tempo da experiência. Em que a rememoração venceu a memória. Em que o tempo, atomizado em último grau, agora nos controla na fome constante, na vontade de mais, no medo da perda de qualquer coisa.

E como nunca temos tempo, embreago-me para saber que tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentir o fardo horrível do Tempo, que me abate e me faz pender para a terra, é preciso que me embreague sem cessar.


terça-feira, 30 de setembro de 2014

aprendo todo dia um jeito diferente de não me levantar da cama. mas insistem que há vida lá fora e que eu preciso dela, de alguma maneira. meu diário é um livro de consultas sobre o que não fazer de novo, sobre o que faço de novo, sobre o que ainda preciso pensar melhor. os poemas que serão perdidos estão aqui, nas estantes, em papéis dizendo que o eu que está neles não sou eu, mas é maior que o mim que habita em mim, na dupla relação complicada de existir no mundo com um mundo. faço café todos os dias com a promessa de parar um dia de fazê-lo, promessa inútil como a pergunta se se é feliz. a felicidade não é um ser, como eu, como alguém com nome diverso do meu. pode ser nome, palavra de dicionário. não é um fim de estrada que se caminha, prêmio por conquista. a felicidade está nas forças duras do mundo, aquelas que me ensinam todos os dias que eu não as posso atravessar. nem às partículas do ar, que se deslocam para eu ocupar-lhes o espaço abandonado. todos os dias, as coisas se repetem e Machado de Assis confere a mim alguma ironia no dia. Cronópio cortazariano, com doses extras de Fama que atrapalham, cercado de esperanças, essas bibliotecárias, e de referências intertextuais sacanas que levam esse texto a outros caminhos interpretativos. não sou eu que escrevo aqui, saibam disso. não me creditem.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

um mosaico

As situações, coladas uma a uma, vão formando um estranho mosaico. Muita imagem embaralhada e tudo me confunde porque, no mosaico, há recortes de mim que nem sei onde estavam, se existiram, se me compõem de fato. Há pedaços descolados de pessoas que duvido a existência, assim fantasmagoricamente postas em seus detritos, o que deixaram em mim, montes de entulhos e relíquias, um rabisco apagado no espelho que só se vê quando o calor do quarto abafa o vidro, mas que na noite o sono faz confundir a realidade.

O mosaico é grande, toma conta de todo o apartamento – em si, só por si, já um mosaico. Está nas vasilhas que guardei, nas digitais que separei das xícaras (limpando-as antes de colar ao mosaico), buscando uma forma possível de resposta. Sei que ela está nas fotos impressas, nas deletadas, nas devolvidas. A resposta está em todos os rastros que apaguei. Mas como há resposta se limpei tudo para pôr no mosaico e nada ainda me parece producente, capaz de dizer alguma novidade vinda de outro hemisfério? 

O passado está para além de outro hemisfério. É quase uma outra vida se o vislumbro da janela do hoje. Ainda me ligo a ele porque ainda assino o nome do passado, embora a face já esteja dele distante, e os sentimentos ventilados não se notem nem nas fotografias. Estou nele pelas notícias dos vivos que estão nas outras pontas das linhas dessa teia – telefones, correios, internet –, no meu pensamento que se inaugura todo dia, sendo o mesmo de ontem, mantendo-se em linha sempre a saltar-me em novidades. Nas crenças que abandono e nas que mantenho. 

Mas é quase outra vida à janela do hoje, no apartamento. E buscar comunicação é como falar com os mortos: é só a sensação de que é possível falar com eles, sem que a fala possa ser comprovada por outro ouvinte. Então, é sempre dúvida a que se espera comprovação do destino. E há destino, sabe-se, porque talvez os gregos tenham plena razão, para além da necessidade de moralizar. Há destino porque, nesse passado, muito só se explicaria (se fosse necessário explicar) por essa força antiga, mítica, subterrânea e sem tantos crentes nela quanto outrora, caminho do qual não fugimos. 

Da janela do hoje, meu passado, o que é meu em mim, jaze quase incomunicado. E torna-se presente na noite, fantasma branco encardido, que flutua carregado de algo que um dia chamei sentir: um sentir distinto do outro por nomes demais conhecidos. 

Disforme, o mosaico, ensaio de pergunta, é estranho e ainda não diz nada. Mais apaga que perdura na memória que o quer manter. E uma indiferença densa, vazia de sentidos, preenche esse espaço. Terá existido? Seria, o que disse ser? Algum dia, algum acontecimento que lampeje ainda na memória existirá para além da memória que o imaginava, cativava e alimentava? E no rosto? Existiu o rosto no rosto que boia na noite, entre sono e entre-sono, ou foi ilusão, como tudo o mais é nesse mosaico sem formato, sem rosto a que reconheça meu?