segunda-feira, 29 de outubro de 2018

canto I


 para Carol Duarte

como um perdão
que nos cobre a todos
é preciso levantar

anunciar o dia
[porque há ainda dia]
e rever os seres nas calçadas

é preciso sentir à pele
o que nas palavras resiste
e receber de mãos largas
outros acasos

para saber
no fim desta agonia
que estamos juntos sob o sol
que outra liberdade virá
por debaixo dos apetrechos do fim

é preciso levantar escombros
para ver os cacos do mundo
nosso mundo
- indefeso -
que nos grita abrigo e calma
e que nos abre os braços de amar

levantar o dia
que se deixou cair
e olhá-lo nos olhos:

dia, meu dia,
que nasces amanhã com outro nome
mas que a mim me inspira
lealdade
onde se erguem outras bandeiras
plantam-se novas razões
vencem-se velhos hábitos

cresce em todos sem desvios
porque precisamos de ti
de pé
quando a noite chegar

Danilo Barcelos - primavera-18

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Ele Não, Ele NUNCA


O Desde que o samba é samba vem, desde as eleições de 2010, comentando os trâmites eleitorais. Ficamos mais em silêncio nessa eleição por muitas razões. Em especial, por uma necessidade de entender uma série de acontecimentos dos últimos tempos. O central, a nosso ver, é o que se desdobra das manifestações de 2013. Estamos ainda sofrendo as consequências dela e, acredito, a mais violenta é o desmanche da educação proposto pela EC 95 e pela reforma do ensino básico.
Digo isso porque acredito que as manifestações de 2013 não foram por causa do preço das passagens, mas pela construção, via educação, de uma geração consciente de sua força política e de seu papel como agente no espaço público. Podemos notar isso de muitas maneiras diferentes. Desde que houve substancial aumento do ingresso do jovem na educação superior pelas políticas de ampliação das universidades e de facilitação do acesso ao ensino privado via Prouni e melhor estruturação do FIES, assim como o acesso ao ensino federal de nível médio com a ampliação dos Institutos Federais, muitas manifestações políticas aconteceram. E as manifestações políticas não necessariamente são pensadas na lógica partidária, mas na construção gradual da consciência de cidadania. A ocupação das cidades e a nova ideia de reconhecimento no espaço público como se deu nas capitais do Brasil, o renascimento de carnavais urbanos por todo o país, a construção de uma identidade estudantil que garantiu, mesmo sob forte ataque, a ocupação das escolas secundaristas e a reinvenção do jovem de seu lugar de fala são amostras disso.
Todas as mudanças políticas – e não partidárias – fizeram a juventude brasileira entender que é por meio da luta que conquistas são alcançadas. Por meio de ocupações e embates que a democracia se faz. Entenderam que era preciso ocupar o espaço do debate público e livre de ideias. E o debate de ideias questionou as profundas desigualdades que ainda não resolvemos no campo dos costumes. O debate de ideias deflagrou nosso racismo, nosso machismo, nossa homofobia. A educação colocou em cena as mazelas nacionais sem posicionar nenhum fuzil contra ninguém. A necessidade de construir um lugar identitário sólido de reconhecimento social e político aqueceu o debate da última década, debate construído depois de uma década e meia de forte investimento em educação. Foi a educação que propiciou isso nos últimos anos.
E claro, o debate provoca o pensamento. E boa parte da população brasileira não está preparada para o debate. Lembremos que gerações foram formadas para obedecer, educadas na ditadura militar, sob forte censura nos livros e nos métodos didáticos. Muitas pessoas do Brasil não sabem debater porque os governos ditatoriais do século XX alienou-as de seus lugares políticos, formou-as para obedecer patrões e governos e se calar, sob a imposição do medo e da punição.
Acho que é aí que nasce o ódio de gerações que, vítimas de baixos investimentos em educação, condenam os professores. Porque, claro, o jovem, na cabeça dessa geração vitimada, não é capaz de pensar por si só. Ele só ocupa as ruas, só reivindica direitos, só toma consciência política de classe e de identidade se for doutrinado por alguém. Para a geração educada no século XX, sob o medo e a repressão, um jovem não pode querer ser o que quiser. Porque essa geração não pôde ser o que quis. E acha que todos devem, como ela, amargurar não poder escolher.
A ampliação e a gana fascista que tomou conta do cenário político nos últimos anos é resultado do ódio ao investimento sólido em educação. Porque foi nos governos petistas que a educação chegou a muito mais pessoas do que antes, de forma muito menos dogmática e muito mais democrática que nos anos de chumbo ou nos anos de transição do século. As primeiras décadas do século XXI mostraram ao jovem brasileiro que a educação gratuita e pública pode sim levá-los a outros lugares, a outras conquistas, a aceitação de si mesmo sem tantas obediências a normas vazias de conduta. Por isso a marcha fascista é, sobretudo, contra a educação.
A lógica fascista quer censurar a escola que criou transformações. Por isso as mentiras das mais variadas maneiras, como o “kit gay”. Porque o fascista ama a obediência cega, sem o debate. Porque o fascista não sabe conquistar o respeito das pessoas a não ser pelo medo, pelo autoritarismo, pelo silêncio, pela ameaça e pela força. Porque ele não se garante no debate. Ele não tem argumentos contra o desejo de liberdade e de mudança que tomou conta de boa parte da juventude brasileira, eclodindo nas manifestações de 2013. Por isso os golpes políticos, a violência gratuita.
Vivemos o período mais sombrio do início deste século. Um século que nasceu com promessas de prosperidade, mas que se volta para o início do século passado, no ressurgimento fascista descabido. Estamos às portas de mergulhar outra vez nos anos de chumbo onde qualquer expressão gerava cadeia e morte. E os professores, os intelectuais e os jovens que se opõem serão os primeiros a morrer. Por isso, enquanto ainda houver possibilidade de debate, que aqueles que acreditam que a educação é o único caminho transformador, que não elejam Bolsonaro. Há nele o que há de pior no Ocidente. E ele nos levará a todos ao mais profundo caos que já enfrentamos. Porque nunca vivemos sob a ameaça real do fascismo. E o fascismo matou milhares de pessoas no mundo todo.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

um conto curto


Por anos adiado, cansou-se. Parado na rua, numa tarde de sábado, olhando os carros passando sem tanta pressa, pensou que um café com ela seria bom, mas ela havia dito que talvez na semana seguinte, quando tivesse em melhor condição de tempo. Cansou-se quando, numa noite de segunda, pegou o ônibus e foi, novamente sozinho, ao cinema, mas que no próximo sábado seria ideal porque ela poderia, enfim, deixar o gato na vizinha e ir, mas com um tempo curto, apertado, cheio de compromissos. Cansou-se numa quarta de férias, numa livraria, quando achou o verso do poema do livro que iria comprar bonito, e sabia que não adiantaria ligar o telefone porque, talvez, estivesse ela ocupada com outro a-fazer.
O tempo, essa joia. E ele descobriu a joia, claro, sozinho. Como em todos os compromissos sociais, como em todas as noites remarcadas e vazias, como no balcão do bar quando se soube desempregado e estava em completo desalento. Sozinho no velório do amigo, na comemoração do título de campeão. Sozinho quando se via tendo que sentar ao telefone todo dia no mesmo horário para saber de problemas que não lhe interessavam, de pessoas que muitas vezes ele nem conhecia, mas que saberia que talvez aquilo fosse a única oportunidade de atenção, até o próximo não, até a próxima data remarcada, a viagem reprogramada. Outro constante adiamento, sempre uma rotina.
Na tarde de sábado, quando definitivamente se cansou, uma criança brincava com um balão colorido. Vermelho, o balão sem hélio, só com ar de pulmões, escapava pela calçada. A criança corria atrás até o balão atravessar a rua. Uma criança e seu balão. Cansou-se. E olhando as próprias mãos, sorriu. A liberdade é imperiosa quando se faz lúcida. Ela nunca houve. Um sonho, um fantasma? Uma projeção sua? Uma insegurança? Uma conjuntura histórico-social invertida e, portanto, justa? Que diferença fazia naquela tarde! A alegria de saber-se presente e de nunca mais ser adiado, reagendado, remarcado e postergado, fazia-o se sentir livre. Não era mais como um livro, um boleto, uma conta. Era um ser livre, capaz de correr na calçada com a criança atrás do balão que escapava e que estava ali, como tudo o mais estava ali. Estavam ali as árvores que ele via, o sorriso dos transeuntes, o casal de namorados abraçados e distantes. Estavam ali os vidros das janelas, os cães de rua. Nada ali lembrava que haveria depois. Ele, sempre para depois. E sentiu a vontade madura de só correr pela rua, para sentir se as pernas ainda estavam ali e se não o adiariam também. Se o ar em seus pulmões não teria um compromisso inadiável que impediria sua presença. Se os sapatos não o trocariam por uma sapateira, se seu suor não o deixaria em troca de escorrer-se no chão de algum banheiro. Só a sensação de pertencimento do tempo. O tempo que é sempre hoje. Essa joia. O tempo que era sempre mais rápido que ele, e que o fazia querer correr. O tempo imperioso e libertador. Cansou-se. Depois... Nunca mais outro depois.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Edson Luís, Marielle, quantos mais?


Este blog tem, desde a campanha de 2010, denunciado que as elites brasileiras não perderam o tom golpista. Assim os chamava já naquela época. Quando Dilma foi eleita, pensei: é muito para os militares. Isso pode reacendê-los. E aconteceu.
Lembro-me da noite que Dilma ganhou a eleição em 2014. Estava em BH. Desci de ônibus para o comitê da campanha, vazio, porque a festa havia sido transferida às pressas para a sede do Partido. Aécio havia fechado dois quarteirões de avenidas em torno do seu comitê nacional, em um prédio de um hotel desativado na Praça Afonso Arinos, onde a esquerda sempre se reúne em BH, antes de sair ou voltando de um protesto. A poucos quarteirões do comitê de Dilma. Os dias finais da campanha foram violentos. Sair de vermelho sozinho em BH poderia acabar em espancamento na rua, com aplausos da polícia. No dia da apuração, horas antes do resultado, a PM de Minas estava fardada e pronta na frente do prédio e Aécio havia se apropriado da cidade como se fosse dele.
Na primeira chamada de televisão, ainda perto do comitê da campanha do PT, esperando por Isis, uma amiga, na Avenida Brasil, saiu a primeira chamada de que Dilma estava na frente, por pequena margem. Garçons de um restaurante burguês da avenida sorriam. Seus clientes não. Quando o resultado das urnas anunciou a presidência de Dilma, disse à Isis, já na rua em frente a sede do PT: “quero ver se os golpistas deixarão o mandato dela acabar”. Estava certo. E juro que queria estar errado naquela noite.
Quando o processo do golpe iniciou, pensei: nunca foi sem militares. Em algum momento eles voltarão. Voltaram. Estão nas ruas do Rio, e não é propaganda, é atividade de tomada de poder. Falta agora não ter a eleição e o golpe estará, definitivamente, terminado. Se não acontecer antes das eleições, acontecerá depois, quando Lula ou seu indicado for eleito. Porque eles não sairão de lá tão fácil. E tudo o que acontece no cenário político atual pode ser justificativa para que, numa jogada de parlamento, Temer passe a faixa para Braga Netto. O Palácio Duque de Caxias, o Comando Militar do Leste (novamente o Comando Militar do Leste), já deve ter seu ministério todo formado. Não se deve discutir outra coisa no Clube Militar. Esses nomes que antes colhíamos dos livros de história agora de novo nos jornais. Na boca e no dia-a-dia das pessoas.
Eu sabia quem queria o Brasil de volta. A classe média não estava na conta. As viúvas do Regime repetiram o texto de 1964. Repetiram as faixas, as mesmas faixas, repetiram as datas. Foram só a manobra que foram em 1964. Porque a classe média é o cão raivoso da elite. A classe média baba e rosna para ganhar os ossos da ceia, as migalhas que a elite lhe joga da janela para que os membros da classe média disputem privilégios com os narizes na lama. Pagará um preço por tudo isso, mas prefere pagá-lo a ver a igualdade de oportunidades chegar a todos. Prefere pagá-lo a ver o país protagonista no cenário internacional. A ver o Brasil produzir ciência e tecnologia de ponta, criar patentes de medicamentos e de sistemas de engenharia. Prefere tudo, menos as classes populares definindo os rumos do país. Porque elas esperam por isso, pagaram caro por décadas para ter essa chance e nunca conseguiram. Porque a classe média é, no fundo, egoísta. Ela está há séculos querendo entrar na casa das elites, parada na porta esperando uma brecha. É convidada vez ou outra para uma festinha, mas nunca participa das decisões. E como pode o povo, de repente, decidir, sem nunca ter lambido as botas das elites antes? E isso viria, mais dia menos dia, na sucessão eleitoral aberta pelo PT, para a dinâmica de novos – e importantes – governos populares. Isso seria intolerável para ela.
Um dia, ainda durante o curso do golpe, um ex-militar da cidade onde eu moro disse que torcia pela volta do Regime e que assim que os militares tomassem o poder, eu seria o primeiro que ele pediria a prisão, a tortura e o assassinato. Isso porque eu defendo as conquistas dos anos do PT, defendi e defendo Lula, defendo o ensino gratuito para todos. O ex-militar, com esse ódio guardado em algum lugar, disse que me colocaria na prisão para ser brutalmente torturado porque eu discordava dele. Nem nos anos de luta estudantil e de militância no Movimento pelo Passe Livre, contra a máfia dos transportes capixaba, eu fui ameaçado nesse tom. E eu nem sou tão ativista quanto Marielle. Eu não sou nada perto de Marielle.
Eles são capazes dessas ameaças e mais, são capazes de genocídios. A matança começou antes de Marielle. Matam ativistas nos rincões do país há décadas. Matam líderes do MST, líderes de comunidades quilombolas, líderes dos povos indígenas, líderes sindicais do campo, matam líderes comunitários e representantes das favelas. Matam negros por serem negros, pobres por serem pobres e jogam corpos anônimos em valas comuns, nos valões, em rios. Mas a execução de Marielle foi um recado: “estamos de volta, preparem-se”. Estão de volta e prontos para reabrirem seus porões. Prontos para matarem os que não conseguiram matar e calar quem não calaram para satisfazer o sadismo do sistema e para impor a agenda política que nunca venceria nas urnas. Impor pela força.
Estamos em 2018? Não, estamos em março de 1968, com mais um caixão atravessando a Cinelândia. Edson Luis. Marielle. Quantos mais? Por quantos nomes mais precisaremos gritar “Presente” em passeatas porque nos levaram suas vidas? Quantas panelas sujas de sangue voltarão às sacadas para repetir com suas batidas os tiros de fuzil que se ouvem nas matanças diárias nas periferias do Brasil?
É 1968, não se enganem. Estão de volta, a poucas horas de concluir seu plano sórdido. E eu não me assustarei com outro modelo de AI-5 antes de outubro desse ano. Estamos, novamente, em 1968, repito. Infelizmente a noite voltou mais rápida. A luta será maior dessa vez.

quarta-feira, 14 de março de 2018

As minhas águas do mundo


Nasci às margens do Córrego da Serra. O da Serra deságua no Arrudas. Quando nasci, o Arrudas tomava a parte baixa de BH nas suas muitas enchentes. O da Serra nem era possível de ser visto e por anos achei que sua existência era lenda. Via-o sumir no Parque das Mangabeiras para o sem fim. O da Serra cai no Arrudas. O Arrudas segue para o das Velhas.
Conheci o das Velhas ainda criança. Cruzava a ponte sobre o das Velhas para chegar em Antônio dos Santos, distrito de Caeté, onde meus avós compraram um sítio. Tinha um rio que cortava o distrito, o Vermelho, alimentado por águas desse sítio. O Vermelho cai no das Velhas. 
O das Velhas nasce em Ouro Preto. 
O das Velhas cai no Chico. O Chico vai bater no meio do mar, como falava o Velho Gonzaga.
Morei às margens do Córrego do Seminário. O do Seminário deságua no Carmo, que corta Mariana. O do Carmo nasce em Ouro Preto. Quando o do Carmo abraça o Piranga, eles viram o Doce. O aurífero do Carmo, revirado pela eternidade pelo ventre de ouro. O do Carmo. Nome da padroeira, nome da Vila que sumiu quando a Fiel Cidade Mariana ganhou nome. O do Carmo. Da igreja que pegou fogo, dos reis congos do Rosário que vão à Mariana todo 16 de julho louvar a Virgem, receber o manto: o Capitão, a Tropa, a Corte, o Rei e a Rainha. Estava um dia na padaria, num 16 de julho de há muito, quando o Rei Congo entrou coroado, vestido de cetim azul. Levantei para Nossa Majestade, o Rei. Saudei o Rei. O Rei Congo. Nosso Rei Congo, que recebeu às escondidas o manto do Carmo da mão do prefeito, depois que o rei congo do Rosário de Ouro Preto lembrou que estava em outro reinado, de poder de outra monarquia. Nosso Rei Congo, da Vila do Ribeirão do Carmo. 
O Carmo abraça o Piranga. Desse amor, nasce o Doce. O Doce vai bater no meio do mar, como diria o Velho Gonzaga.
Depois, morei nas margens do Manhuaçu. O Manhuaçu alagava tudo em novembro, nas cheias. O Manhuaçu ainda alagada tudo, nas cheias. O Manhuaçu deságua no Doce. O Manhuaçu é o maior afluente do Doce.
  Por um tempo perto de um afluente do Chico. Por outro tempo, perto do futuro Doce, e de outro afluente. Por outro tempo, no Atlântico, onde deságuam o Chico e o Doce. 
Hoje moro às margens do Chico. 
Minha vida definida por dois rios: o Chico e o Doce. Ambos morrendo. O Doce, pelo minério. O Chico, pelo desmatamento e pelo assoreamento. Morrem também o da Serra, o Arrudas - há muito morto, só esgoto - o das Velhas. Morrem o do Carmo, cheio de mercúrio da mineração e cheio de esgoto, o Piranga, assoreado e cheio de esgoto, e o Doce, hoje só resíduo de minério. Morre o Manhuaçu, envenenado de agrotóxico das lavouras de café.
Tudo isso vai bater no meio do mar. O Atlântico. O meu Atlântico.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

corpulso


Sem corpo é impossível. Porque o corpo é imperioso, necessário. Urgente. Definidor e problemático, ponto partido de partida de onde sai-se ao outro, também corpo, nos seus espaços urbanos cheios de corpos e suas linguagens, cheios de corpos e seus suores, cheios de corpos partidos em mãos e braços, paletós e pulmões, partes indefinidas de biologia. O corpo catalogado, dividido, numerado, tatuado, contato e expandido. Explorado até o enjoo, abusado e perecível. Comum. Substantivo comum sem gênero.

O corpo definido, moldado, medido, pesado, na ideia de corpo comum social onde há um corpo especial que não é o meu, não é o seu, não é de gente possível de anatomia natural. O corpo a que se deve amar, mas sem corpo. Por que? O que se deve ter, que não é. Por que? Onde o que é corpo engloba olhos e vaginas, pênis e pâncreas? Onde joelhos e onde amídalas? Onde isso perde o nome que tem na medicina e volta ao corpo como corpo, inteiro, para ser tocado e sentido, ser bebido e devorado em rituais antigos, sugada cada gota sem desfazer a face, preservado em faixas embebidas de ervas para renascer no além, onde o corpo é necessário, porque não há mais nada além? O corpo quadro no museu exposto e quente onde a mão sente seu pulso em tela ou pele de peles se esfregando nas roupas que se raspam nas ruas lotadas? Como amar o corpo em seu corpo sem mais, e viver nele esse amor sem distância e telefone, sem site e revista, sem foto de comida às três da tarde de frente à praia em Cancun que ninguém irá com seus corpos se banhar e se lamentam, mas não lamentam perdê-los entre papéis e quartos de escritório, teses de passado tempo, histórias de Stendhal?

Na carência de alimento, o amor cria narrativas. Um início, um meio, nunca um fim. E sempre, ou quase sempre, um corpo secundário, um sentimento inflado e vermelho, em primeiro plano do palco, tentando convencer a todos que existe autônomo. Corpo como um copo com pouco líquido que cheira sândalo, mas não se bebe com a boca com sede de água de poço fresca, para lavar o esôfago da fala inútil e fatal que tenta provar que o amor é além-corpo.

Pensar o corpo nele, seus poros. O corpo no corpo, seu devir. O corpo principal e central, que emana e pulsa, que esquenta a mão do outro quando há toque, umedece-a. Sentir o corpo pulsando nas palmas das mãos, nos lados dos dedos. Dar-lhes cheiros de corpo ou de jasmim, quando achar ocasião. Vesti-lo de aromas em pedaços e pensar: é corpo que se sente nas narinas, também corpo. É corpo que se sente na boca, nas línguas e nos dentes. É corpo que se sente no outro corpo emaranhado, onde tudo se perde: noções absurdas de tempo e de limites. Um corpo com-sem fronteiras, por fim, implementado, pleno. Capaz de ousar o fim. Mas é corpo que há, sem mais.

Além é palavra. A palavra corpo e sua função de sujeito e sua função de objeto. A palavra corpo descrita da morfologia: substância substantiva substantivável de sublime. O corpo nu, sem palavras. O corpo aquém e além da linguagem, debaixo da unha e na pele riscada de vermelho, no cabelo que se aperta e se afaga com suor e sabão. A impossível implosiva violência significante impondo ao corpo o corpo, contra e entre, para e desde, onde e perante, por-se atrás, por trás, através. Terminando o inalcançável termo, tato palatal, saliva e espuma, onde não há divisórias. Corpo, enfim, sujeito e objeto sem sintaxe.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Estudo de arquitetura - I


Perdi os afetos, suas sensações, por debaixo dos escombros. Numa noite de há muito, quando começou a demolição. Os nãos entraram num quarto frio, de madrugada, e eu estava sozinho. Cada um deles quebrou uma parte da arquitetura do quarto. No dia seguinte, mais vieram, com marretas e picaretas. No terceiro dia, outros, dirigindo tratores. Num determinado momento eram muitos e trabalhavam em turnos, sem cessar, quebrando cada parte da casa que com cuidado se construiu.
Ora bola de guindaste, ora lâmina de picareta, ora marretada, ora com as unhas, ora com os dentes, com as mãos, com a cabeça. Cada um quebrou uma parte da casa – ralo de banheiro, beira de porta, fechadura, cantoneira de estante, pedaço de vidro de janela, chuveiro, canos de água. Quebraram todo o reboco, o refino da tinta e as horas gastas escolhendo a cor de cada cômodo, a textura aveludada da tinta trabalhada para não deixar manchas nas paredes. Trituraram azulejos portugueses, comprados em raras feiras, escolhidos um a um, a rosa desenhada nos ladrilhos da sala, os pastilhados vermelhos de verniz sobre a pia de pedra onde houve um jarro de prata.
Por muito tempo gritei que parassem. Segurava-me nos móveis, aguerrido, impedindo que fossem lançados ao esquecimento. Punha-me em pé ante a parede. Tranquei correndo portas e janelas. Escondi segredos no quintal, debaixo de oco assoalho, nos batentes das portas. Gritei por ajuda na rua vazia, com braços ao ar, enquanto mais nãos chegavam aos batalhões – de variado formato e tamanho, brutamontes. Em vão. Todos os detalhes destroçados. Quebrados um a um com variada força e diversa violência. 
Acabou-se a tinta na parede. Se houve azulejo, como lembrá-lo a cor e o formato exatos? Não há mobília, lançada longe no primeiro movimento. Parafusos e pedaços de restos pelo chão, e pó que gruda nas calças, nas mãos, nos sapatos. Tudo é demolição.
Hoje, tijolos e rachaduras. Só a carne e os ossos da casa. Sua densa fundação.
      A crueza das rachaduras, seu ceticismo. Nelas não há nenhum sentimento além de densa tristeza: fundação do edifício. Opaca e irregular, subindo, preenchendo os espaços das rachaduras. Só elas, tijolos, uma densa argamassa cinza que os liga, material diverso do cimento. Tijolos feitos de material diverso do barro, mas vermelhos, pulsantes. As rachaduras vagas que não mostram o que há do outro lado, indo ao fundo das paredes, sustentadas de opaca cor.
Em pé na sala destelhada, aquele ceticismo concreto me olha. Terminado o quebrar, quando a sala ainda não estava por completo vazia para que eu pudesse olhar a carne e os ossos da casa, os nãos permaneceram ameaçadores, sem ação. Preparavam-se para demolir as paredes, pôr fim a tudo, de vez. Um exército experiente, capaz de uma violência conjunta. Todas as ferramentas e máquinas, fumaças azuis pelo céu, e o rosnar sedento de seres enormes com ferramentas em punhos prontos para se lançarem contra tudo. Eu estava em pé, na sala destelhada, olhando as paredes.
Ventou. Um vento frio, incomum, por entre as frestas. Baixei os olhos, desci os braços. O silêncio desceu inteiro na sala, no que havia sobrado da casa: seus destroços. Reluzia por entre as rachaduras uma memória de cor e, pela primeira vez, havia algo além. Cores disformes, ainda, sem muita esperança. E um silêncio pavoroso se fez, denso. Cobriu todos os nãos de profunda indiferença.
Não havia mais temor. Virei-me e fitei-os nos olhos. Fitando os nãos, um a um, eles nada comunicavam. Nada negavam porque nada os sustentava por trás. Olhei-os nos olhos cheio de indiferença. E eles berraram. Os nãos só amedrontam quando há algo de valor que eles negam. E os nãos berraram mais alto, cuspiram no meu rosto. Desesperados, rasgaram a minha camisa,  sacudiram meu corpo, bateram nos meus braços, nos meus ombros com dura violência que pude sentir o calor de suas mãos. Ameaçaram me destruir junto com a casa, aceleraram os motores. Em vão. Enquanto olhava a cada um nos olhos, braços iam descendo, vozes silenciando, e não havia nada, absolutamente nada neles. Vazios, por completo.
Então, penderam os braços, desligaram as máquinas, e saíram. Um por um, devagar. Quando o último não saiu, não tinha mais rosto ou forma de brutamontes. Era um menino, abraçado a um pedaço de pano, a quem afanei o cabelo e sorri. Um menino, pequeno e indefeso, o primeiro brutamontes que me entrou porta a dentro arremessando meus livros à rua. Um menino chorando, a quem afanei o cabelo. Saiu.
Hoje, a casa vazia, as rachaduras. Chutado um pedaço de caco de ladrilho, encontro um pedaço de afeto. Lembro-me dele, de um sonho! Vasculho um pouco mais os escombros e acho outro, grudado em uma carta. Mais um pouco, e salta outro de detrás de um caco de espelho.
É preciso buscar os afetos sufocados pelos escombros. Um a um, um por dia. Procurá-los à exaustão. Tentar lembrar suas cores, talvez partir delas para escolher novas, se já mortas. Deixar ventilar o ar entre as frestas das rachaduras. Separar, escolher, descartar, varrer com vassoura grossa. Achá-los onde as coisas se perdem. Um a um, um por dia. Redescobrir os afetos, descobri-los. Mas, sobretudo, no momento em que descobertos – nesse pequeno instante – olhá-los fixamente. Olhá-los para apreendê-los. Depois, deixá-los ir.