A pegada na areia, feita à mão, recria o pé e recria o tempo, tece linhas azuis invisíveis. Tece o que sobra de areia no ar quando venta na praia vazia, no mar inabitado. O vazio cabe inteiro dentro de um quarto, dentro do fá sustenido, de um ponto de exclamação. O vazio cabe dentro do som, quando o som, só onda, também é azul e invisivelmente inabitado. O inóspito hábito de tudo, quando não cabe mais nada no tempo de coisas e apetrechos, seus suores de depois. E a solidão, por fim, imensa, rompe o vazio. Aquela que a mão ao criar a pegada na areia quis eliminar. Aquela que os fios azuis quiseram disfarçar, sem entender que o que há, sempre, é solidão, como na onda, no mar inabitavelmente azul. Porque quando a mão criou, creditou, fiou, não havia a espera seca de outro ser, em vão. E as linhas azuis e o mar inabitado sepultaram, por fim, o fio tecido; engavetou-se o fiandeiro em si mesmo na ilusão que teceu pelo caminho, na ilusão que sobra na areia, quando se percebe que não houve pé a pisar a areia: a marca era à mão, criada por ela e por ela duvidada, quando pronta, jurando ser um pé de alguém ainda a pisar a marca que só à mão satisfazia. E a mão a custo acredita saber que a criação escondeu o que há de inaceitável: que há areia, e que ela, sim, seca, é real e inalcançável. Não é companhia e nem cabe nela o lá bemol, o si uma oitava acima.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
domingo, 21 de dezembro de 2014
porque as partes se partem
dizem que é preciso virar palavra, virar imagem. dizem que é preciso viver a falta, essa grossa sombra que não compreendemos. mas os mistérios, os destinos, as sombras grossas e marrons dessa falta não são precisas. não há precisão quando o que mais há, gritante, é precisão. ela falta? ela soma? ela nos vive por nós, no momento da absurda verdade que, de tão natural e real, tem ar de irrealidade, parece impossível?
e ainda há estrada, há mais caminho. há mais dos bailes delas nas antigas salas que hoje ninguém mais frequentará. nem mais vestidos, nem mais o som e a surda condensação que extrapola o que há de doar. abre-se o salão da memória para o baile que ela habitou. e agora, no sempre, habitará?
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
Para os artistas, com carinho.
O que fazer, artista, depois de tanto acumular? O que escolher de cor, de som, de palavra, cheio que está de cores, sons e palavras? Qual movimento deve escolher, artista, se a dança já tem tantos, se os prédios já têm curvas, se as telas já têm outras formas de usar o som? Como, artista, diante de tanto novo, pode ainda fazer algo novo, problemático?
O que escrever, artista, depois de tanto texto, seja sua escrita a pintura, a escultura, a dança, a música? O que escrever, artista, diante do que é branco, no silêncio? Em que casa viver, artista? Na que tem cores, que é das palavras-cores, ou na sem cores, só silêncio e branco? E se trocar a cor do papel artista, será novo o que você comunica, será nova sua expressão?
Quanto tempo demora seu traço, artista? Um minuto, um mês, uma vida? E nesse traço, quanta força empreendida? O que soma em você, artista: a vontade de partir o branco em cores, quebrar o silêncio com traços, gestos, música e palavra? Qual vontade é essa? Quanto de medo há em você, artista, e quanto de coragem em seu expressar? Como, artista, saber se na máscara que vestirá, na cena próxima do ato antigo, irá honrar a todos os atores que, como você, já quiseram inovar tantas máscaras?
O que escrever, artista, depois de tanto texto, seja sua escrita a pintura, a escultura, a dança, a música? O que escrever, artista, diante do que é branco, no silêncio? Em que casa viver, artista? Na que tem cores, que é das palavras-cores, ou na sem cores, só silêncio e branco? E se trocar a cor do papel artista, será novo o que você comunica, será nova sua expressão?
Quanto tempo demora seu traço, artista? Um minuto, um mês, uma vida? E nesse traço, quanta força empreendida? O que soma em você, artista: a vontade de partir o branco em cores, quebrar o silêncio com traços, gestos, música e palavra? Qual vontade é essa? Quanto de medo há em você, artista, e quanto de coragem em seu expressar? Como, artista, saber se na máscara que vestirá, na cena próxima do ato antigo, irá honrar a todos os atores que, como você, já quiseram inovar tantas máscaras?
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
corda de tecer
para ana.
amor, tece as mãos!
as quatro mãos do destino
e as reconhece plurais e espelhadas
sem certeza.
onde não teceres quatro mãos,
amor, fia as que faltam
ou desfia todas.
transcende as mãos em outras linhas
faz bordado que embola
- tantas voltas -
no avesso complicado da cor.
amor, tece mãos!
com elas
desenha dedos para perceber-te no escuro
(porque há outros
sentindo)
e ensaia um pensar difícil e cifrado
para nelas
para ambos desistirem do pesar que há nisso
e, então, de mãos tecido, amor, sem mais pensar
conta-te fio a fio
destece-te
e toma o ar em par de asas!
domingo, 19 de outubro de 2014
Dos ares lavados
“.............................................................................
Um toque, e eis que a blandícia erra em tormento,
e cada abraço tece além do braço
a teia de problemas que existir
na pele do existente vai gravando.
Viver-não, viver-sem, como viver
sem conviver, na praça de convites?
Onde avanço, me dou, e o que é sugado
ao mim de mim, em ecos se desmembra;
nem resta mais que indício,
pelos ares lavados,
do que era amor e dor agora, é vício.
…...........................................................................”
Mineração do outro – Carlos Drummond de Andrade
Fazer as malas como quem compõe o corpo a ser decifrado. Escolher cada roupa e cada cor de roupa, escolher as cores mais nulas porque a cor, seu contraste, devia dar espaço ao corpo que compunha. Cumprir a coragem de romper silêncios e distâncias, naquela mala – corpo em composição – crendo haver no ato algo maduro, lúcido, sóbrio. Havia. Mas havia quilos de medo, apreensão, cicatrizes. Mas era preciso cumprir a coragem que a existência nos obriga, correr o risco, sim!, porque a vida é feita de correr riscos. E rompeu-se a distância no tempo presentificado e lento, sem haver depois – que haveria.
Abrir a mala como quem abre um corpo e retirar-lhe os sentimentos em camisas, peças íntimas, um par de chinelos velhos. Tirar do corpo, peça a peça, o que deveria – pesado e medido – dizer em precisão, em primazia. E o corpo abriu-se aos poucos, ainda cheio dos avisos do medo, mas cheio de coragem. Como romper as fortes águas do mar – que ali havia – bravio a ponto de expulsar, mas em calmaria incomum, de duvidar serem águas do mar a penetrar, calma e cristalina lagoa que se tornaria em onda despregada que não imaginava haver – e haveria?
Fechar a mala como quem costura um cadáver. Sem capricho porque o corpo não precisaria mais ser visto. Descomposto, confusos órgãos e sentimentos, medos e coragens, com corpos por costurar em mim, neste mim que em mim, profundo, esconde-se de tudo, pequenino. Desmembrado, rasgadas as partes sem nenhum cuidado, sem capricho. Tudo, de repente, cortado como a um mutilado, como corpo sem autópsia. Morto? Mas corpo ainda, sem destino, sem ação porque no aniquilamento foram-lhe cortadas as pernas. Para onde seguir, amor, sem corpo agora que seja seu, depois de aberto em flor e de rasgado a dentes espumantes, ódio pútrido? Houve a onda em fúria, e se partiu na areia.
Tiro do corpo amputado, a mala fria sem cuidado, os frangalhos da empreitada. Não houve o que o corpo, nu e composto, pensou encontrar? Há ainda algum corpo a vestir os sentimentos que, embolados e sujos, saem, um a um, da mala, para que agora, em casa, protegidos, possam ser lavados, perfumados, pendurados nos varais? E o segundo vigilante guardou o movimento da onda quebrando na areia, recuo das águas que não percebi porque mirava relaxado as estrelas, quando na sombra da noite o mar partiu camisas, mala, corpos e palavras? O segundo, será que ao menos o segundo teve piedade quando a onda partiu tudo cheia de ódio e fúria, barulhenta na praia dos destinos, sem nenhum cuidado ou gentileza? Guardou o segundo do quebra-mar a memória do vivido?
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
Embreagai-vos
Mais uma vez Baudelaire.
"É necessário estar sempre bêbedo", que esteve comigo desde os primórdios de meus estudos, e estará sempre. "Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, (...) embreagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor".
Nunca tão atual como agora, em que o tempo da informação venceu o tempo da experiência. Em que a rememoração venceu a memória. Em que o tempo, atomizado em último grau, agora nos controla na fome constante, na vontade de mais, no medo da perda de qualquer coisa.
E como nunca temos tempo, embreago-me para saber que tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentir o fardo horrível do Tempo, que me abate e me faz pender para a terra, é preciso que me embreague sem cessar.
"É necessário estar sempre bêbedo", que esteve comigo desde os primórdios de meus estudos, e estará sempre. "Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, (...) embreagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor".
Nunca tão atual como agora, em que o tempo da informação venceu o tempo da experiência. Em que a rememoração venceu a memória. Em que o tempo, atomizado em último grau, agora nos controla na fome constante, na vontade de mais, no medo da perda de qualquer coisa.
E como nunca temos tempo, embreago-me para saber que tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentir o fardo horrível do Tempo, que me abate e me faz pender para a terra, é preciso que me embreague sem cessar.
terça-feira, 30 de setembro de 2014
aprendo todo dia um jeito diferente de não me levantar da cama. mas insistem que há vida lá fora e que eu preciso dela, de alguma maneira. meu diário é um livro de consultas sobre o que não fazer de novo, sobre o que faço de novo, sobre o que ainda preciso pensar melhor. os poemas que serão perdidos estão aqui, nas estantes, em papéis dizendo que o eu que está neles não sou eu, mas é maior que o mim que habita em mim, na dupla relação complicada de existir no mundo com um mundo. faço café todos os dias com a promessa de parar um dia de fazê-lo, promessa inútil como a pergunta se se é feliz. a felicidade não é um ser, como eu, como alguém com nome diverso do meu. pode ser nome, palavra de dicionário. não é um fim de estrada que se caminha, prêmio por conquista. a felicidade está nas forças duras do mundo, aquelas que me ensinam todos os dias que eu não as posso atravessar. nem às partículas do ar, que se deslocam para eu ocupar-lhes o espaço abandonado. todos os dias, as coisas se repetem e Machado de Assis confere a mim alguma ironia no dia. Cronópio cortazariano, com doses extras de Fama que atrapalham, cercado de esperanças, essas bibliotecárias, e de referências intertextuais sacanas que levam esse texto a outros caminhos interpretativos. não sou eu que escrevo aqui, saibam disso. não me creditem.
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