Há na
mudança um ar de perda, uma tristeza. Uma melancolia impossível,
dessas que talvez ficaram por anos guardadas nas gavetas. Encaixotada
a vida, tudo o que sobra são coisas, restos de coisas, buracos na
parede, marca dos móveis na pintura. A vida que ocupava o espaço
agora é suspensão, é travessia, hiato sem preenchimento onde
tempo, calendário e relógio estão em conflito pela verdade.
Desfeita a casa, nesse hiato de tempo, nada acontece aqui dentro. E
quando nada acontece, tudo pode acontecer de repente, como a chegada
de uma boa nova por correio – nesse endereço que já se despede de
mim – ou um livro a ser comprado na chegada. Uma boa nova como um
pedido de desculpas, o conhecer um novo bar na cidade já tão
conhecida, rever um velho amigo que veio, a passeio, viver a saudade
que tornarei a sentir em uns meses. Uma alegre surpresa como um barco
prestes a zarpar para o mundo, sem saber se amanhã tem almoço na
hora, se há como fazer qualquer notícia, como se a travessia fosse
sempre o destino de chegada.
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Preparação de partida - parte II
É sempre um céu azul quando as caixas chegam. Em maio, deixei Vila
Velha com um belo sol de outono, céu que passei a gostar nos últimos
seis anos. Quando deixei Juiz de Fora era noite, era setembro, fazia
um calor ameno e a estrada era provisória. Quando deixei Manhuaçu,
o dia era um pouco nublado, uma manhã estranha, meio chorosa, em
meados de outro maio. Quando deixei Mariana, há praticamente nove
anos, em abril, garoava leve de manhã e era tão pouca coisa a se
levar, comparada à mudança de hoje! Mas em todas as mudanças, as
caixas chegaram em um dia de sol.
Volta o cheiro de fita, de pincel escrevendo o conteúdo nas caixas,
de papelão, de papel de jornal. A vida empacotada de novo, ela que
já coube toda em uma mala preta, agora deixando para trás móveis,
partes de uma vida que se estendeu nesses quase quatorze anos entre
partir e voltar para BH. A casa já vai se tornando, como das outras
vezes, neutra, como um rosto de um artista que tira a maquilagem
depois de uma apresentação, desta vez uma breve temporada. E vai
acabando o tempo em solo inconfidente de forma tranquila e cética,
por eu estar mais sóbrio de mim, menos iludido de mundo, preciso
para outras decisões, porque esse solo sempre me ensina algo, nem
que seja o de ser sempre um lugar a lembrar. O que faz do rosto que
volta também outro, muito diverso do daquele menino que a deixou
numa manhã de agosto, que a custo reconheço quando fito os retratos
enquanto os encaixoto.
Passei pela passagem, enfim. Passagem necessária, importante,
imperiosa para não deixar nenhuma dúvida futura que viesse a
surgir, alguma ilusão agora perdida. Passei a passagem de suas horas
e sei que, mesmo distante de uma máquina do mundo a qual eu abdique,
haverá outro horizonte, de céu largo e azul-violeta, um céu que
leve os meus olhos em memória, fitando a linha das montanhas, sempre
de volta ao mar. Um céu capaz sempre de me dizer que os pés podem
alcançar as linhas do mundo, todas elas, nas muitas cidades que
ainda pretendo morar, alimentando esse meu jeito cigano, esse meu
prazer íntimo de sempre cair na estrada e partir para uma outra
história, outra conversa, outro verso que se apanhe na beira de um
caminho.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
Hoje ela silenciou.
Profundo, o silêncio me desfez por completa e me pôs em face a mim mesmo, no início da estrada. Abri a mala e joguei pela janela os restos que sobravam, limpei a casa, e as barreiras se dissolveram.
Quando ela silenciou, sorriu um gato no ar. O sorriso suspenso trouxe a mão esquerda da menina que atravessou o espelho.
Tudo isso potente e estranho, surgiu numa conversa de horas com uma amiga. Terminada a maior jornada da minha vida, de maior trabalho e estudo que reúne os dez anos que se processam desde o início da empreitada, voltei a olhar o menino que, com uma mala, se lançava ao mundo grande sem saber que este o traria para o mar. O menino que esqueceu ali, naquele marco, tudo o que era e carregou do que sobrou um nome além do seu. Passado o tempo entre início e de novo início, a trajetória que se concluiu abre outra trajetória, mais serena que a primeira. é outro que entrará na vida, para seguir na estrada.
Mas o que surge de estranho é que pude ouvir, dez anos depois da caminhada, o nome silencioso que tudo produziu. Foi num abril, numa conversa de uma meia hora, que tudo começou. Sentados um frente ao outro, distantes num abismo que nos divida, próximo no maior amor que compartilhava, o único real amor de uma vida inteira, que se esquivou do som que por tanto tempo pronunciei, me disse um não.
Ao me negar, ali, ela abria as portas do mundo que caminharia até aqui. Para o menino que cresceu pobre, que se descobriu em Drummond por acaso, que passou a vida ouvindo tiros de fuzil e e berros de assassinados na madrugada, no silêncio da ordem que tudo poda na cidade, que não esperava da vida mais que uma chance, ela me deu o mundo.
Ali, de ante de mim, com o castanho brilho que nunca mais vi em olhares. No jeito de soltar o corpo no sofá, sem pretensão ao movimento, passando a mão no cabelo. Disse séria o não que tudo movimentou e hoje, depois de tudo, o nome dela volta dentro do texto, sem esforço. De novo cair no buraco, aumentando e diminuindo de tamanho. De novo atravessar o espelho.
Todo o trabalho é dela. Sem o não que me custou o maior amor de todos, seria hoje impossível silenciar da mesma forma. Só hoje, sem medo, com a tranquilidade de quem aceita uma verdade, de quem bebe água. Aceitar que o nome sempre voltou nos dez anos que silenciou. Na noite, na cor da aurora, no perfume da tarde, na paisagem vista na janela, nas vozes enrouquecidas das pessoas, no leve sabor da clama.
Um dia disse a uma amiga: o amor existe quando é possível estar a sós e em silêncio com quem se ama, sem a obrigação de uma palavra que diga o amor, mas que no espaço que os concentra, o silêncio os envolva caloroso e potente como um abraço. Senti e sinto há dez anos a saudade do silêncio que hoje lembro. Naquele abril, o silêncio nos abraçava.
O polvo branco
Há
mordaça. Senti-lhe o gosto quando acordei com ela na boca, de
madrugada, retirando de mim o pouco ar que respiro. Uma mordaça que
impede ações tranquilas, gestos impensados e costumeiros, um
sorriso efetivamente alegre. Nela está escrito “aqui é proibido”
e a pena é ser preso e amarrado dentro de uma jaula de dedos onde há
um pêndulo afiado a passar sobre a barriga. Há mordaça porque
está-se sempre na linha tênue entre a ofensa, o grito e o
inevitável tumulto, pondo em risco a harmoniosa ordem. E para manter
a ordem, câmeras vigilantes feitas de um silêncio improdutivo e
pegajoso e um polvo branco que tudo abraça e comprime (bom em partir
os ossos dos dizeres, quebrar a espinha da poesia e ransgar a pele
das palavras em feridas) estão sempre atuantes. E além da mordaça,
do silêncio vigilante e do polvo branco, há um olho que tudo vê a
exigir autorizações, sendo preciso pedir-lhe permissão de passagem
em muitos postos de guarda, mandar-lhe textos para avaliação de
censores, evitar-se sempre chegar perto do muro para que assim o
polvo não quebre outro pescoço, que as câmeras não filmem outro
poema não comercial que tudo desvirtua e o silencie, para que nada,
nunca, provoque tumulto. Isso faz com que todos os donos da ordem
imponham-nos seus hábitos tecidos em alvas batas de paz feitas em
teares de medo. E o sorriso, agora moeda de troca, câmbio flutuante,
é a conquista máxima do olho que exige a felicidade a custo de
morte, impondo-a, obrigando-a a manifestar-se e transformando seres
mutantes em seres realizados, imutáveis e controlados, bons para
caberem como engrenagens em pleno funcionamento numa máquina azul. E
basta uma brisa, um desvio de conduta que chegue cheio de arte, um
sorriso verdadeiramente alegre ou um prazer simples para que o poema
suma na noite, amordaçado, jogado em vala comum com tantos outros
que nada mais dizem porque o polvo, além de esfolar suas palavras,
arrancou-lhes a língua.
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
Meu ano se fecha sobre si mesmo como um caracol. Como todos os dias fecham anos, nada de extraordinário muda na noite em que meu ano se fecha sobre si.
No comum fechar sobre si é que mora a beleza do recomeçar que meu ano instaura em mim cheio de novas folhagens. Como planta que vai ao sol depois de dias, como eu no mergulho silencioso nas águas do mundo que quebram espumantes nas areias do Brasil.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
Tear de Ondas: Lançamento
É com imenso prazer que o Desde que o samba é samba anuncia o lançamento do meu terceiro livro, Tear de ondas, publicado pelo projeto editorial Aves de água.
O livro, escrito ao longo de 2012, só agora vem a público em sua versão digital.
Para lê-lo, basta acessar a aba intitulada "Tear de ondas" ou clicar aqui!
É possível também ouvir um trecho do livro. Para ouvir, é só clicar em Tear de ondas, I, primeiro movimento.
E não deixem de conferir, também, a página do Projeto editorial Aves de Água no endereço http://www.avesdeagua.com.br
Espero que gostem!
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Preparação de partida - parte I
Há preparação de partida, sem tantas histórias desta vez. Poucos
poemas escritos (ruins quase todos), nenhum texto em prosa que agrade
(e muitos parados empoeirando), algumas rugas, livros que se empilham
e questões teóricas cada dia mais profundas que sentem, em cada
dobra, o peso das decisões. Nenhum romance lido por inteiro num
sábado, a descoberta da poesia alemã do século XX, o estudo de
grego e hebraico antigos, Dante e Petrarca de foices em punho lutando
por um caminho no tempo da eternidade. Até o nada, a velha proposta,
parou – não sei se em suspensão ou em queda – ao som deste
constante rio em que pedras militantes lutam, como eu, contra a ordem
forçada que nos querem convencer a aceitá-las ao chamá-las “naturais”.
Houve neste tempo o vermelho, poucas discussões efetivamente
políticas, densas, como as que minha cozinha estava tão acostumada! E esta falta frustrou as panelas, as xícaras, os pratos de vidro, os garfos e, principalmente, as facas. O sumiço
da política no almoço deu lugar a discussões de praça que
passavam ao largo de tudo isso que antes era pão, café, arroz e
feijão. Falam tão pouco desses assuntos! Mas postam fotos, frases
prontas no tempo dos novos aforismos sem contexto e de frases
sumárias que impõem o silêncio.
Sinto nos dedos o tempo do fim dos debates, a morte do espaço em que se discutir qualquer assunto era possível, mesmo que em tom discordante. As listas com os nomes de quem diz "não", creio, já estão em redação em algum lugar. Sobrou de tudo a vontade de quebrar o vaso proibido, do alto do aparador, relíquia de família, só para ver que barulho faz quando cai. Caiu e não fez barulho e assustou mais pelos cacos do que pelo efeito da queda, a magia do vaso na fração do ar.
Sinto nos dedos o tempo do fim dos debates, a morte do espaço em que se discutir qualquer assunto era possível, mesmo que em tom discordante. As listas com os nomes de quem diz "não", creio, já estão em redação em algum lugar. Sobrou de tudo a vontade de quebrar o vaso proibido, do alto do aparador, relíquia de família, só para ver que barulho faz quando cai. Caiu e não fez barulho e assustou mais pelos cacos do que pelo efeito da queda, a magia do vaso na fração do ar.
Há caixas que nem saíram e outras que nem chegaram. Há um encontro
adiado cheio de amores e dores entre mim e ela que me espera,
diferente de quando a deixei, tão diferente e florida naquela manhã de agosto. E nossos desafetos, nossas
risadas, nosso ainda encontro casual se dá, repentino, quando uma flor se lança
suicida na avenida. Compusemo-nos, os dois, no tempo que nos distanciamos, de carícias
íntimas, esses grandes amores que, por amedrontadores, cativam-nos e nos doem nos ossos.
Mudamos, enfim. De mudanças e mudanças, todo ato é partida, toda
decisão é uma flor suicida na avenida, curtindo o vento da queda
antes de atropelada por um ônibus. E a partida, desta vez, é o
vaso-relíquia que caiu da estante e não fez barulho, nem trouxe
reprimenda nem castigo, mas quebrou a tradição de família: aquela
que insiste, de alguma maneira, em guardar nas coisas o ar respirado
por nosso passado e pelos nossos ancestrais. A isso, creio, não chamo mais de lar.
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