quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

de neblinas e rios


Neblina. Talvez a maior metáfora. A impossível neblina. Falei dessa neblina tantas vezes, para tanta gente! Falei no ônibus, voltando de uma aula, conversando com Magali. Ela riu, falamos dessas neblinas, das nossas. Dessa que, quando se está nela, é difuso, só a soma de projeções. E falei de outras neblinas, do sertão, de um rio a atravessar.

Sonhei um sonho inconcluso com o rio de Heráclito. E agora estou aqui, na margem entre uma travessia, uma estrada, o rio e a neblina.

Ouvi no rádio a música do Vinícius, de que amor só é bom se doer. Não. Amor não é bom se doer. Quando dói, é porque ele abriu um espaço, saiu do lugar que deveria ocupar. E se saiu daquele lugar, era amor o que ali havia? Era amor quando, sentado no banco sozinho, outra dor enorme surgiu, precisando dele, e não era ombro, nem abraço, nem olhar ali, mas só as sombras das árvores, o chão molhado da chuva? E quando esse espaço é constante e grande e intermitente? É amor?

Desse lado de cá, onde tudo finda um pouco, na neblina, muitas cenas me revisitaram. Eu vi sorrisos como em fotografias. Vi mãos, também, a brincarem com a sombra das paredes. Vi-me sentado no meio-fio a contar histórias, a rir. Naquele tempo era possível um carnaval simples, sem abandonos, sem meu corpo esquecido na porta de algum lugar nunca antes visitado, saco de trapos trocado por confete e serpentina. Naquele tempo, antes da troca, era possível um carnaval. Tive dúvida: era possível? Fui ver nas fotos. Há uma, desbotada, antiga, e nela está estampada, no congelado espaço, o meio-fio, a alegria, sem trapos, trocas, abandonos. Era possível a alegria simples de estar em companhia. Era possível tocar as pessoas, abraçá-las.

Hoje, tudo é uma distância maior que a geográfica, que a estelar. Ela se adensa entre as pessoas e é inútil gritar que vem chegando o carnaval, a alegria simples de conversas nas calçadas, de ressaca na quarta de cinzas. Existem telas, medos, viagens pré-agendadas, escolhas individuais, fotos instantâneas sem revisitação, um carnaval virtual onde ninguém estará onde realmente estará – se é que antes esteve. Num momento, no meio da multidão, muitos pararão para se admirar nas fotos do dia, e o carnaval passará ileso para muitas pessoas, sem tocá-las. Passará sentindo falta da alegria das mãos que se procuram, que querem estar juntas para, lado a lado, uma sobre a outra, tocar a variação 18 do tema de Paganini, de Rachmaninoff. Uma sobre a outra, tocando-se e à música, no meu hoje inconcluso sonho, esse rio de Heráclito. Mas é outro o rio, a neblina, a estrada que finda.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

ária número I


A pegada na areia, feita à mão, recria o pé e recria o tempo, tece linhas azuis invisíveis. Tece o que sobra de areia no ar quando venta na praia vazia, no mar inabitado. O vazio cabe inteiro dentro de um quarto, dentro do fá sustenido, de um ponto de exclamação. O vazio cabe dentro do som, quando o som, só onda, também é azul e invisivelmente inabitado. O inóspito hábito de tudo, quando não cabe mais nada no tempo de coisas e apetrechos, seus suores de depois. E a solidão, por fim, imensa, rompe o vazio. Aquela que a mão ao criar a pegada na areia quis eliminar. Aquela que os fios azuis quiseram disfarçar, sem entender que o que há, sempre, é solidão, como na onda, no mar inabitavelmente azul. Porque quando a mão criou, creditou, fiou, não havia a espera seca de outro ser, em vão. E as linhas azuis e o mar inabitado sepultaram, por fim, o fio tecido; engavetou-se o fiandeiro em si mesmo na ilusão que teceu pelo caminho, na ilusão que sobra na areia, quando se percebe que não houve pé a pisar a areia: a marca era à mão, criada por ela e por ela duvidada, quando pronta, jurando ser um pé de alguém ainda a pisar a marca que só à mão satisfazia. E a mão a custo acredita saber que a criação escondeu o que há de inaceitável: que há areia, e que ela, sim, seca, é real e inalcançável. Não é companhia e nem cabe nela o lá bemol, o si uma oitava acima.

domingo, 21 de dezembro de 2014

porque as partes se partem

dizem que é preciso virar palavra, virar imagem. dizem que é preciso viver a falta, essa grossa sombra que não compreendemos. mas os mistérios, os destinos, as sombras grossas e marrons dessa falta não são precisas. não há precisão quando o que mais há, gritante, é precisão. ela falta? ela soma? ela nos vive por nós, no momento da absurda verdade que, de tão natural e real, tem ar de irrealidade, parece impossível? 
e ainda há estrada, há mais caminho. há mais dos bailes delas nas antigas salas que hoje ninguém mais frequentará. nem mais vestidos, nem mais o som e a surda condensação que extrapola o que há de doar. abre-se o salão da memória para o baile que ela habitou. e agora, no sempre, habitará?

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Para os artistas, com carinho.


     O que fazer, artista, depois de tanto acumular? O que escolher de cor, de som, de palavra, cheio que está de cores, sons e palavras? Qual movimento deve escolher, artista, se a dança já tem tantos, se os prédios já têm curvas, se as telas já têm outras formas de usar o som? Como, artista, diante de tanto novo, pode ainda fazer algo novo, problemático?
     O que escrever, artista, depois de tanto texto, seja sua escrita a pintura, a escultura, a dança, a música? O que escrever, artista, diante do que é branco, no silêncio? Em que casa viver, artista? Na que tem cores, que é das palavras-cores, ou na sem cores, só silêncio e branco? E se trocar a cor do papel artista, será novo o que você comunica, será nova sua expressão?
     Quanto tempo demora seu traço, artista? Um minuto, um mês, uma vida? E nesse traço, quanta força empreendida? O que soma em você, artista: a vontade de partir o branco em cores, quebrar o silêncio com traços, gestos, música e palavra? Qual vontade é essa? Quanto de medo há em você, artista, e quanto de coragem em seu expressar? Como, artista, saber se na máscara que vestirá, na cena próxima do ato antigo, irá honrar a todos os atores que, como você, já quiseram inovar tantas máscaras?

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

corda de tecer

para ana.



amor, tece as mãos!
as quatro mãos do destino
e as reconhece plurais e espelhadas
sem certeza.


onde não teceres quatro mãos,
amor, fia as que faltam
ou desfia todas.
transcende as mãos em outras linhas
faz bordado que embola
- tantas voltas -
no avesso complicado da cor.


amor, tece mãos!
com elas
desenha dedos para perceber-te no escuro
(porque há outros
sentindo)
e ensaia um pensar difícil e cifrado
para nelas
para ambos desistirem do pesar que há nisso
e, então, de mãos tecido, amor, sem mais pensar
conta-te fio a fio
destece-te
e toma o ar em par de asas!

domingo, 19 de outubro de 2014

Dos ares lavados


“.............................................................................
Um toque, e eis que a blandícia erra em tormento,
e cada abraço tece além do braço
a teia de problemas que existir
na pele do existente vai gravando.

 

Viver-não, viver-sem, como viver
sem conviver, na praça de convites?
Onde avanço, me dou, e o que é sugado
ao mim de mim, em ecos se desmembra;
nem resta mais que indício,
pelos ares lavados,
do que era amor e dor agora, é vício.
…...........................................................................”


Mineração do outro – Carlos Drummond de Andrade



Fazer as malas como quem compõe o corpo a ser decifrado. Escolher cada roupa e cada cor de roupa, escolher as cores mais nulas porque a cor, seu contraste, devia dar espaço ao corpo que compunha. Cumprir a coragem de romper silêncios e distâncias, naquela mala – corpo em composição – crendo haver no ato algo maduro, lúcido, sóbrio. Havia. Mas havia quilos de medo, apreensão, cicatrizes. Mas era preciso cumprir a coragem que a existência nos obriga, correr o risco, sim!, porque a vida é feita de correr riscos. E rompeu-se a distância no tempo presentificado e lento, sem haver depois – que haveria.

Abrir a mala como quem abre um corpo e retirar-lhe os sentimentos em camisas, peças íntimas, um par de chinelos velhos. Tirar do corpo, peça a peça, o que deveria – pesado e medido – dizer em precisão, em primazia. E o corpo abriu-se aos poucos, ainda cheio dos avisos do medo, mas cheio de coragem. Como romper as fortes águas do mar – que ali havia – bravio a ponto de expulsar, mas em calmaria incomum, de duvidar serem águas do mar a penetrar, calma e cristalina lagoa que se tornaria em onda despregada que não imaginava haver – e haveria?

Fechar a mala como quem costura um cadáver. Sem capricho porque o corpo não precisaria mais ser visto. Descomposto, confusos órgãos e sentimentos, medos e coragens, com corpos por costurar em mim, neste mim que em mim, profundo, esconde-se de tudo, pequenino. Desmembrado, rasgadas as partes sem nenhum cuidado, sem capricho. Tudo, de repente, cortado como a um mutilado, como corpo sem autópsia. Morto? Mas corpo ainda, sem destino, sem ação porque no aniquilamento foram-lhe cortadas as pernas. Para onde seguir, amor, sem corpo agora que seja seu, depois de aberto em flor e de rasgado a dentes espumantes, ódio pútrido? Houve a onda em fúria, e se partiu na areia.

Tiro do corpo amputado, a mala fria sem cuidado, os frangalhos da empreitada. Não houve o que o corpo, nu e composto, pensou encontrar? Há ainda algum corpo a vestir os sentimentos que, embolados e sujos, saem, um a um, da mala, para que agora, em casa, protegidos, possam ser lavados, perfumados, pendurados nos varais? E o segundo vigilante guardou o movimento da onda quebrando na areia, recuo das águas que não percebi porque mirava relaxado as estrelas, quando na sombra da noite o mar partiu camisas, mala, corpos e palavras? O segundo, será que ao menos o segundo teve piedade quando a onda partiu tudo cheia de ódio e fúria, barulhenta na praia dos destinos, sem nenhum cuidado ou gentileza? Guardou o segundo do quebra-mar a memória do vivido?

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Embreagai-vos

Mais uma vez Baudelaire.

"É necessário estar sempre bêbedo", que esteve comigo desde os primórdios de meus estudos, e estará sempre. "Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, (...) embreagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor".

Nunca tão atual como agora, em que o tempo da informação venceu o tempo da experiência. Em que a rememoração venceu a memória. Em que o tempo, atomizado em último grau, agora nos controla na fome constante, na vontade de mais, no medo da perda de qualquer coisa.

E como nunca temos tempo, embreago-me para saber que tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentir o fardo horrível do Tempo, que me abate e me faz pender para a terra, é preciso que me embreague sem cessar.