quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Pelo mês do aniversário do Poeta Maior

Estamos a praticamente meio mês das comemorações do aniversário de Drummond. Este ano, se estivesse vivo, o poeta comemoraria 108 anos de vida em dia de eleição. E neste ano, ele não aparece, escondido que está, dentro de seus livros.

O mais engraçado é que a popularidade de Drummond vem assomada de uma série de coisas. O poeta é mais uma marca do que reconhecido pelos seus textos. Tem estátua no Rio, estátua em Itabira, Fundação cultural, selo comemorativo, moeda especial da casa da moeda, bóton, camisa, chaveiro, bibelot de estante, xícara, quebra-cabeça, viaduto, bilhete de ficha de cerveja de festa de DA de letras: Carlos Drummond de Andrade virou coisa.

As coisas Drummond, pelo país, são rios de lucros para comerciantes que o exploram como a uma mina de ferro, de ouro, vendendo-o a um conjunto de fãs que colecionam - como eu - cada uma dessas quinquilharias. Falta ser marca de perfume e rótulo de conhaque.

Logo ele, que inveja a força das coisas. "E eu não sou as coisas e me revolto", verso de Nosso tempo. Logo ele, tão preocupado com o não tornar-se etiqueta, que tanto pediu pela paz dos picos de Itabira, quando ainda existia pico em Itabira.

A coisificação da figura do poeta é um fenômeno ainda não pensado e de difícil digestão. Como coisa, Drummond vira marca, produto, tem preço estampado. Drummond já foi moeda corrente de rápida desvalorização no plano Cruzado.

Nisso, claro, há o reconhecimento do amor que o povo tem por seu poeta. Se não fosse amado, não seria tão lembrado. Mas o problema é que em tudo que se vê gosto também se vê dinheiro e o que ele é capaz de fazer com a imagem do poeta: vendê-lo, só por ser ele, por qualquer meia dúzia de reais.

Isso me incomoda um pouco. Drummond deveria ser lido, ser estudado, estar na vida das pessoas por seus textos. Não porque se tornou coisa, como monumento público ou xícara de café. Deveria estar por ser literatura, não pela sua figura pessoal. Transformar Drummond em coisa é esquecer, em parte, o que Drummond dizia, na ilusão de que a comercialização de sua imagem o mantém vivo.

Deveria estar na boca do povo e não no bolso das políticas públicas oportunistas, como a secretaria de turismo de Itabira tanto explora, e a de obras de BH tanto faz questão de edificar. Os escritores brasileiros deveriam ser patrimônios não por serem pessoas geniais, figuras de outdoor, e sim porque escreveram coisas geniais, que não se estampam nos mesmos outdoors.

Não acredito que a coisificação do poeta propicia uma maior leitura de seus textos. É fenômeno que merece ser pensado. Fato é que Drummond agora é produto mercantil do mundo caduco que criticou.

Mas, independente de ter virado coisa, Drummond merece os parabéns, talvez um dia, um feriado. Parabéns, poeta!

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Ouro Preto, um mimo


Quando não mais se tem saídas e quando o caminho parece um eterno círculo com muros e pedras, surge Ouro Preto, ao sol do fim de inverno, vestida para a festa cheia de mimos. Com tecidos, rendas, anéis de vários lugares do país e do mundo, com sorrisos de dançantes na praça às três da madrugada, a cidade fez sair – como é bem de seu feitio – arte de todas as paredes centenárias. E arte é como café com pão, arroz com feijão. Deve alimentar a vida todo dia, seja no livro que carrego comigo, nas músicas que ouço em casa, na arquitetura secular preenchida com suas pesadas sombras. Ouro Preto alimenta pelo simples fato de estar lá, exposta ao mundo em suas ladeiras, trombando com os idiomas todos, suas misturas e seus encontros cheios de novas experiências, de conversas de madrugadas inteiras sobre aquilo que sustenta os túneis subterrâneos da cidade.

Foi no silêncio do sono das ruas do Antônio Dias que o círculo, enfim, se desfez. A possibilidade de mais, fome insaciável desta última busca, está lá, enaltecida e resguardada, à espera de quem a descubra como quem lhe arrancou ouro. Nas dobradiças das janelas, nas placas em frente às casas, nas padarias, nos becos, em seus museus e templos, seus fantasmas e histórias. Encontrei a rachadura no muro do caminho e lembrei o que buscava no início da empreitada: saciar a vontade de mais, de alguma forma, com muita arte.

Só a arte refaz as pessoas, cria as possibilidades de mundo passíveis de habitação, de contato, esta imensa praça de convites. Achei a praça da arte e enquanto ouvia uma banda da Jordânia (que passa por período tão complicado), comentando sobre o perdido show do Madredeus com uma mulher muito mais fã do que eu, (conversa que desdobra, buscando a Lisboa aspirada, o fado de Mariza, de Cristina Branco, de Dulce Pontes), entre uma e outra observação do arranjo das músicas orientais, cheguei, depois, com passos mudos na madrugada vazia no bairro de Aleijadinho, ao ponto em que o muro se desfaz em pó: a escolha de tudo começa, sempre em mim, por onde aponta o norte onde a arte é guia.

domingo, 4 de agosto de 2013

para ti, palavra-alada


Quando o mundo é uma brincadeira sem graça e tudo, de um estalo, fica cinza. É cinza o rio que passa aqui em baixo, cinza a velha rua de pedra, cinza os versos que li na madrugada. Nenhuma dessas formas de cinza é resposta. A perda, súbita, é como um susto, e eu ainda não sei que reação tomar. Ando no cinza, confuso, e tudo, num estalo, é pequeno: a briga, a mágoa, a incompreensão. Tudo ridiculamente pequeno, e como pó, some na mão.

Neste ano, essa sensação é cada vez mais uma verdade. Fio a fio, a aranha cinza de zinco, o tempo, destece as pessoas do meu passado. Destece a promessa de depois, dissolve tudo e me faz lembrar, olhando com os seus mil olhos, que nada, nunca, pode ser adiado, postergado, remarcado. Que se fazemos isso, é na confiança absurda no depois, de que a aranha cinza de zinco não está a destecer.

E eu que ainda tinha tanto a dizer, a saber, a conhecer pelas palavras que me viriam daqueles que a aranha desteceu, que não mais se pronunciam, que se separam de mim na dor da memória! E é incoerente saber que quando olho para trás, a cada passo que dou para frente, alguém sumiu do presente. Olhando este rio hoje, nesta manhã, ainda não sei destecer o rosto destecido pela aranha. Acho que nunca será destecido, mas não envelhece mais. Não sei bem, mas o tempo pode destecer alguém que a vida já não guarda o corpo, aqui, no presente, mas que ainda se agita na memória, palavra-alada que resiste?

sábado, 3 de agosto de 2013

para Thaís


Recebi a notícia pouco depois de acordar. Recebi telefonemas de toda sorte (alguns que há muito não recebia) e, aqui, em Passagem, é ainda mais difícil de acreditar.
Pensei em ti outro dia, lembrando da última vez que nos vimos. Teu sorriso e um carnaval. E tudo, de repente.
Ainda há fotos tuas (nas gavetas, nas caixas, no computador), ainda há velhas cartas nunca enviadas e bilhetes recebidos em datas variadas. Há a lembrança da última conversa, pelo telefone, um até logo, um até qualquer dia. E de repente o que me perguntam sobre ti não é mais o que andas fazendo da vida, por onde andas, em que lugar do globo estás agora sobre o mar. Eis que de repente, não me chega mais uma mensagem com um novo número de telefone, um novo endereço, uma ligação cheia de novidades, de novos amores e de novas festas em uma conversa recheada de nossas lembranças.
E eu nem sei o que pensar ainda. Ficou, mesmo e fundo, este silêncio. Talvez o mais profundo. O irrecuperável silêncio que, por mais que estude, só agora eu o entenda em profundidade.
Não fui te ver, talvez, por uma covardia íntima. Um egoísmo de não querer apagar a imagem que fica, teu sorriso ao ver margaridas, ao conhecer o mundo, ao fazer algo que gostavas, o sorriso de uma conversa de há muito.
Nos nossos distantes saberes, fica este espaço. E é estranho, podes estar certa, o que sinto agora. Sei que fica a palavra que me deste escrita em pedra, entre meus livros, teu sorriso e minha memória.
Fico contigo aqui, no que sobrou de tua voz em mim, nessas caixas de lembranças. E sabe-se lá por que, nas margaridas que tanto gostavas, no mar, em pedras do chão, nestes sinos.
E de repente, tu te transformas em silêncio profundo e intransponível.

domingo, 30 de junho de 2013

em face dos últimos acontecimentos




É tempo de tanta coisa: de manifestações, de ler o que a tese pede, de festival, de voltar a ouvir Chico e tocar João Bosco ao violão, de ler Baudelaire e de saber, sobretudo, que é hoje. É hoje sempre. Sentir que é hoje. Falei disso com o Pedrão: o hoje sem historicidade, sem sua temporalidade na presença, constituída por mim no meu hoje. Sinto que é hoje além de pensá-lo e qualquer análise muito longa, em qualquer devaneio no que pode ser de tudo e/ou no que foi de tudo, eu me perco nos tortuosos becos dos tempos verbais.

Da memória, em imperfeito pretérito que conjugo sempre, a saudade e a vontade de colocar as ruas por onde hoje piso nas ruas que pisei, as mesmas, mas com outros carros passando, outras pessoas, outras camisas no constante protestar. Há vontade de querer no hoje aquilo que eu vivi, mas não há nisso o minorar o hoje, com as ruas e as pessoas que hoje se ocupam dela, dos prédios e dos usos que hoje fazem as pessoas, de como, principalmente a juventude, faz uso desse hoje tão permeado de virtualidade e novos termos e usos – de telefones no hoje dos bares, nas fotos que hoje servem para o hoje, sem tanto recordar, numa outra experiência de viver, diversa da minha juventude. Este hoje muito mais denso, como um grande pêssego. É hoje nos olhos dos estudantes, hoje nos armazéns, hoje nas padarias onde se discute o manifesto – que ainda acontece hoje na internet, agora em algum post partilhado – sempre o só instante e o eterno adiamento do hoje também, porque é sempre hoje e tudo pode ser deixado para amanhã, até o amor.

Ontem, quando acordei, olhei o relógio verde da cozinha e pensei em um ponteiro dos segundos em motocontínuo – diferente daquele que reparte o hoje. Senti a angústia que faltava, a angústia que me levou ao salto ao lugar que eu tanto estudo. Quando Ana me perguntou o que tinha, respondi profundo: nada. Sentindo o movimento dos segundos em mim mesmo, como se a pergunta que me faço diariamente voltasse além da problemática central dos meus dias, senti lá, naquela suspensão, o que me refez. Voltei ao hoje mais sóbrio, outro por certo, mas que, até este instante, só consegue perceber de possível um breve tatear momentos-hoje.

sábado, 1 de junho de 2013

quando


teremos um caso qualquer quando o tempo já não for urgência e quando o que tivermos de pressa for uma ida ao armário, ao banco, às frutas da feira. teremos um caso quando o braço já for mais brando, o olhar mais manso, nosso sabor mais sóbrio. então, não perderemos tempo com presentes e festas, com bebedeiras de dias inteiros, e ao som de uma leve música, seremos (os dois) a leve dança que sempre adiamos, o beijo esquecido nas poeiras das estradas. só aí, maduros, o amor será mais que um só sentido.

(parte de nós de nós, ainda em composição)

da passagem


Na ironia do destino, foi em Passagem, ao lado de um rio, que eu fixei minha morada, cheio de perguntas e de decisões por tomar. Mais que morada, vivo em outra passagem que habito. A passagem das horas que estudo diariamente, relendo e pensando; a passagem que é a estrada de Minas pedregosa, que está repetidamente lida e repensada sobre a mesa; a passagem das águas do rio que passa por debaixo da minha janela, a passagem do tempo daqueles que ainda vivem aqui o entre-lugar de suas muitas opções e escolhas, aquilo que desorienta pessoas próximas a mim aqui. Nestas passagens, perdido ainda, vi BH numa linha divisória daquilo que pode vir a ser uma reconquista ainda indecifrada. Vi outras possibilidades de destino e ando cheio delas pelos becos, alimentando sonhos novos que nunca me ocorreram, decisões mais sólidas que ainda não havia computado, novas esperanças para trilhar um outro caminho que me era, até então, nebuloso e complicado, sem destino aparente. Mas na escolha tudo pode ser novo de repente, surpreendente como a passagem que sempre muda tudo, cheia de outras esperas, com grandes e largas estradas a caminhar, mais claras que esses becos de indecisão. A escolha das escolhas, ainda por tomar, que me sugerirá tantas mudanças porque nela haverá mais por mudar que coisas e suas funcionalidades. A minha mudança misturada para outra passagem, no eterno não permanecer. Partir, quem sabe, para mim mesmo mais sóbrio em alguma outra esquina além, em um lugar que reúna o que busco e que pode me surpreender com o movimento característico de uma novidade passageira.