terça-feira, 12 de novembro de 2024

A garrafa ao mar

 alguém ainda vem aqui de vez em quando na esperança de saber alguma notícia desse lado do atlântico. alguém sabe esse caminho, esse mesmo, trilhado entre ferros e estranhos ciscos, e sabe que se seguir essa estrada difícil pode ouvir o que aqui já ouviu um dia, ver o que aqui já viu um dia. alguém conhece essa estrada e sabe chegar nela, outra vez, pela mesma via que cruzou há anos no perdido dia.

hoje esse caminho traz ao mar que eu empilhei em caixas. ao mar de sensações e de medos que me leva a beiras de abismo dias seguidos. traz o que eu deixei escapar de mim, esse perdido ciclo de vertigens, onde pude um dia desabafar relaxado. hoje, entrar aqui é como entrar num quarto desabitado, mas que ainda sei comum e compartilhado, onde já vivi estranhas vaias e partilhei outros sentidos. entrar aqui é novamente estar em mim.

domingo, 9 de agosto de 2020

Encerramento das atividades

Criei o Desde que o samba é samba para poder, de alguma forma, ter a experiência de uma escrita regular, entrando para o espaço de debate direto com os leitores. Nesses quase onze anos de escrita não tão regular assim, o blog foi muito  importante e dele floresceram 4 livros - Qu4rto desamp4aro, em 2010; Tear de ondas, em 2012; é corpo seu norte, em 2016, e Sensações sem sim, de 2019 (aguardando lançamento desde o início da pandemia). 

Pude aqui também expor muito do meu posicionamento político, fazer desabafos sobre a situação brasileira, compartilhar vivências num período de transformação íntima que estavam em sintonia com as mudanças de um século novo, com novas demandas, novas possibilidades de vida e de contato. Todas essas experiências de escrita, na busca por esse entendimento, ajudaram mais a mim mesmo do que aos leitores e, creio, foram cruciais para as decisões que tomei nos últimos onze anos. 

Manterei o link ativo por um período para conservar o arquivo do blog até que eu salve todos os textos. São 320 publicações no total. Um montante que me deixou bastante contente. Depois de feito o backup de tudo e fazer a impressão, colocando o acervo numa das muitas caixas de arquivo que tenho espalhadas pela casa, o blog deixará definitivamente de existir.  

Junto com o fim do blog, outras contas de vida virtual também desaparecerão: o perfil do facebook (que também tem onze anos de existência), as contas no instagram e no twitter. Essas já foram apagadas. A última que será desativada, nos próximos dias - espero - é o whatsapp. É o fim, creio, da minha relação com as redes sociais. 

As decisões envolvem muitas coisas, mas em especial a busca por menos. Uma necessidade que se colocou em minha vida e que tem me feito bem. Menos de tudo. Em especial, o mínimo de exposição. O excesso de exposição foi muito danoso a mim. Uma exposição que em tempos de pandemia tornou-se exagerada e problemática. Tudo isso é coroado por algumas reflexões que têm-me tomado o tempo nos últimos dias.

O exagerado número de virtualização de aulas, o descabido controle das atividades de cátedra, a monitoração de minha atividade docente e de lazer, o uso da desculpa da pandemia por parte de pessoas próximas para o total descontrole no uso de algumas ferramentas, deixando a vida numa constante atividade de reuniões e lives, de trabalho e de pesquisa full time favoreceram para essa decisão. É preciso menos de tudo isso e o caminho que encontrei foi sair dos lugares onde esses acessos são facilitados, já que não posso sair de todos.

Com isso, volto a escrever à máquina, a planejar offline meus livros, a dedicar meu tempo - que para mim é precioso - ao que de fato é proveitoso para mim. Com menos acesso remoto, menos virtualidade: uma vida menos online. Por uma vida offline, dedico os onze anos de Desde que o samba é samba e seu fim. Foi bom enquanto durou!

sexta-feira, 17 de julho de 2020


há muito tempo aqui dentro de mim vive um poema. ninguém sabe dele, aqui. o poema que vive em mim às vezes me manda tempestades. um verso solto na madrugada em suspiro que decifro em sonho e se evapora no abrir os olhos. aqui em mim esse poema hoje respira e se debate. é um cão com pigarro. anda incomodado e rosna quase o dia inteiro, insatisfeito. há meses não me deixa dormir direito, sofrendo. sofre por cada um que some e chora horas a fio. chora de empapar camisas, de suar nervoso. na tentativa de manter a vida impossível, o poema se debate sem vírgulas e evita os números totais já que não pode dizer todos os nomes completos dos mortos nesse fim. sabe no nome dos mortos cada afeto e pesa os corações dos mortos, dos afetos, o mundo que o pesa sobre os ombros. quer todo dia dizer aos jornais que faltam os nomes, a filiação, a genealogia, quantos viúvos e viúvas deixam, quantos filhos e quantos netos e se engasga como um cão com pigarro. sabe que os que não recebem a renda urgente por não terem emprego têm nome, nome cada um, número de cpf cada um, uma vida inteira que depende de um número que não pinga na conta em mais um dia de filas. sabe o nome dos que seguem nas filas e queria um dia um jornal inteiro lendo só os nomes. nem precisam as idades imprecisas.

sacode meu corpo como se sacudisse grades de um presídio. sem palavras, segue preso em mim. eu, com ele, vagueio pela casa de noite e os espaços da casa são as ruas do brasil. ruas inteiras do brasil – ruas que têm nome como cada um dos mortos, história como cada um, mas que como ruas são mais importantes que os nomes dos mortos e os nomes das ruas aparecem nos jornais. um jornal que anuncia com pesar salas de grandes prédios de vidro vazias, mostra-as em detalhes, e filma de tomada aérea as covas abertas em vala comum onde caixões são quase formigas. a vidraça azul tem uma imensa placa de aluga-se, no centro em vermelho e nem o vermelho das flores, quando há, se vê da tomada aérea sobre os caixões. as ruas do brasil que meu poema visita enquanto vago pela sala. como dormem aqueles que seguem nas ruas? como estão os nomes nas celas dos presídios, nos barcos de pesca, nos campos de refugiados? como estão os donos e donas dos nomes que não entram para história como os nomes das ruas, dos estados, dos filhos do presidente?

o poema insiste em passear pelo brasil. sabe o nome do país pelo qual passeia e prefere assim, brasil, diminuído nas minúsculas. porque se os nomes próprios dos mortos não cabem nos jornais, seu nome é substantivo comum, vermelho de sangue e de desastre – essa sina de matar que lhe corta o pescoço história à fora. o poema se pergunta quanto de sangue não lavou o chão e a cor do brasil? o poema quer saber por que é importante verde e amarelo se o carro da limpeza lava um sangue vermelho pelas ruas das favelas, nas sacadas dos prédios de onde despencam crianças indefesas, o sangue dos indefesos e indefesas do brasil banhando chãos de hospitais. de que vale a bandeira verde louro se o chão onde se finca é sangue e corpos na vala comum? brasil. minúsculo, comum, mas com s. de severino, silva sônia, suor, subúrbio, sim e sonho. com s. no formato da cobra que saiu do saara e envenenou seu traficante.

a noite mortal do vírus que tudo arrebenta não deixa o poema dormir e ele quer curar cada uma das chagas, lambê-las como os cães dos santos. não consegue. por saber que poemas não matam os vírus. que o vírus é mínimo e a ciência irá derrotá-lo. confia nela e espera, já que não pode curar. sente-se impotente como se tivesse roubado dele todos os direitos, impotente como depois de um linchamento, deitado no asfalto com dentes quebrados a chutes e sem sapatos, só sangue e o zunir forte nos ouvidos. impotente como uma vértebra quebrada no pescoço que não chega a tirar a vida, como noites febris de pneumonia e coqueluche. o poema está doente por todos os doentes, morto por todos os mortos, mas vivo de alguma forma como os vivos. é mais um dos que se mantêm vivos no brasil. mesmo além do descaso do estado, da irresponsabilidade dos governos, o poema, que tem em mim sua casa, que aqui vive, é severino. como muitos severinos. e isso ainda diz pouco.

quarentena - julho de 2020.

terça-feira, 5 de maio de 2020

combale

I


cada cruz
cada cova
cada voz
cada dor

combale

na estrada em ruína
nós
e
os mortos

sepultados em mim
esperam covas
ou
qualquer chão possível
na vala comum aberta ao sol
cicatriz de praça

um tempo duro
que desobriga o poema de espera

um tempo escuro
que desobriga a dor de disfarce

o choro na noite dos que não dormem
o cheiro do que se perdeu
e as mãos sujas de sangue dos que ignoram

[nas casas sem distância
como estar
como perceber
como lutar pelos das filas
pelos que esperam a ajuda que não vêm?]

a fúria de nós
dispensa o grito
mas exige a luta
além de notas

a fúria de nós
dispensa varandas
panelas e arrependidos

a fúria de nós exige o fim

do mandato
do mandado
o fim do imperdoável

do imperdoável
sujando de sangue uma bandeira

que chamei de minha

sexta-feira, 1 de maio de 2020

.

essas memórias
seu panegírico
e a festa

no espaço-sitiado
os braços que
[distantes]
sintetizam

:há

no outro lado
o ar que queríamos
e o sorriso solto
de outros carnavais

acaba a noite
[porque tudo ac
aba]

e nos sobra a sorte

a sorte
essa sim
cheia de nada

quarta-feira, 15 de abril de 2020

não está tudo bem

O que mata é essa falsa continuidade, essa falsa normalidade. Não está tudo normal. Não está tudo bem. Atravessamos a maior pandemia da história e querem que a gente siga cumprindo compromissos de agenda. Querem aulas, muitas aulas virtuais. Querem teletrabalho até a exaustão. Querem manter a todos trancados e ocupados como se no mês que vem a padaria fosse abrir um dia de manhã e as pessoas fossem a ela comprar pães sem máscaras e sem álcool gel.

Não, não está tudo bem. Não está tudo normal em trabalhar online. Não está tudo normal se colocamos ainda uma parcela significativa da população trabalhando nas ruas, expostas à morte. Porque é de morte que estamos falando, não de um vírus. Ele voltará a ser um vírus quando a vacina chegar. Até lá, ele é a morte. Não está nada normal negá-la como se a economia ou o passeio do cachorro fossem mais importantes.

Não está nada normal em encher jovens em faixa escolar de atividades. Não está nada normal em nos cobrarem que sigamos como se a vida seguisse um compromisso de agenda momentaneamente adiado. Não está normal mantermos com a existência a relação de adiamento que sempre mantivemos, deixando para amanhã uma vida possível porque agora temos uma videoconferência inadiável.

A vida é inadiável, e não a agenda, o teletrabalho. A morte está nas ruas, à solta, ceifando a baldes as vidas que acreditaram em planos de saúde e em aposentadorias privadas e as daqueles que estão com medo de não ter dinheiro para comprar comida amanhã. A morte está lá fora assustando milhares de pessoas que estão sob uma ameaça constante de perderem as rendas mínimas que possuem, seus trabalhos e no que elas apostaram a vida. Não é mais tempo de apostas.

Não nos venham com esse papo de que é preciso seguir como se tudo estivesse bem. Não está nada bem. Não tem data para estar bem. Não há por que negar, não há motivo nisso. É preciso olhar para a morte de frente e pensar que essas múltiplas atividades que nos impõem são ridiculamente falsas. Que tudo o que vivemos até hoje é falso. Que não há vida em se comprar coisas, pagar boletos. Que a vida não é só sobreviver e manter os bancos. Que não há vidas que valem mais e menos.

Tudo o que vivemos até aqui é falso. Falso como as reuniões e o presidente. Falso como o neoliberalismo e o Estado Mínimo. Falso como o plano de aposentadoria privado. Tudo falso. Real é a vida presa em cada um, agora assutada porque pode morrer amanhã sem ar para respirar, sem velório possível. Real é o que se deixou para depois achando que há depois. Não há depois. O que temos de real é a vida, só ela. O que você vai fazer com isso, com a vida?

sexta-feira, 20 de março de 2020

tem mais o que fazer

se Deus existe
[independente de seu nome]
criou os seres para criarem a si mesmos
desde a expansão do cosmos

criou assim porque
tem mais o que fazer

quando as formas criadas juntaram-se em planetas
estrelas explodiram
supernovas nasceram
e o multiverso se formou

e as vidas explodiram nos planetas
e as eras se sucederam
e num pequeno lugar no todo
a primeira célula criou muitas

era tudo a parte criativa divinal
que em tudo há

porque se Deus existe
tem mais o que fazer

no pequeno lugar no todo
a vida que saiu do mar
evoluiu
foi destruída
tornou a evoluir
até que alguns seres falaram e imaginaram

e não entenderam

por se sentirem fora
criaram um deus a que deram nomes e formas
ritos e cânticos
e oferendas

primeiro a natureza
depois animal selvagem
depois meio-animal-meio-humano
depois animal doméstico
depois pedra
pão
abstração
e ódio

longe daquele que
se existe
tem mais o que fazer

há um deus dos seres de linguagem
[dentre tantos por eles criados
nessa pequena parte no todo]
que é como um ser de linguagem

sente rancor
provoca medo
exige amor em mandamento
e perdoa
[em condições muito específicas]

não é a barata
a aranha
a pulga
o rato

não é serpente e bode
[seus inimigos]

e controla tudo

é particular
pessoal
e intransferível
como o nome próprio
e tem dono:
meu

mas se Deus existe
não é meu

tem mais o que fazer

domingo, 12 de janeiro de 2020

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Algumas coisas que eu diria a um (a) (e) (x) filho (a) (e) (x), caso tivesse:


. Você é o limite de si mesmo. Tenha consciência de si e de seus limites.
. Trabalhe o suficiente para ter uma vida digna. O dinheiro em excesso escraviza e cobrará um preço alto no futuro. O dinheiro escasso escraviza e cobrará um preço alto no futuro.
. Você morrerá. Como todo mundo.
. Tudo o que você tem ficará aqui depois que você morrer. Use as coisas pensando que o outro também poderá usar um dia.
 . Aprenda quantos idiomas quiser, não porque será bom para o mercado de trabalho, mas porque é importante conhecer outras culturas e, principalmente, o outro.
. Lute por justiça e por igualdade social sempre. Entenda que a caridade é necessária, mas que precisa ser transitória. A manutenção da caridade infinita implica na manutenção da desigualdade.
. Viaje. Sempre. Muito. Para e nos lugares, nos vinhos, nas poesias, nas palavras das pessoas.
. Viajar é estar-com. Esteja-com de forma a ter memórias, não fotografias.
. Aprenda com os animais o que é amar gratuitamente.
. Dance, sempre que puder.
. Seja sempre antifascista, antirracista, antimachista, anti-homofóbico.
. Saber cozinhar, cuidar de uma casa e de si sem precisar de ninguém é o maior gesto de liberdade.
. Dê presentes, em especial poemas escritos à mão, flores colhidas na rua, dobraduras de papel, abraços. Dê presentes que não precisem de dinheiro, mas que presentifiquem seu sentimento pela pessoa.
. Estude sempre com humildade. Você não sabe tudo e nunca saberá.
. Todos os saberes são importantes. Quando ouvir alguém dizer que um saber é inferior, desconfie das intenções dessa pessoa.
. Todas as perguntas são importantes.
. Respeite a dúvida, preste atenção ao óbvio, pense o clichê além do clichê.
. Entenda que em muitos casos a ignorância é um projeto. Pessoas são, muitas vezes ignorantizadas. Tente, com cuidado, sempre que possível, tirá-las de lá.
     . Ser alfabetizado é importante, mas não faz de você melhor que o analfabeto.
. Leia: livros, pessoas, situações, contextos, conjunturas, maneiras de vestir e de portar-se. Leia.
. Seja elegante. A elegância maior é a simplicidade.
. Simples não é o mesmo que fácil.
. O fácil nem sempre é ruim. É preciso sempre julgar o fácil de forma ética.
. Seja ético.
. Tenha prudência, paciência e tolerância, mas não seja resiliente. Lute para transformar as coisas que estão erradas no mundo. O que não falta é luta.
. Diga sempre eu te amo sempre que sentir vontade. As pessoas esquecem.
. Sempre que puder ser coletivo, seja. A coletividade é um direito humano. Lute pela coletividade.
. Diga sempre ao outro o quanto ele é importante para você.
. Lembre-se: você é o outro do outro.
. Olhe pro céu, sempre. A qualquer momento. O céu é o absoluto, o tempo, o espaço, a cor e o cosmos. O céu ensina o tempo.
. Viva ao máximo o hoje, sem antecipar o amanhã.
. Ande de moto, mesmo que seja perigoso. É preciso correr riscos na vida.
. A vida não é uma aposta. A vida não é um jogo. A vida não é um negócio. 
. Curta sempre cada etapa de tudo o que fizer. Aí está o segredo do seguir.
. Para todas as dores da alma, leia Fernando Pessoa. Três vezes ao dia, se preciso.
. Medique-se também com arte e literatura.
. Aprenda música.
. Cuide de saber odores, experimente ao máximo o tato e o paladar. Ouça sempre muito. Preste atenção em tudo. Cinco sentidos é coisa para caramba para apreender e usar.
. Não há inferno. Não seja bom com medo de ir para lá. Seja bom porque isso é o certo a fazer.
. Durma, cuide do sono e tente lembrar dos sonhos. Preste atenção neles.
. Ame-se e ame. Sempre. Muito. De todas as formas que você desejar.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

elegia


das marcas do hoje
esse sal

o chão onde colhi margaridas
um dia
é seco chão de piso duro
e venta por sobre o passado

o passado
- seu sal -
tempero antigo com que salgo porcos
tempero antigo com que faço unguentos
no meio do dia partido em quatro
no quarto partido em dois
no teto que abrigou o fim

das marcas do hoje
esse velório inacabável
esse réquiem infinito sem abraço
a noite profunda em que me banho no escuro

do passado
alguma lembrança do sol
o adiar perpétuo
do completo sem que define o dia
como se à aurora
nada fosse possível
com o mar multicor à praia

o hoje de chão e sal

como saber
se no fim está densa fumaça que a tudo opaca
e o sorriso que boia na noite
e a valsa vazia dos dias
e o samba a sós no canto do quarto
é o que tem no dia
seu almoço complacente de nãos e depois

nãos e depois
- uma vida -
a idade madura e seus ossos que rangem
a idade madura de um poema antigo
o amor que se desacredita
e que escapa
opaco
no fundo de um som possível de nós

os nós de depois
seus ossos em chamas aos deuses
amanhã – esse inexistente mistério que me carrega de fins
amanhã – essa aurora e a promessa

aqui os cacos do que ainda brilha
os cacos dos copos que joguei ao chão de raiva
os cacos de mim nos copos
os dedos partidos de agonia

fonte de eterno frio
naquele poema antigo
uma elegia
a longa elegia do fim que não inaugura nada
nada cria
nada cuida

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

O tempo mão


De repente a mão se abre e solta. É simples como dar um passo. Abre a mão e solta. Quando solta, um mundo de possibilidades se abre. A mão, que carregou inútil peso por longo tempo, está livre para novos tatos e novos contatos. Não aguenta mais as bolhas que as coisas lhe causaram, as dores da importância ao inútil, as dores suportáveis e diárias das pequenas ofensas e dos pequenos deixares-de-lado. A mão que sustentou o mundo, equilibrou pratos, fez afagos e vibrou fechada de ódio, sem revidar. A mão que concentrou o medo e quis esconder o rosto, que mostrou-se torta e, por ser torta, foi chamada de louca. De repente, a mão solta tudo isso e livre, alisa outra face.
A nova face que a mão alisa, livre da carga carregada, é o hoje. Está a face leve sem marcas do passado. Na nova face, todas as possibilidades, outras, sem caminhos, espinhos e dores velhas e gastas, já exaustas antes de saírem da cama. A nova face, calma, é um sorriso de companhia. Um sorriso de café com torradas à tarde, de range-rede abraçado de sábado. É a possibilidade de passeio no parque da cidade, de pedras lançadas ao lago, de lenços de partidas e abraços de chegada cada vez mais raros porque não há distância, de horas de silêncio compartilhado mirando o céu pela janela.
A mão, de repente, solta. E vê a tranquilidade da meia idade num embrulho de um livro ao pé da porta. O hoje é um livro embrulhado ao pé da porta. Uma carta que chega, a resposta das milhares de cartas enviadas sem resposta. Uma carta-bilhete, com perfume e letras corridas, mas real e de papel. Comum para além dos boletos. O embrulho na porta, o livro, e tudo o que ele contém de fúria e de sorriso, de improviso no hoje. Um livro que não precisa de estrada, que não é viciado de riscos, que não corta os dedos nas pontas. Um livro, um simples livro para se ler, no hoje, o afago da tarde.

domingo, 13 de outubro de 2019

A consciência do fim


À medida que a vida passa, eu fico cada vez mais lento. É uma força bruta em mim. E os dias cada vez mais rápidos. Eu demoro duas vezes mais do que demorava para me arrumar para ir ao trabalho. Demoro duas vezes mais para comer ou para tomar banho. Mesmo que eu acorde nos mesmos horários e repita meticulosamente os rituais diários que repito. Como me mudei muitas vezes de casa, tinha em mente uma velocidade prática de mudança que hoje é só uma teoria. A última vez que me mudei demorou mais do que qualquer outra, tomou-me três longos meses de preparação, o que antes se resolveria em vinte dias.
Estou mais lento para pensar. Demoro mais a chegar a conclusões. Não porque o raciocínio está mais lento. Mas porque há mais elementos a se considerar. Elementos que não considerava antes, que não dava importância, que não sabia ou não conhecia. E todas as vezes que o cérebro dá sinais de lentidão, troco algo na alimentação, mudo uma rotina – aumento um pouco as horas de sono, evito as redes sociais (esses lugares de dispersão), concentro-me mais nos livros, mudo rotinas. Porque o cérebro é o que eu tenho de mais precioso e do qual mais dependo. E ele fica, como todo o corpo, mais lento.
Quanto mais lento eu fico, mais rápido o tempo passa. Ontem era maio e eu estava me preparando para um concurso, dias depois meu pai faleceu. Ontem era 2015 e eu defendia o meu doutorado. Foi ontem que entrei na Universidade, e esse ontem já bate a casa dos vinte anos no ano que vem. Tudo ontem. Para mim, 1970 ainda dista de mim vinte anos, e não o ano 2000. E eu tenho ficado lento para acompanhar o crescimento dos filhos dos meus amigos, as idades dos meus amigos, seus movimentos de vida. Lento para ler editais e textos, lento num tempo cada vez mais rápido, em que tudo ao meu redor apita – a geladeira se fica muito tempo aberta; os carros em que ando se não fecho bem a porta e se não coloco o cinto de segurança; os caminhões que dão ré na rua, o telefone, esse aparelho maldito que precisa me avisar que há uma nova foto, uma nova mensagem que nunca é urgente de fato, mas que todos consideram assim.
O mundo tem pressa, e eu não tenho. Agora, querem que eu me acelere para acompanhá-los e eu penso: como me acelerar se ainda tenho tantos livros a ler e sei que não dará mais tempo de ler todos? Como me acelerar se ainda não li A montanha mágica nem Proust, e preciso deles com urgência, mas há um relatório, uma minuta, um edital, um post no Facebook, o último e novíssimo livro de Richard Sennett, o último disco do Gil, o último show de Elza Soares, os movimentos na prisão do Lula e as sandices do Presidente que Governa a Prefeitura Brasil? E eu, lento para isso tudo, que ainda preciso de horas para fumar meu cachimbo na poltrona enquanto leio revistas impressas, que sei que meu cachimbo novo vai demorar vinte anos para chegar no ponto ideal, amaciado lentamente dia a dia. Como acompanhar a tudo isso sem entrar em pânico ou sem me sentir deixado para trás?
Dentro disso chega a noção de fim. Acabará, tudo. Porque a morte é um fato e é de repente. Não se sabe quando vem e se me levará a razão antes de chegar. Se eu ainda estarei vivo quando outro sistema econômico posterior ao capitalismo vier, um sistema mais cruel e violento que poderá acabar com toda e qualquer forma de emprego e deixar milhões na miséria (porque eu não sou otimista de que o capitalismo vai morrer no florescer da economia colaborativa), nesse mundo cada vez mais imbecilizado pelas mídias digitais que desprezam livros e impressos com a desculpa que se deve poupar o mundo dos papéis (mas não dos panfletos de loja e dos santinhos de políticos que inundam e imundam as ruas das cidades).
Tudo acabará e é um exercício lento de aceitação de que é preciso priorizar. O tempo não pode ser desperdiçado com coisas ruins. Não a maior parte do nosso tempo. É preciso priorizar o afeto, o estar-com. Como diria Heidegger, ocupar-se do tempo de forma própria, sem se preocupar com as atualizações, com o que vem depois. Ocupar-se do agora e vivê-lo, porque só ele restará, por fim. Essa dinâmica importante que me traz a idade. Eu, lento, tento depurá-la. Ainda não a alcancei. Mas é um exercício diário até o porvir.
Por isso, ficarei nos livros. Neles, entendendo que todos, Adorno, Heidegger, Kant, Schiller, Homero, Drummond, Pessoa, Shakespeare, todos morreram sem ler tudo o que queriam ler. Os livros carregam os mortos e alguns que estarão mortos um dia. Mas neles sei que é preciso ficar. Porque eles me ensinam que para escrever, para pensar, é preciso tempo. Tempo que não nos dão mais, com o trabalho nos acordando na madrugada em apitos de telefones, urgências nas horas em que tudo está fechado, menos os bares. A Universidade ainda não é uma drogaria vinte e quatro horas, e eu não preciso estar a postos como um balconista de plantão. Vou me dar o tempo, o silêncio e a ausência das redes no priorizar os livros. Porque eu vou morrer um dia, e não quero passar a vida entre documentos formais e relatórios. Sinto muito por quem quer viver assim.

sábado, 28 de setembro de 2019

Amor listrado em preto e branco


Atlético: eu, você e esse sofrimento intermitente. Não é amor cheio de paz e tranquilidade. É amor cheio de dor e lágrima, cheio de sofrimento doentio e de alegria arrebatadora. Perversidade que me prende a você. Intenso amor, cheio de grito.
Amor listrado em preto: essa face obscura de todos nós. Na listra preta, nossas profundezas e recolhimentos. Você nos põe em contato com o que há de verdade em nós. Os lugares da alma em que você nos lança há mais de um século, nesse movimento estranho de existir para nos mostrar a razão limite, até onde podemos levar a dor e o viver, o pensar e o resistir. Até onde suportar? Como sobreviver a isso?
Amor listrado em branco: a noção de claridade ilusória a que essa dor obscura nos leva. A claridade de entender a luz, de ser arrebatado da dor. Porque você nos arrebata da dor de todo dia: do ônibus lotado, do salário atrasado, do aumento do aluguel, do preço do feijão. Você nos tira dessa dor diária de viver ao surgir nos noventa minutos em que existe em ação, ali, no centro do espetáculo mundo, o futebol. E não há atleticano que suporte viver sem esses noventa minutos em que você nos traz de volta uma esperança branca e preta, algo difícil de perceber.
Amor listrado em ambivalências: as duas cores do luto. As duas cores do noivado. As duas cores da festa. Há culturas que o branco é o símbolo do morrer, como o preto na nossa. Há culturas em que as noivas vestem preto, como na nossa vestem branco. Nas duas bodas que nos cercam, os elementos vitais do festejo e do desenlace, suas cores. As cores dos antigos pretos velhos, das antigas pretas velhas. As guias preto e brancas da ancestralidade negra de seus torcedores na cura e na doença de amar você, Atlético. Nas cores de Obaluaê, o Orixá da terra, da cura e da doença. O peso de carregar as cores de um deus.
Amor listrado e seus limites: um preto e um branco. Cada listra, um limite. Como transpor os limites do existir? Como viver os limites do amar? Como absorver os limites do pertencer a você, nossa pátria e nação, nosso lar e templo, nosso lugar de aceitação dos erros e dos acertos? Você nos prova sempre que perdoar é um ato de amor, porque sempre o perdoamos, mesmo depois da maior agonia. Você nos mostra que é preciso transpor o limite para o perdoar e o amar. Porque você carrega em si a ambivalência do existir.
Amor sem consenso: não há meio termo. Ou se sofre ou se é feliz. É quente, nada de morno. Talvez a única relação imutável, vermelha como a histórica camisa dos goleiros, como as cores dos números. Um galo de briga de olhos vermelhos. Um galo do povo que briga contra tudo e todos na esperança de vencer. E como o povo, perde mais do que ganha e suporta, e almeja a vitória, tem fé no futuro. E então o povo o ama, porque amanhã é outro dia e você existirá nele, no outro dia, lutando até o último suor do seu rosto que sobra na gola da camisa.
Amor sem vaidade: de todos, com todos. Amor sem veleidades: popular e honesto. Do povo. Sempre do povo. A alegria maior do povo porque repete a dor do povo, seu sofrer. Você lembra a quem não sabe o que é sofrer o sofrimento do povo: nas fábricas, nas lotações, no trabalho diário, no peso das sacarias nas costas. O povo entende de sofrimento, por isso o povo o entende, Atlético. Porque o povo sabe a dificuldade do pão e do cigarro, do feijão e da cachaça. E por isso, sabe o sabor da festa que você provoca na semana. O povo, só o povo o entende e o abraça, Atlético. Porque você não é só querido pelos seus. É amado. E os seus não têm por você essa vaidade barata. Têm orgulho de você. Como de um filho ou de uma filha que consegue vencer a dor diária, como a vitória da família vizinha que enfim saiu do aluguel, como o conseguir realizar um difícil sonho nessa selva que é o viver.
Um galo de briga de olhos vermelhos. Com sede de vitória que se levanta todos os dias às cinco da manhã para auxiliar no acordar das cidades. Como o povo que desperta antes de todos para pôr a cidade em movimento: dirigindo ônibus, fazendo pão, vendendo hortaliça, carregando caminhão, limpando rua, indo para o trabalho nas fábricas. Você é o partido do povo: seu representante e seu delírio.
Amor listrado em preto e branco. Amor limite do dia. Esse lembrar o sofre que você não se furta. A você, Atlético, meu delírio e alegria, minha dor e desamparo. Sempre.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

o sabor do sal - parte I


para ana

o amor, seus contratos e o que há mais, no que cabe de mais. o amor feito um guindaste, gigante e profundo como um precipício. onde, o amor, então? como segurá-lo entre as mãos sem que ele caia nessa via que segue serpenteando a montanha, com forte vento por trás, que nos carrega a alma seca de vertigens e velha como os dias das eras, antigas como o início dos tempos, mas hoje na ocupação diurna? como saber o amor, vivê-lo e condensá-lo num verso que seja capaz de exprimir com clareza além das letras de um nome, além das formas comuns, das pequenas coisas do dia? onde o amor está perdido e encontrado, raptado de seus ais sem muitos lances, onde cabe na verdade esse desvelo e meu jeito, onde durmo pesado? onde o amor me recupera das velhas feridas, dos tropeços e desenganos, desse mentir repetido a mim que em mim de fato pensava que cabia, e que não cabe, mas que punge na força dos dedos na noite, nas dores dos músculos da testa quando esvai a dor pelos poros, onde os atos e seus resultados se colocam empatados e não estamos mais no caminho da dúvida? como abrir mão do que se pensou e ouviu, seguindo uma velha lição, para chegar, no fim, na gema densa, essa joia dura de carbono e sal? enquanto o sal tiver sabor de sal. enquanto esse enfim se materializa?

quarta-feira, 1 de maio de 2019

O limite dos privilegiados

O limite dos privilegiados.

Bolsonaro odeia a educação porque educação é crescimento. E ele nunca cresceu. Não digo de idade. Educação é um crescimento constante, a cada desafio e a cada etapa concluída. O contato com os saberes amplia a pessoa; ela não consegue caber nunca mais nas velhas medidas, nos velhos espaços que ela ocupava antes de aprender.

Aprender a andar de pé fez com que as pessoas nunca mais engatinhassem. Aprender a falar fez com que as pessoas nunca mais balbuciassem. O estágio posterior ao aprendizado é um estágio do qual não se pode retroceder. Isso é crescer. E Bolsonaro não cresceu.

Há ali uma limitação qualquer, não sei. Mas ele parou em algum estágio de seu crescimento e decidiu, ou mesmo não conseguiu, ir adiante. Descobriu um limite e o aceitou como fim. Porque é limitado, assim, de quem chegou ao limite e estacionou ali - por medo, preguiça ou escolha. Então, por não ser capaz de seguir adiante, ele acredita que crescer é inútil.

Para quem chega no limite de sua capacidade sem aceitá-lo, deve ser odioso ver quem segue crescendo, quem não se deixa barrar pelos limites. E a vida universitária, a Universidade, é o lugar onde os limites estão, a todo momento, se alargando, crescendo. É onde todos os anos estudantes se formam convictos de que não cabem mais nas medidas que ocupavam antes de entrar ali. Convictos de que cresceram e sapientes de que ainda há muito a crescer. E ele, Bolsonaro, limitado, se enfurece.

Bolsonaro se enfurece porque ele poderia estar ali. Ele é branco, homem e de classe média. Não recebeu uma educação precária nem foi obrigado a parar de estudar. Estava, como muitos brasileiros de sua classe social, cercado de privilégios e não conseguiu mais crescer. Diferente dos pobres, que precisam abandonar o estudo para trabalhar, ou de negros e negras historicamente excluídos do contato com a educação. Ele poderia ter sido médico, dentista, General do Exército. Ele não conseguiu. Porque chegou ao seu limite. E se enfurece com quem conseguiu e consegue seguir crescendo.

Para piorar, educou seus filhos nessa lógica. Achou outro limitado que largou a escola e foi morar em outro país, que tem atrás de si (nos vídeos que publica) livros que são só cenário. Outro que, por não conseguir ser filósofo por formação, por não ter concluído a escola básica, se autoproclamou filósofo. O limite branco, masculino, de classe média. O limite dos privilegiados.

Atacar as Universidades, as humanidades, o pensamento livre e que produz crescimento, é o ódio do limite dos que não conseguiram. Bolsonaro não conseguiu, mesmo com tantos privilégios. Outros tantos, brancos e de classe média, também cheios de privilégios, não conseguiram. Mesmo com boas escolas, boa alimentação na infância, boas condições de estudo, morando em casa própria, com condições de só se dedicarem ao estudo. E deve ser doloroso ver os pobres, os que nunca tiveram chance, os que trabalham e estudam, as que levam os filhos para as aulas por não terem com quem deixar, conseguirem sem privilégio nenhum o que ele, Bolsonaro, com tantos privilégios, não conseguiu. O que seus filhos, com tantos privilégios, também não conseguiram.

Por isso, ele quer destruir tudo. Porque assim ninguém mais será capaz de esfregar na cara dele o quão limitado ele é. O quanto ele não conseguiu. O quanto seus iguais também não conseguiram. Só conseguirá isso impedindo que outros consigam. Impedindo que outros cresçam. Por isso, estrangular a Universidade, o pensamento e as ciências humanas. Esse é o pano de fundo desse ódio. E dele o mercado se apropria.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Estudos de cartografia I

 para Ana Paula Nunes

o acaso da vida
seus ditames
os imprevistos compostos
sua pele

onde as palavras esquecem
a sua real filosofia
e nos põem contrapostos
de mãos dadas

fervilha a pele das unhas
sob abraços desfeitos
nos repetidos dias de imprevisto

como se a força da cor da aurora
[esta que nos imprime o dia]
fosse o contrário da forma

: corpo

esse rio presente em paradigmas
que nos traz a parte cortada
a que amputamos de nós
a capacidade de crer no fim
como um desabrochar violento da orquídea

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Para Thaís (parte 2)

Lembrar você nas ruas de Diamantina. Onde saímos e onde nos sentamos para ver o dia dormir. Onde passeamos risadas naquele janeiro de há doze anos. E nos vi por ali, almoçando no restaurante que almoçamos, sentando nas mesas dos bares em que bebemos umas cervejas, parando na porta do hotel que dormimos. Nossos dias ali, de novo, reduzidos e diminutos.

Senti sua falta, estranha falta que só sinto por saber que você partiu. Desde que virou jamais, algo novo nasceu por você, e não sei o que é. Uma latência, um som. Você reaparece cristalizada nas fotos, sabendo-se sem telefonemas, e tudo ficou de alguma maneira encantado e carregado de carinho. Talvez porque a morte tenha lá esse peso. E você se subverte na memória, e escapa aqui e ali de onde eu a tinha guardado, entra noutros espaços. Reaparece nas falas do dia, quase sempre.

Sonhei com você esses dias. Sonhei que sorria! E acordei à procura de uma foto que tinha sua na minha cama, sorrindo, vestindo uma blusa minha. Resgatei essa foto e achei outras, uma da gente acordando e da sua cara de mal humor, de você saindo de um baile vestindo meu paletó, da gente sentado num meio-fio durante o carnaval de 2004, da gente com Cynthia, Dávine e Regisley na sua casa. Tenho ainda essas fotos, hoje artefatos de saudade do jamais.

Tenho ainda a palavra saudade escrita em pedra que você me deu quando comecei a viajar para trabalhar e que levou nosso relacionamento ao fim. Lembrei dos encontros rápidos nas rodoviárias, quando estava de passagem. De nossa viagem de janeiro, que começou por Diamantina, nossa longa e importante viagem, decidida de repente, com roupas compradas numa loja em BH, nada programado, como tudo que era nosso. Achei os postais que me mandou de Hong Kong, achei nossas cartas que têm mais de dez anos, mais de quinze anos. Achei o lenço que você usou no cabelo em um dos nossos carnavais, sempre cheios de desencontros e de conversas longas pelos meio-fios. Os lenços que você usou no vestibular em Viçosa, quando fomos juntos. Lembrei de uma vez que você viajou escondida de carro para me ver porque eu não regressaria à Mariana, de você me esperando descer do ônibus quando fui pela primeira vez em São João. Daquela casa pequena em São João. Da decisão de que só nos suportaríamos se vivêssemos em casas separadas.

Você ainda está nas ruas de Mariana, em Passagem. Passo por lá e há sempre uma dor. As coisas mudaram, eu mudei. As coisas mudaram e não cumprimos o plano de comprar livros na Grécia para não perdermos a viagem. Não cumprimos muitos planos desde que tudo terminou e com sua morte fica essa coisa suspensa, porque sempre se tem um depois, sei lá, nessa vida maluca de erros.

Nos dias por nossa cidade, lembrei do que você me disse, quase como uma profecia que acabou por não se cumprir. De que iríamos nos distanciar, nosso relacionamento acabaria para retornar quando estivéssemos mais maduros e soubéssemos lidar melhor com o amor.

Amor. Lembrar de você é lembar que eu já acreditei no amor, e ele parece ecoar de uma vida que não sei mais onde está. Quando você partiu, Bia me ligou e repetia isso, de que eu a tinha amado muito. Um dia, na Sé, Flavinho me disse que achava que nos casaríamos. Fabiano me disse num bar em BH que faltou dar em você o último abraço. Fui apresentado ao marido de Cynthia com meu nome ligado ao seu. Um dia, do nada, Dávine postou uma foto em que estávamos juntos. São tantos registros! Você, sempre sorrindo! Houve amor, um louco amor. Desses que os jovens sentem e que encantam. Um amor que precisava se afastar e amadurecer. E nesse hífen você partiu e eu deixei de acreditar que amar é possível, que exista de fato esse sentimento, o amor.

Você foi importante e eu ainda não consegui superar sua partida. Ainda espero seu telefonema de alguma parte do mundo para a gente dizer ao telefone que a memória que temos um do outro é a de ex-casados, da saudade que temos de você jogando pedras na minha janela quando matava aulas para passar o dia comigo escondida de todos. Nossas tardes e manhãs. Nossas descobertas de nós e do mundo. Dos nossos sonhos de viajar o planeta.

O destino tem brincadeiras cruéis. Quando saí em Diamantina para repetir nossa noite no mercado, vi margaridas. Você estava lá, em tudo. E já fazem doze anos desde aquele janeiro. Quem sabe um dia tudo volte. Quem sabe o que o destino ainda me reserva, já que sua trajetória aqui já terminou. Nesses espaços encantados, ainda espero sua ligação. Ainda espero saber quem você ama no momento, e como se lembra de nós. Eu sigo cada vez mais seco. Mas há sua memória agora, que ilumina as coisas a seu modo.

domingo, 30 de dezembro de 2018

Mais uma vez, a estrada


Quando fiz sete anos, sabia ler. Quando fiz dezessete, estava com a coluna quebrada e recebi uma festa surpresa. Quando fiz 27, tinha acabado de passar no mestrado da Ufes, morava em Vila Velha, já era professor universitário há um ano. Agora, às vésperas dos 37, estou com uma casa nas caixas, com uma mudança que atrasou mais de um mês, mas sou professor universitário de uma universidade pública, como planejado há 20 anos.
A vida e suas voltas. Nos trinta anos que separam o aprendizado da leitura à sala de aula de um curso de Letras, muita coisa aconteceu. E todas elas estão em alguma coisa que já está encaixotada. As coisas, suas forças no tempo, seus pesos. E nelas as lembranças muitas, as alegrias e as tristezas, as noites em claro estudando. A sensação de que o amanhã, depois dos livros, seria de segurança e paz.
A paz se alcança aos poucos, na medida em que consigo reduzir a estrada. Mas como reduzir a estrada, se nos últimos dezoito anos a dinâmica foi mudar, trocar de telefone, de cep, de endereço, de cidade? Como diminuir a estrada se ainda rodo seis horas no mínimo por semana, mais de 300km, para trabalhar – eu que sempre trabalhei em cidades diferentes das que moro, seja no pequeno espaço que separava Ouro Preto e Mariana, Cariacica e Vitória de Vila Velha, seja nas distantes cidades da zona da Mata, na distância que há entre Januária e Montes Claros? Como vencer o fim dos ônibus, das rodoviárias, dos guichês?
A segurança é sempre adiada. Porque agora é o governo quem ameaça a educação. A ameaça que ronda as portas das universidades, os fantasmas e os cortes nada fantasmagóricos de verbas. A incerteza da manutenção do ensino e a necessidade de seguir lutando.
Mais uma mudança entre tantas, mais um tempo entre tantos. E nessa estrada sem fim, perder amores. Porque é uma soma de perdas, de amores que vão ficando para trás nessa jornada. De nomes que agora figuram ladeados num diário, cada ano que passa mais distantes e incomunicáveis, de vidas que parecem serem de outra encarnação, tão diverso me torno de mim a cada ano. E mesmo que ressurjam vez por outra, caem outra vez nessas distâncias, sempre mudas. A vida e suas labutas. Essas mudanças.
Hoje, às vésperas dos 37, o ritmo de mudar é mais lento. O corpo sente mais o peso das caixas e das fitas. O corpo sente mais a espera do caminhão, o ligar para transferir telefone, a troca dos cadastros residenciais. O decorar o novo cep. Saber onde ficam as coisas no novo bairro. Tudo novo de novo, tudo outra vez e uma rotina a reconstruir. O corpo sente mais esses cansaços e as distâncias e não suporta mais mudar. Mas é resiliente quanto ao fato de que o próximo endereço é mais um. Que o próximo cep é mais um. Que essa estrada nunca sairá do horizonte e que nunca será possível um repouso de um tempo num único lugar. E mais pessoas passarão, mais amores ficarão pelo caminho. Mais estrada por fim, o único lugar que habito.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

mais uma vez, a estrada

Fiz muitos textos sobre partir. Quase todos começam com as caixas e as fitas, o de sempre na mudança. Mas essa mudança começa de um lado diferente. Um lado que talvez desconhecesse, mas que é cada dia maior e mais denso, quase tocável. 

Começo do meu cansaço. 

Porque eu estou cansado e isso será o primeiro a ser mudado. Cansado porque preciso responder a um número enorme de pessoas o tempo todo e a maioria não sabe ou não quer esperar. E cada uma tem uma urgência diferente. É sempre muita gente que quer que eu responda de imediato. E não há tempo que baste. 

Talvez tenha sido o imediatismo das redes sociais que fez com que todos, em todos os lugares, se esquecessem que as pessoas têm muitas coisas a fazer além de atendê-las. E é preciso muitas vezes esperar. Esperar pela resposta, esperar pela atenção. E essa espera não quer dizer falta de importância ou qualquer outra coisa. É só uma espera. Porque há muito o que fazer. 

Caí doente este fim de semana. Uma alergia como há muito não tinha. Olhos inchados e sensíveis à luz, doloridos. E a urgência das coisas que apitam. Das mensagens que exigem que você pare o que está fazendo para respondê-las. E as caixas, o prazo da mudança que se aproxima, os livros que quero ler em silêncio sem que nada apite ao meu redor. A vontade de sair e tomar uma cerveja sem que nada apite e que eu precise responder de pronto. 

A sensação que tenho é que o mundo, de repente, tornou-se uma criança birrenta no supermercado. Aquela que repetidas vezes chama a mãe pedindo-lhe que atenda, que responda, e se a mãe não olha a criança essa não pára um segundo de interrompê-la no que quer que ela esteja fazendo. Os aplicativos deveriam ter a função "ocupado", como os telefones, os antigos bate-papos. Ninguém está disponível o tempo todo. Eu estou quase o tempo todo ocupado.

E tudo apita madrugada a dentro a ponto de eu precisar silenciar as coisas porque as pessoas perderam a noção de limite. Ninguém está acordado o tempo todo. Ninguém precisa que as coisas apitem a todo momento. 

E isso me cansou. Cansei de estar a postos. Não estou. Não posso. Cada coisa tem seu tempo e é preciso que elas se respeitem mutuamente. Se os seres perderam essa medida, imponho eu a eles a minha. Como diria Pessoa, "não me macem, pelo amor de Deus". E não os atendo, nem sempre posso. Preciso desligar as coisas que apitam. Porque há dias que o mundo desaba três vezes na vida de alguém enquanto eu tomava banho. Pessoas se matam e ressuscitam e não acabei o café. Pessoas comentam a política global e nem acabei de ler o jornal - porque eu os leio, todas as manhãs. Pessoas mandam fotos e marcam você vídeos madrugada a dentro e você nem trocou de sono. Tudo o tempo todo, ao mesmo tempo agora. E eu preciso de paz. 

A casa está para as caixas. Outra mudança. E dessa vez não é a casa para onde vou, mas o silêncio que colocarei às coisas e pessoas que importa nisso tudo. Só não volto às cartas por impossibilidades que me impõe o trabalho. Fora isso, não respondo mais ninguém na urgência que julgam ter. Querem falar comigo, venham à minha casa. Liguem-me no fixo. No mais, preciso cuidar da mudança. A décima segunda em dezoito anos.  

As caixas chegaram numa noite de lua. As fitas também, como na anterior preparação de partida. Lá a chegada. Sem essa maldita urgência de crianças de supermercado.



segunda-feira, 29 de outubro de 2018

canto I


 para Carol Duarte

como um perdão
que nos cobre a todos
é preciso levantar

anunciar o dia
[porque há ainda dia]
e rever os seres nas calçadas

é preciso sentir à pele
o que nas palavras resiste
e receber de mãos largas
outros acasos

para saber
no fim desta agonia
que estamos juntos sob o sol
que outra liberdade virá
por debaixo dos apetrechos do fim

é preciso levantar escombros
para ver os cacos do mundo
nosso mundo
- indefeso -
que nos grita abrigo e calma
e que nos abre os braços de amar

levantar o dia
que se deixou cair
e olhá-lo nos olhos:

dia, meu dia,
que nasces amanhã com outro nome
mas que a mim me inspira
lealdade
onde se erguem outras bandeiras
plantam-se novas razões
vencem-se velhos hábitos

cresce em todos sem desvios
porque precisamos de ti
de pé
quando a noite chegar

Danilo Barcelos - primavera-18