quinta-feira, 27 de março de 2014

retratos populares - parte I


...Um mendigo me pediu R$ 0,50 para comprar cachaça e eu não tinha para dar, dei da cerveja que bebia e ele dançou ao som de uma banda que tocava na praça. Uma foto enorme de Serra Pelada, de Sebastião Salgado, está tanto no CCBB quanto no Memorial Minas Vale (em uma exposição só com fotos dele, além de uma árvore de frases do Guimarães Rosa e de ternos e camisas com versos do Drummond queimados no tecido, e a voz dele recitando poemas pela sala de livros e vestuário – a poesia, nossa roupa). No CCBB, há uma bonita foto da Pagu, um gol de bicicleta do Leônidas da Silva e o Lula em São Bernardo, como líder sindical. As obras do BRT MOVE, o maior engodo do governo Lacerda, ainda param a cidade e não saíram do papel, reafirmando que o maior legado da Copa é a manifestação popular democrática nas ruas do país. Na biblioteca pública, uma funcionária, caloura de história da UFMG, diz como todas as pessoas a desestimulam à docência, assim como a prefeitura e o governo de Minas, responsáveis pela educação básica. Nos táxis, ninguém fala da tucanada se escondendo embaixo do tapete, querendo tapar uma corrupção estadual e nacional fazendo polêmica sobre investigação já em andamento. Na feira-hippie, como há muitos anos e ainda em progressão, vê-se cada vez menos hippies, mas na praça 7 eles estão em maior número que os pregadores de fé, que os vendedores de loteria mineira, que os cambistas dos jogos do Atlético e que os catireiros - cada dia mais em menor número no café Nice.

Belo Horizonte reúne e separa. De alguma maneira, tudo pulsa aqui a seu modo, menos desesperado que no mundo. Reúne. Abraça tudo como um polvo cheio de tentáculos, e separa. Tem tanto, quer tanto, espera tanto enquanto reúne: seja na mesa do café às cinco, na praça 7, no mercado, no trânsito parado da Afonso Pena, na vista dos prédios que se acotovelam vistos da praça do Papa. E nisso tudo, separa como o desenho das plantas da praça da Liberdade, na separação que dá entre o povo e o governo, seja por um portão, seja por uma rodovia, seja pelos anos de impunidade e de ouvidos surdos aos apelos da população.

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