segunda-feira, 11 de julho de 2016


Não saia da verdade
deixando aberta a vida como quem desfila um carnaval.
Queira a mim em mim e
o que em mim habita,
louco,
cheio de seus novos poros e palavras,
sem mais as explicações de seus delírios.

Não saia pela porta
e não vire mais as chaves ao contrário em mim,
trancafiando as suas decisões como a serpentes.
Não ignore o meu reclame,
mais que a minha luxúria ou minha ira.
Não queira de mim poucos esforços,
não me descontente,
não me descontinue.
Não me finja amar, subterfúgio,
e nem me queira pelos ciúmes.

Ame apenas,
como quem mais não sabe o que fazer
ou como quem não consegue se ferir de outra forma
ou como quem não pretende mais nada com a voz solta,
com as palavras em silêncio.
Queira meus desejos sem corpo,
sem vontades claras,
buscando mais que a sede das minhas palavras
e queixe-se dessa vertigem.
Queixe-se por muitos anos desta falta de palavras.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Tentei morar na palavra.
Em vão.

Primeiro levou os livros.
Depois levou o transporte.
Por fim levou a comida.

Saí de lá.
É mais seguro o chão firme deste cais.

sábado, 2 de julho de 2016

sobre assaltos


Fui assaltado pela primeira vez aos 10 anos voltando da padaria. Levaram uns chicletes que comprei para uma competição de festa junina na escola. A segunda vez que me assaltaram eu tinha 11 anos. Estava indo para a escola. Levaram meus vales-transporte. A terceira vez que fui assaltado foi na volta da padaria. Levaram o troco e um pedaço do pão. A quarta vez que fui assaltado foi na escola. Levaram um estojo com meu material escolar. A quinta vez que me assaltaram foi voltando da escola. Nessa, estavam com uma barra de ferro e eu estava com duas colegas. Levaram uma calculadora e algumas moedas. A sexta vez que me assaltaram foi indo para a escola. Levaram a alça de uma mochila porque a segurei no ponto de ônibus e não deixei que me levassem livros e cadernos. A sétima vez que fui assaltado foi voltando da casa de uma ex-namorada, na madrugada de uma segunda-feira de carnaval. Fui espancado por umas trinta e cinco pessoas, de idades e gêneros diferentes. O número de pessoas foi estipulado pela polícia quando registramos a ocorrência. Levaram uma pochete com um canivete e poemas, um ticket refeição e dois vales-transporte; um dos meus dentes, quebrado a chutes; meu relógio de pulso. Fiquei com o rosto arrebentado por um mês e com fortes dores nos rins.
      Fui assaltado sete vezes dos 10 aos 18 anos.
Além desses assaltos, no mesmo intervalo de tempo, fui abordado incontáveis vezes, sem assalto, porque estava sem nada nos bolsos. Tentaram levar meus chinelos, uma vez, sem sucesso: eram velhos. Tentaram levar o que tivesse nos bolsos, sem sucesso, porque andava só com a chave de casa. Não usava nada que fosse caro ou de marca ou que chamasse atenção. Andava com o dinheiro nas meias, quando andava com dinheiro. Fiquei 16 anos sem ser assaltado, mesmo tendo sido abordado duas vezes em Vitória, mas estava sem nada nos bolsos.
Nos últimos noventa dias, tive minha casa invadida três vezes, sofri dois assaltos em menos de trinta dias. Levaram uma bicicleta, uma furadeira, uma serra tico-tico, um jogo de panelas, um jogo de taças e de xícaras. Pelo menos dessas últimas vezes, não sofri no corpo, como na sétima. Acredito que muitos já foram assaltados mais vezes do que eu. Quis registrar isso para lembrar que, mesmo sendo tantas vezes assaltado, não acho que bandido bom é bandido morto.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Só às palavras do tédio
cabem os conselhos.

Nelas, desfazem-se as vontades,
nossas cores,
o chão.

Nas palavras do tédio
o truncado vazio
a vaidade da vaia
o infortúnio da mão.

Nas forças de tudo
no tédio
nossas farsas
há tristeza escura
há sala de palavras.

Danilo Barcelos
verão de 2012.

terça-feira, 7 de junho de 2016


É preciso me abrigar da chuva do frio e das marés. Mas não há chuva ou frio e as marés estão distantes. Mas há o passar das marés, seus distúrbios soltos e mórbidos, os navios ante o cais. É preciso me abrigar do sol e do vento, mas o sol é sempre e o vento um nem quase, onde tudo que há é poeira e tempo, esse jeito de abrir um maço esquecido de cigarros. O bolso vazio na calça velha, a praça, além. Além o que existe de sabores de além, onde o destino agora em caixas vazias de qualquer coisa hoje inútil. Mas é preciso o abrigo do vento e da chuva, o chapéu ao sol de quarta-feira.
      Quarta-feira, dia de ângulos. Porque às quartas-feiras chove uma chuva fina no sem-onde, mas não aqui neste sol de tarde quente. O azul, por fim esquecido. Mas me lembro. Lembro que gostava daquele abrigo da chuva, da marquise curta. Lembro, mas é uma lembrança quase opaca, era outro (e não eu) debaixo da marquise curta, abrigando-me desse outro que hoje está aqui sob o sol. Lembro-me que já sorri desses barulhos naquela marquise. Sorri sim, verdadeiramente. E hoje é a lembrança opaca daquilo, meio sem gosto, como um pão velho que aos poucos mofa.
É preciso me abrigar do mofo da umidade e dos ratos. Mas aqui não há umidade nem mofo e os ratos, poucos, os cães expulsam aos latidos violentos ou os gatos caçam. Mas lembro-me de mofo e ratos e umidade como me lembro das marquises apertadas, do abrigo. Tudo longe, quase esquecido, foto que desbota e que quando olho é um outro eu tão distante que hoje nem parece ter existido de fato. Inventado de um sonho, mas possível de comprovação nos documentos oficiais que carrego. Documentos que o fisco e o governo controlam, hoje onde tudo é controlado e ruim.
Lembro-me que não havia o controle e o hoje era um vislumbre em espelho de banheiro, bêbado, às quatro da madrugada. O hoje era a tarde de sol cinza debaixo de uma laranjeira ceca no meio de um quintal com musgos. O hoje era uma porta azul com aldrava preta frente a uma escada de pedras onde um velho, repetidas vezes, raspava ervas daninhas. O hoje era preciso. E era preciso saber o hoje que não vislumbrava. Um hoje distante e que hoje é pouco importante, bem diverso. Mas era o hoje que eu tinha, de que me lembro. O hoje que era só um vislumbre na marquise, aquele abrigo, cheio de umidade de um moletom empapado de chuva, que cheirava a guardado como cheiravam as calças e os sapatos. Como cheiravam os ombros dos amigos, misturados aos perfumes do possível entre cheiros de sabão e amaciante.
É preciso guardar os livros, cuidar deles e alimentá-los. Mas hoje os livros nutridos se formam nas estantes coloridas, sem tanta urgência de abrigo, mais lido e tratados como coisas. Instrumentos como furadeira, chave de fenda ou uma colher de cozinha. Livros sem mais a mistificação de livro, sem mais a coisa perdida, esse mistério absorto onde não sei de muita certeza e onde perdi qualquer verdade. Mas me lembro daqueles livros imantados e verticais, nas estantes, cheios de sonhos para aquele hoje vislumbrado e seco. Aquele hoje que nem entendo da memória, do cheiro velho das coisas velhas que hoje já não têm mais qualquer sentido, mas que existem aqui desfiguradas, quebradas e recolhidas.
É preciso organizar os móveis e a casa, arrumar a cama todo dia. Lembro-me que era preciso o vinco dos lençóis no centro do colchão velho. Um lençol com flores alaranjadas de trinta anos, desbotadas de trinta anos, velhas por fim em tudo e em mim também, mas hoje são flores de que me lembro e do vinco, mas não da obrigação de arrumar e organizar. As coisas sobem sobre as coisas e naquele hoje vislumbrado as coisas seriam organizadas e corretas. As coisas teriam seus momentos úteis. Hoje, só coisas.
Naquele antigo ontem onde lembro o pouco e distante, havia a certeza de amor. Havia amor, eu me lembro. Era palpável como um travesseiro, um chumaço de algodão. Mas é tão distante e esquecido que nem sei mais que gosto tem, se tem gosto, se era palpável. Está distante como o abrigo debaixo da marquise, como a chuva que caía, como o que se via além da porta azul de aldrava preta, para cima da laranjeira seca e do quintal com musgo. Para além das flores laranja desbotadas do lençol, seu vinco. Para além. Eu não me lembro mais do que existia para além.

sexta-feira, 3 de junho de 2016


a calma do rio, seu passar. as noites longas onde tudo é árvore, nuvens pesadas e estrelas. o som do tempo nas coisas, os espinhos e o que de mar tem ainda nos poros. onde o passar? onde esse tempo grosso? nas coisas esquecidas do dia, ao sol, essas frutas pelo chão e o quintal que se limpa de folhas de limão, o muro caiado que me mira, sem cercar de fato o que tem. os novos verbos nunca usados, cheios, carregados e pesados, de sabores de cajá, um fardo de cana nos carros de boi que cortam as estradas, as memórias dos vapores e das balsas. o silêncio do rio majestoso e pleno, de águas sagradas onde os jacarés se banham. banhar-me de tempo nesse acaso de nome palavra que pulsa comendo a memória de meus medos e a forma de minhas palavras. há estrada, há cais. onde o cais?

terça-feira, 3 de maio de 2016

de onde eu vim

de onde vim, falar é quase um crime e mata-se por muito menos. de onde eu vim, mata-se por qualquer motivo, por uma pichação, por nem isso, por estar acompanhado, estando acompanhado, de dia, de noite, de madrugada. mata-se com regularidade semanal. sem a palavra. de onde eu vim, implanta-se a culpa onde nada há e prende-se por decreto, por desacato. os tempos sombrios e os becos, lá, nunca sumiram. aumentaram os becos, quiseram iluminá-los, derrubaram casas e mais casas, desalojaram rapidamente muita gente pela urbanidade. em vão. lá de onde eu vim, falar é quase um crime e mata-se por muito menos. e há paz combinada que de tempos em tempos acaba. há paz para que milhares de trabalhadores e trabalhadoras saiam ainda pelas ruas na madrugada. rompida a paz, há horas de recolher, horas para sair, e silêncio nos ônibus, nos sacolões, nas padarias, nos bares. há botas e fardas que cercam e prendem. matam por muito menos. matam dos dois lados, como matavam antes. lá, o direito é um susto e uma camisa a mortalha. lá, de onde eu vim, é o troca-tiro e as torturas, dos dois lados, é um sofá em chamas em barricada no meio da madrugada, velha murada, é ônibus incendiado e corpos como em poucos lugares do planeta. de onde eu vim, ainda se está muito longe do estado de direito. e o pouco estado de direito que lá chegou, se é que chegou de fato, pode voltar a sumir. porque de onde eu vim, falar é quase um crime e mata-se por muito menos.