I
cada cruz
cada cova
cada voz
cada dor
combale
na estrada em ruína
nós
e
os mortos
sepultados em mim
esperam covas
ou
qualquer chão possível
na vala comum aberta ao sol
cicatriz de praça
um tempo duro
que desobriga o poema de espera
um tempo escuro
que desobriga a dor de disfarce
o choro na noite dos que não dormem
o cheiro do que se perdeu
e as mãos sujas de sangue dos que ignoram
[nas casas sem distância
como estar
como perceber
como lutar pelos das filas
pelos que esperam a ajuda que não vêm?]
a fúria de nós
dispensa o grito
mas exige a luta
além de notas
a fúria de nós
dispensa varandas
panelas e arrependidos
a fúria de nós exige o fim
do mandato
do mandado
o fim do imperdoável
do imperdoável
sujando de sangue uma bandeira
que chamei de minha
terça-feira, 5 de maio de 2020
sexta-feira, 1 de maio de 2020
.
essas memórias
seu panegírico
e a festa
no espaço-sitiado
os braços que
[distantes]
sintetizam
:há
no outro lado
o ar que queríamos
e o sorriso solto
de outros carnavais
acaba a noite
[porque tudo ac
aba]
e nos sobra a sorte
a sorte
essa sim
cheia de nada
seu panegírico
e a festa
no espaço-sitiado
os braços que
[distantes]
sintetizam
:há
no outro lado
o ar que queríamos
e o sorriso solto
de outros carnavais
acaba a noite
[porque tudo ac
aba]
e nos sobra a sorte
a sorte
essa sim
cheia de nada
quarta-feira, 15 de abril de 2020
não está tudo bem
O que mata é essa falsa continuidade, essa falsa normalidade. Não está tudo normal. Não está tudo bem. Atravessamos a maior pandemia da história e querem que a gente siga cumprindo compromissos de agenda. Querem aulas, muitas aulas virtuais. Querem teletrabalho até a exaustão. Querem manter a todos trancados e ocupados como se no mês que vem a padaria fosse abrir um dia de manhã e as pessoas fossem a ela comprar pães sem máscaras e sem álcool gel.
Não, não está tudo bem. Não está tudo normal em trabalhar online. Não está tudo normal se colocamos ainda uma parcela significativa da população trabalhando nas ruas, expostas à morte. Porque é de morte que estamos falando, não de um vírus. Ele voltará a ser um vírus quando a vacina chegar. Até lá, ele é a morte. Não está nada normal negá-la como se a economia ou o passeio do cachorro fossem mais importantes.
Não está nada normal em encher jovens em faixa escolar de atividades. Não está nada normal em nos cobrarem que sigamos como se a vida seguisse um compromisso de agenda momentaneamente adiado. Não está normal mantermos com a existência a relação de adiamento que sempre mantivemos, deixando para amanhã uma vida possível porque agora temos uma videoconferência inadiável.
A vida é inadiável, e não a agenda, o teletrabalho. A morte está nas ruas, à solta, ceifando a baldes as vidas que acreditaram em planos de saúde e em aposentadorias privadas e as daqueles que estão com medo de não ter dinheiro para comprar comida amanhã. A morte está lá fora assustando milhares de pessoas que estão sob uma ameaça constante de perderem as rendas mínimas que possuem, seus trabalhos e no que elas apostaram a vida. Não é mais tempo de apostas.
Não nos venham com esse papo de que é preciso seguir como se tudo estivesse bem. Não está nada bem. Não tem data para estar bem. Não há por que negar, não há motivo nisso. É preciso olhar para a morte de frente e pensar que essas múltiplas atividades que nos impõem são ridiculamente falsas. Que tudo o que vivemos até hoje é falso. Que não há vida em se comprar coisas, pagar boletos. Que a vida não é só sobreviver e manter os bancos. Que não há vidas que valem mais e menos.
Tudo o que vivemos até aqui é falso. Falso como as reuniões e o presidente. Falso como o neoliberalismo e o Estado Mínimo. Falso como o plano de aposentadoria privado. Tudo falso. Real é a vida presa em cada um, agora assutada porque pode morrer amanhã sem ar para respirar, sem velório possível. Real é o que se deixou para depois achando que há depois. Não há depois. O que temos de real é a vida, só ela. O que você vai fazer com isso, com a vida?
Não, não está tudo bem. Não está tudo normal em trabalhar online. Não está tudo normal se colocamos ainda uma parcela significativa da população trabalhando nas ruas, expostas à morte. Porque é de morte que estamos falando, não de um vírus. Ele voltará a ser um vírus quando a vacina chegar. Até lá, ele é a morte. Não está nada normal negá-la como se a economia ou o passeio do cachorro fossem mais importantes.
Não está nada normal em encher jovens em faixa escolar de atividades. Não está nada normal em nos cobrarem que sigamos como se a vida seguisse um compromisso de agenda momentaneamente adiado. Não está normal mantermos com a existência a relação de adiamento que sempre mantivemos, deixando para amanhã uma vida possível porque agora temos uma videoconferência inadiável.
A vida é inadiável, e não a agenda, o teletrabalho. A morte está nas ruas, à solta, ceifando a baldes as vidas que acreditaram em planos de saúde e em aposentadorias privadas e as daqueles que estão com medo de não ter dinheiro para comprar comida amanhã. A morte está lá fora assustando milhares de pessoas que estão sob uma ameaça constante de perderem as rendas mínimas que possuem, seus trabalhos e no que elas apostaram a vida. Não é mais tempo de apostas.
Não nos venham com esse papo de que é preciso seguir como se tudo estivesse bem. Não está nada bem. Não tem data para estar bem. Não há por que negar, não há motivo nisso. É preciso olhar para a morte de frente e pensar que essas múltiplas atividades que nos impõem são ridiculamente falsas. Que tudo o que vivemos até hoje é falso. Que não há vida em se comprar coisas, pagar boletos. Que a vida não é só sobreviver e manter os bancos. Que não há vidas que valem mais e menos.
Tudo o que vivemos até aqui é falso. Falso como as reuniões e o presidente. Falso como o neoliberalismo e o Estado Mínimo. Falso como o plano de aposentadoria privado. Tudo falso. Real é a vida presa em cada um, agora assutada porque pode morrer amanhã sem ar para respirar, sem velório possível. Real é o que se deixou para depois achando que há depois. Não há depois. O que temos de real é a vida, só ela. O que você vai fazer com isso, com a vida?
sexta-feira, 20 de março de 2020
tem mais o que fazer
se Deus existe
[independente de seu nome]
criou os seres para criarem a si mesmos
desde a expansão do cosmos
criou assim porque
tem mais o que fazer
quando as formas criadas juntaram-se em planetas
estrelas explodiram
supernovas nasceram
e o multiverso se formou
e as vidas explodiram nos planetas
e as eras se sucederam
e num pequeno lugar no todo
a primeira célula criou muitas
era tudo a parte criativa divinal
que em tudo há
porque se Deus existe
tem mais o que fazer
no pequeno lugar no todo
a vida que saiu do mar
evoluiu
foi destruída
tornou a evoluir
até que alguns seres falaram e imaginaram
e não entenderam
por se sentirem fora
criaram um deus a que deram nomes e formas
ritos e cânticos
e oferendas
primeiro a natureza
depois animal selvagem
depois meio-animal-meio-humano
depois animal doméstico
depois pedra
pão
abstração
e ódio
longe daquele que
se existe
tem mais o que fazer
há um deus dos seres de linguagem
[dentre tantos por eles criados
nessa pequena parte no todo]
que é como um ser de linguagem
sente rancor
provoca medo
exige amor em mandamento
e perdoa
[em condições muito específicas]
não é a barata
a aranha
a pulga
o rato
não é serpente e bode
[seus inimigos]
e controla tudo
é particular
pessoal
e intransferível
como o nome próprio
e tem dono:
meu
mas se Deus existe
não é meu
tem mais o que fazer
[independente de seu nome]
criou os seres para criarem a si mesmos
desde a expansão do cosmos
criou assim porque
tem mais o que fazer
quando as formas criadas juntaram-se em planetas
estrelas explodiram
supernovas nasceram
e o multiverso se formou
e as vidas explodiram nos planetas
e as eras se sucederam
e num pequeno lugar no todo
a primeira célula criou muitas
era tudo a parte criativa divinal
que em tudo há
porque se Deus existe
tem mais o que fazer
no pequeno lugar no todo
a vida que saiu do mar
evoluiu
foi destruída
tornou a evoluir
até que alguns seres falaram e imaginaram
e não entenderam
por se sentirem fora
criaram um deus a que deram nomes e formas
ritos e cânticos
e oferendas
primeiro a natureza
depois animal selvagem
depois meio-animal-meio-humano
depois animal doméstico
depois pedra
pão
abstração
e ódio
longe daquele que
se existe
tem mais o que fazer
há um deus dos seres de linguagem
[dentre tantos por eles criados
nessa pequena parte no todo]
que é como um ser de linguagem
sente rancor
provoca medo
exige amor em mandamento
e perdoa
[em condições muito específicas]
não é a barata
a aranha
a pulga
o rato
não é serpente e bode
[seus inimigos]
e controla tudo
é particular
pessoal
e intransferível
como o nome próprio
e tem dono:
meu
mas se Deus existe
não é meu
tem mais o que fazer
domingo, 12 de janeiro de 2020
quinta-feira, 9 de janeiro de 2020
Algumas coisas que eu diria a um (a) (e) (x) filho (a) (e) (x), caso tivesse:
. Você é o limite de si mesmo. Tenha consciência de si e de seus
limites.
. Trabalhe o suficiente para ter uma vida digna. O dinheiro em excesso
escraviza e cobrará um preço alto no futuro. O dinheiro escasso
escraviza e cobrará um preço alto no futuro.
. Você morrerá. Como todo mundo.
. Tudo o que você tem ficará aqui depois que você morrer. Use as
coisas pensando que o outro também poderá usar um dia.
. Aprenda quantos idiomas quiser, não porque será bom para o mercado
de trabalho, mas porque é importante conhecer outras culturas e,
principalmente, o outro.
. Lute por justiça e por igualdade social sempre. Entenda que a
caridade é necessária, mas que precisa ser transitória. A
manutenção da caridade infinita implica na manutenção da
desigualdade.
. Viaje. Sempre. Muito. Para e nos lugares, nos vinhos, nas poesias,
nas palavras das pessoas.
. Viajar é estar-com. Esteja-com de forma a ter memórias, não
fotografias.
. Aprenda com os animais o que é amar gratuitamente.
. Dance, sempre que puder.
. Seja sempre antifascista, antirracista, antimachista, anti-homofóbico.
. Saber cozinhar, cuidar de uma casa e de si sem precisar de ninguém é
o maior gesto de liberdade.
. Dê presentes, em especial poemas escritos à mão, flores colhidas
na rua, dobraduras de papel, abraços. Dê presentes que não
precisem de dinheiro, mas que presentifiquem seu sentimento pela
pessoa.
. Estude sempre com humildade. Você não sabe tudo e nunca saberá.
. Todos os saberes são importantes. Quando ouvir alguém dizer que um
saber é inferior, desconfie das intenções dessa pessoa.
. Todas as perguntas são importantes.
. Respeite a dúvida, preste atenção ao óbvio, pense o clichê além
do clichê.
. Entenda que em muitos casos a ignorância é um projeto. Pessoas são, muitas vezes ignorantizadas. Tente, com cuidado, sempre que possível, tirá-las de lá.
. Ser alfabetizado é importante, mas não faz de você melhor que o analfabeto.
. Ser alfabetizado é importante, mas não faz de você melhor que o analfabeto.
. Leia: livros, pessoas, situações, contextos, conjunturas, maneiras
de vestir e de portar-se. Leia.
. Seja elegante. A elegância maior é a simplicidade.
. Simples não é o mesmo que fácil.
. O fácil nem sempre é ruim. É preciso sempre julgar o fácil de
forma ética.
. Seja ético.
. Tenha prudência, paciência e tolerância, mas não seja resiliente.
Lute para transformar as coisas que estão erradas no mundo. O que
não falta é luta.
. Diga sempre eu te amo sempre que sentir vontade. As pessoas esquecem.
. Sempre que puder ser coletivo, seja. A coletividade é um direito
humano. Lute pela coletividade.
. Diga sempre ao outro o quanto ele é importante para você.
. Lembre-se: você é o outro do outro.
. Olhe pro céu, sempre. A qualquer momento. O céu é o absoluto, o
tempo, o espaço, a cor e o cosmos. O céu ensina o tempo.
. Viva ao máximo o hoje, sem antecipar o amanhã.
. Ande de moto, mesmo que seja perigoso. É preciso correr riscos na
vida.
. A vida não é uma aposta. A vida não é um jogo. A vida não é um
negócio.
. Curta sempre cada etapa de tudo o que fizer. Aí está o segredo do
seguir.
. Para todas as dores da alma, leia Fernando Pessoa. Três vezes ao
dia, se preciso.
. Medique-se também com arte e literatura.
. Aprenda música.
. Cuide de saber odores, experimente ao máximo o tato e o paladar.
Ouça sempre muito. Preste atenção em tudo. Cinco sentidos é coisa
para caramba para apreender e usar.
. Não há inferno. Não seja bom com medo de ir para lá. Seja bom
porque isso é o certo a fazer.
. Durma, cuide do sono e tente lembrar dos sonhos. Preste atenção
neles.
. Ame-se e ame. Sempre. Muito. De todas as formas que você desejar.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2019
elegia
das marcas do hoje
esse sal
o chão onde colhi margaridas
um dia
é seco chão de piso duro
e venta por sobre o passado
o passado
- seu sal -
tempero antigo com que salgo porcos
tempero antigo com que faço unguentos
no meio do dia partido em quatro
no quarto partido em dois
no teto que abrigou o fim
das marcas do hoje
esse velório inacabável
esse réquiem infinito sem abraço
a noite profunda em que me banho no escuro
do passado
alguma lembrança do sol
o adiar perpétuo
do completo sem que define o dia
como se à aurora
nada fosse possível
com o mar multicor à praia
o hoje de chão e sal
como saber
se no fim está densa fumaça que a tudo opaca
e o sorriso que boia na noite
e a valsa vazia dos dias
e o samba a sós no canto do quarto
é o que tem no dia
seu almoço complacente de nãos e depois
nãos e depois
- uma vida -
a idade madura e seus ossos que rangem
a idade madura de um poema antigo
o amor que se desacredita
e que escapa
opaco
no fundo de um som possível de nós
os nós de depois
seus ossos em chamas aos deuses
amanhã – esse inexistente mistério que me carrega de fins
amanhã – essa aurora e a promessa
aqui os cacos do que ainda brilha
os cacos dos copos que joguei ao chão de raiva
os cacos de mim nos copos
os dedos partidos de agonia
fonte de eterno frio
naquele poema antigo
uma elegia
a longa elegia do fim que não inaugura nada
nada cria
nada cuida
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