sábado, 27 de janeiro de 2018

Até, Corujão. Até...

As três coisas que Thaís mais detestava em mim na época do nosso relacionamento eram eu chamar as meninas das Intocáveis de "minhas meninas"; da maneira como eu abraçava minhas amigas e de quando eu me sentava no Corujão. 

Uma vez, quando reatamos - nas muitas vezes em que reatamos até 2007 -, num bar em um posto de gasolina em Manhuaçu, Thaís sorriu quando eu disse que era estranho vê-la sentar-se em um bar e não reclamar de tudo e ela confessou que aprendeu a gostar deles comigo, em especial nas intermináveis noites no Corujão. 

Foram intermináveis noites. Como se tudo só fizesse sentido quando o sol nascia e eu ainda estava lá, sentado com os pés para cima, enquanto lavavam o chão. Intermináveis noites que precisei esperar as seis da manhã para raspar a conta e pagar minha parte no mexidão e nas cervejas. Noites de insônia que tive à porta da Sé, sentado jogando conversa fora, olhando o movimento do Corujão sem nem lá entrar porque não tínhamos dinheiro para tomar cerveja e o intuito era mesmo ficar na porta da Sé jogando conversa fora. 

No Corujão discuti o pensamento de Foucault, aprendi sobre História da Arte, sobre Teoria da Literatura, sobre samba, sobre marxismo, sobre Freud. Tudo recheado de leveza, de uma bobagem ou outra, de muita risada. Lá foi o primeiro bar que amanheci com o meu violão - o meu, que quase nunca saía de casa, mas que passeava pelas ruas de Mariana nas praças, no coreto e, principalmente, no Corujão. Lá, todas as vezes, toquei sempre dois sambas-canção: Boemia e Mulambo. Muitas dessas noites viraram histórias. Boas histórias. 

Cada reforma, cada mudança de lugar do balcão, cada mesa trocada, cada inovação eram recebidos por mim como piada. Mas o Corujão era preciso sempre, ali, como uma porta aberta ao meu eterno ser insone e notívago, que precisa da noite para ver o melhor e o pior das pessoas, seus arroubos mais profundos de medos, falsidades e de amor verdadeiro a qualquer coisa - porque uma vez um amigo me disse que não há amor mais verdadeiro que o de um bêbado para outro bêbado quando esses se declaram um para o outro. 

A precisão do Corujão - estar ali por toda a madrugada - sempre me acalmou de alguma forma. Porque, mesmo depois de sair de Mariana, nos lugares de onde saía para ir para lá e chegar de madrugada, eu sabia que poderia esperar o nascer do dia no Corujão, em uma daquelas mesas, e alguém que conheço há muito estaria lá, e eu me sentaria a mesa e beberia, porque todos, em algum momento, sempre terminavam lá. 

Há muito de romantismo no que digo, claro, porque todo sentimento dessa linha o é - em especial os bregas sentimentos de saudade que temos quando algo simplesmente acaba (o que é comum no caso de bares e comércios). Mas, mesmo que eu não consiga passar por esse embelezamento e romantização dos vícios - comuns nos sambas que amo - há algo meu que sumiu e que some aos poucos.

Nos últimos anos, Mariana muda profundamente. A lama da Samarco riscou do mapa vidas, histórias, famílias e suas memórias. Algumas dessas pessoas atingidas, depois de passado o caos, talvez numa noite de sufoco em que é preciso desafogar a cabeça de tantas dores e perdas, foram recebidas no Corujão para aquela dose de ilusão de alegria que os bares estão repletos. Para tentar achar um caminho qualquer. Muitas vezes, antes mesmo da lama da Samarco, era lá que os trabalhadores, saindo de seus turnos da mineração, iam comer o último prato, beber uma cerveja e dormir até o próximo turno, no vai-e-vem que são os ônibus das mineradoras. Lá, os guias de turismo comentavam as altas e baixas das temporadas, gastavam o dinheiro de seu trabalho.  Lá, os estudantes de muitas épocas, os professores de muitas épocas, iam esquecer um pouco a dor da solidão que é morar longe dos seus enquanto se estuda, solidão compartilhada que faz com que em nós haja sempre um sentimento de acolhida e amor onde quer que hoje cada uma daquelas pessoas esteja. 

Então, para além do romantismo, o Corujão foi palco do que a vida hodierna nos dá: o massacre lento do trabalho, o desgaste do discurso que está por trás do sonho, o espaço onde todos são iguais e podem, num hiato de noite, se verem livres de suas dores e preocupações e xingar o presidente - seja do Clube de Futebol, da Empresa, do País. 

E o Corujão fechou. E todo esse movimento de ilusão será assumido por outro bar, como em todo lugar. E tudo seguirá igual: as mineradoras explorando seus funcionários nos turnos malucos - porque as mineradoras nunca dormem - os estudantes com as dores por trás de seus sonhos discutindo teorias e falando da vida dos outros, os desempregados que conseguiram um trocado, um amante que terminou um amor. Tudo em outro espaço. Mas não mais no Corujão, que em Mariana, era o meu.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Atlântica (parte XII)




Eu sempre fui o que foi de mim? Quanto mais velho, mais jovem. Quanto mais jovem, mais perdido fica. Maturidade… sem explicação bate à porta às quatro da madrugada e é só insônia, tédio e medo. No fim, é isso um pouco, com um pouco de gosto de algo alcoólico que se bebeu para chegar o sono, evitando o remédio fácil. Amanhã, recomeço. Mas o que? Recomeço o estar de novo no furacão, na vigília constante dos dias sem muito além, no dia de hoje com a certeza de paz diminuta, essa paz a duras conquistada. Pensa? Mas há a certeza do além, no quanto mais velho, mais jovem. A clareza do além. Há clareza nisso? No além? Mas o que há são perguntas e permutas. Permutas, sim, há muitas, todos os dias. No sorriso novo ganho na multidão, na música que se descobre, no que ainda se descobre de corpo, porque na mudança o perdemos um pouco, esquecemos.

Outro exercício do dia: o esquecer. Esquece-se de tudo, de propósito. Os nomes dos antigos nas fotos que não entendemos mais. No olhar na foto que não nos reconhecemos, na juventude. Na foto na cama, ao lado dela, ao despertar de há mais de dez anos, quando ainda despertávamos juntos, de mau humor diante do dia claro que se anunciava, numa cama de solteiro velha num quarto mofado. O dia, seus desafios tão menos caprichosos a cada ano que passa. A cada ano de dia, de vida perdida, de mesma coisa sem o despertar conjunto de há dez anos porque nem cama e nem quarto, nem ela ou coisa válida hoje existem, e sobrou o despertar do todo dia, o despertar somente, o desagradar-se de contentamento.

Quanto mais velho, mais jovem. Mas o corpo sente, a paciência acaba e a tolerância aumenta. Tolera-se a vida, cada vez menos inteligente. Cada vez menos, por mais que se busque, mas há os livros, ainda um refúgio possível. Livros, sem tomadas, sem eletricidade, que dependem de luz externa a eles para serem lidos, sem muito sol, por favor, para não danificar o papel. O toque no papel, seu cheiro. Livros e o eterno contato sensual que com eles temos, o valor táctil dos seus poros, seus suores noturnos. Livros. Quanto mais velhos, mais jovens. Livros: o único caminho possível.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017


a memória dos mortos
seus sedimentos

o que nos acaba no declive
e o que nos impõe o objeto.

os mortos
seus dissabores
e o que há de rançoso no ir
que nos coloca a amarga
troca

troca morosa da morte
lenta
que transforma vivos em agiotas:
um barganhar somente

onde o corpo do morto pouco vale
mas espera:
rutila a cor insossa que consome

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Eu posso vir a ser preso por isso (?)


As últimas ações que se deram no mundo da arte, iniciadas com a prisão de Maikon Kempinski em sua performance “DNA de DAN”, em Brasília, em julho deste ano, desencadearam um movimento articulado e perigoso que desembocou no cancelamento da exposição Queermuseu, em Porto Alegre, e a recente polêmica da performance do MAM, na qual uma criança, acompanhada de sua mãe, toca o corpo nu de um homem.
Chama a atenção alguns elementos nas ações contra os demais cancelamentos e censuras que a arte vem sofrendo ultimamente. A primeira é a de que a caça não é à arte somente, mas aos locais públicos de sua exposição. Tanto a Polícia, no caso da performance “DNA de DAN”, em Brasília, quanto o MBL, em Porto Alegre e em São Paulo, usaram de discursos conservadores contra espaços de arte – seja a rua, sejam museus –, com amplo apoio de uma parcela também conservadora da sociedade.
Juntamente com essas iniciativas, a recente decisão do STF sobre o ensino religioso nas escolas e a campanha por uma Escola sem Partido – absurda do ponto de vista pedagógico e político – preocupam porque direcionam dois olhares complicados. Ambos ligados às práticas públicas e privadas.
Se uma pessoa não gosta de uma obra de arte ou de uma performance, isso é um problema individual que está ligado aos seus valores, gostos e crenças. E é legítimo que essa pessoa desgoste. Agora, quando a questão é silenciar a arte, esse problema passa a ser coletivo. Se uma pessoa tem uma fé na qual acredita e parte dela para observar o mundo, essa é uma decisão individual. Quando o ensino religioso de determinado segmento começa a ser imposto por órgãos de Estado isso é um problema coletivo. E quando o problema é coletivo, mais do que tensões de frente devem ser colocadas à mesa para a discussão.
Uma empreitada contra a arte e outra contra a livre escolha religiosa, ao mesmo tempo, são preocupantes. Primeiro porque o que se faz, em uma, por incisivo apelo a valores de um grupo, é o banimento de pessoas dos espaços onde estão as artes. Há, assim, um crescente silenciamento dos lugares questionadores da sociedade, que problematizam valores, posturas e condutas públicas. Se a onda seguir por esse caminho, em breve teremos livros proibidos, músicas proibidas, e a manifestação coletiva dos discursos, a liberdade de expressão, a democrática relação da coletividade com a arte estarão ameaçados. Além disso, se um único grupo ditar o que deve ou não ser arte e o papel que tenha que desempenhar, isso limitará a arte a atender e propalar uma única ideologia, um único conjunto de valores.
No mesmo caminho, uma linearidade de ensino religioso que contemple um único viés de doutrina – porque as religiões têm suas doutrinas – problematiza a pluralidade do espaço da sala de aula. Em um país de maioria cristã, muçulmanos, budistas, taoistas, umbandistas, membros do candomblé, kardecistas, ateus, agnósticos sofrerão imposições que extrapolam o espaço privado e o direito individual de escolha.
Em cenários alarmantes de retrocesso de dinâmicas coletivas, outras questões se colocam. A quem isso interessa? Quais as forças que, conjuntamente, patrocinam ambas as ações? Quem financia e a quem isso será interessante?
Não é possível pensar isso desligado da campanha que ganha adeptos pelo país em favor da volta do Regime Militar. Também não podemos desligar isso da crescente onda fascista em que se ampara Jair Messias Bolsonaro na sua caminhada política visando o Planalto. Muito menos deixar de pensar isso quando políticas públicas de retrocesso e de austeridade econômica tomam o país. Todos esses discursos estão, em algum ponto, muito ligados. Amarrados a ideologias perigosas que já vivemos em outros tempos.
O discurso unilateral e individual da moral não pode e não deve entrar sem crítica nos espaços coletivos e públicos que, por lei, são de livre expressão. Qualquer discurso que silencie a arte ou que impossibilite a diversidade – sexual, racial, religiosa, etc – é problemático e antidemocrático. É ser contra as múltiplas formas de discurso, é ser contra os espaços públicos de diversidade, é ser contra a pluralidade e a coexistência da diferença, patrocinando posturas em que uns tenham mais direitos que os outros.
Assim, reitero: há mais por trás das manifestações contra a arte. Há mais por trás nessa decisão do STF. E o que está por trás não é nada ingênuo e nada distante de uma ideologia cruel que pode – e vai – ser muito útil ao que está se arquitetando atualmente no país.

sexta-feira, 17 de março de 2017

torcido de torcida


A vida sobre todas as perguntas essenciais. Mas espero. Espero as coisas que não se explicam. Onde está meu amor preto e branco. Imenso, me vem – seja lá por qual caminho – nesse vendaval. Porque eu não entendo muito bem de cores. Entendo quase nada de amor. Mas o amor preto e branco, que me vem, é além da carne das coisas, estranho e indomado. Torcido. Amor que torce, me torce por dentro. Amor torcido de torcida. Feito blusa no varal. Não entendo o amor pelo Atlético, mas eu entendo de camisas no varal e tempestades. Estendido, meu amor conhece profundamente os desafios contra o vento, os vendavais e as tempestades. De torcer por dentro o vento. E o ultrapassar preto e branco, profundo e intermitente, este infinito bipartido.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016


Um despertador de manhã. Uma vida corrida tentando provar que a vida vale a pena. Outro despertador de manhã. Uma página social dizendo a você que todos são felizes porque é preciso ser feliz. Outra guerra. Outras guerras. A vida pânica no terrorismo de estado. Os fantasmas de sobrecasaca. Numa encruzilhada da baixa, trombamos em um tiro de 1914. Um tiro de 1914! E medidas políticas anteriores ao século XX. E a nova valorização das castas.

Mas é Natal: entupa-se de ilusão e falsa caridade. Entupa-se de discursos para não lotar as ruas contra o caos armado.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Lições do Rio São Francisco


1-) Diante de um rio calmo, o ser humano se sente maior que o rio.

2-) Um rio calmo esconde um fundo lodoso e turbulento. Um rio enfurecido mostra seu fundo de pedras.

3-) A praia depende da cheia. O lado da praia agora é a outra margem. Esta aqui agora é barranco, mas já foi praia.

4-) As ilhas dependem da cheia. No rio, elas navegam, trocam de lugar e porto.

5-) O rio é a soma de todos os rios que o formaram, mais o rio que é nesse instante, mais a soma dos outros que será logo em seguida com a soma de outras águas vindas sabe-se lá de onde.

6-) Outra margem é questão de perspectiva.

7-) Uma ponte cria infinitos lugares deste e daquele lado e os separa. Depende de onde se está.

8-) Um cais é sempre uma espera. Partir e chegar são partes do mesmo movimento. E tudo depende da cheia, de barcos, de movimento. Sem isso, a espera segue nos seres. Não no cais.

9-) Com ou sem pressa, turvo ou límpido, o rio sempre chega a algum lugar (seja um cano de abastecimento de água da cidade, um açude, uma hidrelétrica, um cânion ou o mar). E o rio não decide isso nem tem sobre isso qualquer controle. É uma questão de contingência. Uma vez deixada a margem, o rio receberá outros nomes para que esqueça que é rio. Mas sempre será rio.

10-) A travessia não existe. É travessura. Mas existe. E não é travessura.

11-) O tempo contábil não existe. É uma dimensão da matéria e nós não a entendemos bem, como também não entendemos bem o espaço e o movimento.

12-) Rio é um signo arbitrário, um conceito e uma metáfora.

13-) O rio é tudo o que se diz dele – suas lendas de várias línguas, seus nomes em várias geografias, todos os seus caboclos. Por isso vive nos cantos dos ribeirinhos.

14-) O canto (das lavadeiras, dos pescadores, dos barranqueiros, de Iara) é o enigma central e o mistério do fundo do rio.

15-) Uma cobra pode nadar em todas as direções nas águas. Se parar, irá sempre seguir em duas direções somadas. E nadar é um movimento no tempo e no espaço, dimensões que não entendemos bem.