sábado, 15 de dezembro de 2012

voltar


pôr meia dúzia de brahmas para gelar, o chegar de velhas embarcações. voltar como quem parte pão aos sorrisos, nossos segredos sobre o pano do almoço, no fundo de muitos copos que espalhamos pela casa. voltar as músicas, as agulhas das vitrolas, as fitas, voltar as costas dos livros para ler as contracapas, ao que esquecemos numa tarde de sábado, aos bancos do jardim, à velha praça, às pedras da rua. saber o sabor das palavras velhas que voltam como os nomes de esquecidos rios, velhas miragens e senhoras sentadas às sacadas, rendas ao colo e bordados do sem fim. voltar porque é preciso tomar a decisão de sair, como numa odisseia sem fim em que a vida, enfim, é a busca final, o fim do beco, a rua cruzada por gente e pelo fogo dos velhos habitantes. voltar como se fosse possível refazer o trago do cigarro (que se recomporia ao invés de se deixar cinza), para de novo acendê-lo, trazê-lo ao lábio, apagá-lo para recolocar no bolso de uma camisa também deixada de lado. voltar porque o tempo do relógio, sempre cíclico, e o da folhinha, sempre em linha, pedem a outra volta, a outra página, para que de unhas e mãos sujas de manteiga marquemos os dias que ainda virão, as palavras que usaremos para agradecer e pedir, para dizer que ainda amamos, sobretudo, o que sobrou de nós mesmos depois do tempo e dos destroços, do que escondemos nas salas e gavetas, nas fotografias antigas ainda em papel que só desbotam. no fim de tudo nosso fundo é sempre um voltar.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

cubo


dentro de uma casa uma causa de casa. por detrás das janelas as palavras, escritas sobre a paisagem do dia. por dentro da janela a casa que causa outra casa na casa mesmo do agora, esse chão desdobrado em mim, onde se deita quando é frio e quente, quando a fome é urgente e a plenitude é clara. onde as mãos podem se tocar sem pressa porque o chão não traz o tempo nem os relógios nem os enfeites de uma casa, seus quadros e sua mobília. uma casa simples, no sim que causa a casa no mais.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

o apartamento

o apartamento é antigo e não está preparado para a pressa, para a necessidade de tomadas, de cabos pela casa. é amplo porque antes as pessoas andavam nos apartamentos, comiam juntas, conversavam e não só dormiam como hoje. são grandes as janelas porque antes era preciso que entrasse o ar para refrescar o calor da cidade, o sol inquietante e dourado do atlântico. também se ouve pouco das conversas dos outros apartamentos porque no seu auge ainda a vida era reservada, ainda era preciso ter sigilo, diferente de hoje, com tudo exposto nos muros de cidades sem pessoas. 

já não fazem mais chuveiros ou estantes boas ou lubrificante de janelas para o apartamento. não pensam mais na quantidade de tinta necessária, cada vez em menos quantidade para grandes cômodos, nem móveis que lhe sejam graves nem estantes pesadas para o sempre. não há mais para o apartamento camas de gerações, talheres de gerações, coisas com a história de suas imortalidades, coisas perpétuas como ele, sofrendo com a nova demanda.

ele nem é tão eterno quanto as construções anteriores, de grossas paredes centenárias. jovem, é tão obsoleto nas construções e não pode se aposentar como as antigas edificações, como os antigos templos da cidade, ou trocar de função como antigas casas tornadas museus. um jovem senhor que sofre por não achar mais coisas tão duradouras, tão perenes, sentido como os homens sentem o tempo e percebendo que também pode ele, um dia, desaparecer da cidade, sumir da paisagem e receber como seus mortais habitantes a certidão de óbito, para que no lugar onde ocupou possam nascer outros tantos apartamentos menores, sem tantas janelas.

sofre porque me ouviu dizer que prédios inteiros somem em outra cidade. somem as fachadas imponentes, os estilos arquitetônicos, o rosto urbano que estamos acostumados a ver. ele pode sumir como sumiram lojas, barracões, casebres, um conjunto inteiro de casario da Lagoinha para que ali os carros passem, deixando seu espaço para a urgência e para o tempo. sofre o apartamento com as novas urgências e reformas, das cirurgias que sofre para ser sempre jovem e por isso ser ocupado pelos novos habitantes, preocupados com toda uma parafernália pública e eletrônica para a vida.

enquanto morrem as casas como os homens e o apartamento sofre e teme com a idade, além do apartamento, ainda fazem velas de cera, ainda é possível escrever nos vidros das janelas as palavras que precisam ser ouvidas e compartilhadas, ainda um aposentado capitão de mar e guerra reclama o cansaço do mar, bêbado como cabe aos antigos marinheiros, perdido entre outros seres de outro tempo em uma cidade onde as ondas ainda viajam lentas pelas águas do mundo, transformando rochedos em areia. 


sábado, 5 de maio de 2012

Da Moradia Estudantil

Esta semana li um artigo publicado no Observatório da imprensa em que um aluno de filosofia da UFOP comentava a situação das moradias estudantis federais da sua universidade e da negligência da imprensa com relação ao assunto. A negligência, por sinal, é ainda a mesma que encontrei no meu curto período como repórter de um jornal de Mariana entre 2001 e 2002 - que nunca se pronunciou a respeito do problema - e de outros jornalistas de grandes veículos de comunicação nacional, que tratam as repúblicas federais de Ouro Preto sob o véu de um romantismo barato.

Em outra ponta, vivo uma realidade bem diferente na UFES. Desde que cheguei em Vitória, acompanho a situação de amigos e colegas vindos de outras cidades do Espírito Santo e do país.  As condições e os sacrifícios dos estudantes carentes da UFES, vivendo sob a pressão dos caros aluguéis da capital capixaba para que possam morar com o mínimo de dignidade e estudar, é rotina comentada e problematizada no cotidiano da comunidade estudantil. Diferente de outras universidades públicas do sudeste (como a UFMG, a UFRJ, a UNICAMP, a USP, a UFV, a UFOP), a UFES não possui casas de estudantes (sejam alojamentos, repúblicas, dormitórios, apartamentos, etc), sujeitando os estudantes à especulação imobiliária desmedida dos bairros próximos aos campi (tanto o de Goiabeiras quanto o de Maruípe) ou a aluguéis mais baratos e, consequentemente, aos preços abusivos do transporte público que não atende com qualidade a população capixaba. Há, por parte da Universidade, um auxílio financeiro que alivia um pouco o peso dos gastos para aqueles que conseguem recebê-lo, como forma de reparação por essa falta, mas que não supre a lacuna de uma moradia universitária que garanta uma melhor formação do estudante carente.

Isso obriga a maior parte desses estudantes da UFES a trabalhar em empregos nem sempre ligados a sua área de formação para que eles possam arcar com tantas despesas de uma capital que pratica preços imobiliários altíssimos e de custo de vida elevado.

Diante de um cenário de assistência estudantil precário como é o da UFES, indigno-me ainda mais com o que li no artigo e com o que vi nos anos de estudo na Universidade Federal de Ouro Preto. Indignação compartilhada por muitos dos colegas e amigos que vivenciaram comigo o sistema de moradia estudantil federal daquela universidade, carregado dos mais incompreensíveis absurdos e sustentado por um discurso vazio e sem fundamento prático.

Charge de Pablo B. de Souza, sobre a decisão do ministério público. 
Pouco mudou até agora .
A situação das moradias federais da UFOP é a mesma há muitos anos, e vem de um tempo anterior ao da fundação da Instituição, confundindo-se com a história da cidade. Com a fundação de Belo Horizonte e a transferência da capital para lá, um número muito grande de pessoas ligadas à administração estadual abandonou Ouro Preto. Já uma cidade universitária desde a primeira metade do século XIX, os estudantes da Escola de Farmácia e da Escola de Minas, naquele tempo, não contavam com o auxílio de moradia das suas instituições. Abandonada, Ouro Preto era uma cidade do interior cheia de estudantes sem casa, repleta de imóveis vazios. Com isso, muitas das melhores casas de Ouro Preto foram tomadas pelos estudantes e acabaram sendo incorporadas como patrimônio da Universidade na época de sua fundação, em 1969, com a união das referidas escolas e a criação de novos cursos.

Isso faz da UFOP uma excentricidade no cenário de assistência estudantil no que tange ao seu conjunto patrimonial, uma vez que ela possui imóveis setecentistas e oitocentistas avaliados em valores astronômicos e com capacidade de recepção de boa parte do corpo estudantil, formado, em sua maioria, por pessoas de outras cidades, mas, apresentando, atualmente, casas com ocupação muito menor do que sua real capacidade.

Nesta história - entre a ocupação primeira dos estudantes no início do século XX até os dias de hoje - a Universidade Federal de Ouro Preto deixou, por uma conivência de difícil entendimento, que os moradores das repúblicas federais gerissem o patrimônio público como bem entendessem, estipulando eles mesmos os critérios de ingresso e permanência dos estudantes nestas casas. Com isso, cada casa estipula as regras, as tarefas e as obrigações daquele que pleiteia a vaga, obrigando-o a situações que variam muito, e em muitas vezes são carregadas das mais variadas formas de violência (moral, psicológica e física). Na maioria das casas, esse rito de aceitação é justificado por um discurso de seleção de pessoas que atendam a um padrão complicado e bastante vago, pautados naquilo que cada casa considera como elemento fundamental para uma harmonia e uma boa convivência, privilegiando estudantes que possuam afinidades com os atuais moradores, organizados e divididos em uma sólida hierarquia. Tudo isso para que o estudante que aceitou de "livre e espontânea vontade" passar pelos trotes de aceitação possa desfrutar do privilégio de viver com um seleto grupo de eleitos que usufruem do direito de morar em casas públicas isentas de aluguéis em ótima localização na cidade, participando, pelo resto de sua vida, de uma sólida irmandade hierarquizada.

Questionados se é lícito que os estudantes façam o que fazem nas moradias da universidade, estes se defendem atacando, apoiados no discurso que responsabiliza a omissão universitária, que, além de não gerir as casas, não cuidou do patrimônio. Tal argumento faz com que eles se sintam, por terem conservado as casas em seu alto custo de manutenção e conservação, tão ou mais donos delas do que a Universidade, tendo, pois, direito historicamente adquirido para selecionarem os seus moradores como bem lhes convier, amparados, ainda por cima, por uma resolução do Conselho Universitário, redigida juntamente com os estudantes.

No meio deste cenário, a UFOP nunca conseguiu resolver o problema nem mesmo nunca se colocou prontamente contrária ao sistema vigente. Nunca se propôs a fazer uma política de assistência estudantil que respeitasse o patrimônio público da união, dando a ele o fim que lhe compete e assumindo, por fim, a sua manutenção, nem assumiu declaradamente sua postura de omissão, pois ainda arca com gastos gerados pelas residências. Antes, desvia-se nos labirintos do mesmo discurso vazio e empolgado dos estudantes dessas fraternidades, sempre calcados no termo complicado de se explicar e de igual complexidade de entendimento (posto que não é utilizado no sentido corrente, mas antes como norma de conduta): a "tradição".

Vale ressaltar que dentro deste sistema autônomo de escolha dos eleitos para morar em casas da união estão o desrespeito ao ser humano, a homofobia, a negligência ao direito de acesso do estudante carente a uma moradia pública e gratuita, além do uso indevido desta, sublocando-a para fins particulares - como no caso das laureadas festas ouro-pretanas, que geram uma grande quantia monetária para os eleitos de tal moradia.

O Ministério Público Federal interviu nessa situação há três anos, exigindo que o reitor tomasse uma postura diante de uma situação que se colocava como crime ao patrimônio da União. Até agora, nada de efetivamente substancial foi feito. Os eleitos das repúblicas federais, utilizando-se deste termo complicado e confuso, desta norma de conduta apelidada de "tradição" ainda obrigam calouros a passar por trotes de vária ordem, fechando-se em uma "fraternidade" com leis e regras próprias, reconhecendo nelas uma autoridade muitas vezes superior em poder que a própria universidade.

Neste sentido, respeitados os contextos universitários em que construí e ainda construo minha formação acadêmica, em que a Universidade Federal do Espírito Santo - a única universidade pública de todo o Estado - não oferece nenhum tipo de moradia pública aos estudantes dos campi situados na capital, e a de outra, a Universidade federal de Ouro Preto, que dista aproximadamente 100km de outras duas Universidades Federais que oferecem moradia estudantil que privilegia estudantes carentes (a UFMG e a UFV) e que desperdiça espaço, patrimônio e bens públicos com os poucos eleitos que suportam a massiva opressão de uma escolha batalhada por meses, indigna-me profundamente.

A conivência com a injustiça e com a omissão das instâncias universitárias da UFOP é uma postura complicada para qualquer estudante, tanto da referida universidade como de qualquer outra. Entre a troca vazia de falas entre quem tem mais direito - se os estudantes que mantiveram o patrimônio ou se a universidade, dona legítima - eu espero só o cumprimento da lei. Espero que um estudante carente possa ser direcionado a morar em uma casa da universidade por um órgão universitário competente e legalmente amparado e não mais precisar se enquadrar em uma irmandade e ser avaliado por colegas que não têm preparo moral nem amparo legal que os permitam tal avaliação e outorga de direitos. Espero o cumprimento da Lei, acima de qualquer discurso de tradição. Lei que, em assuntos referentes a gestão de patrimônios públicos, de fiscalização e cobrança de seus responsáveis legais, é a garantidora e mantenedora da democracia.

Texto do blog Pata do Guaxinim, sobre a decisão do MPF/MG. 

quarta-feira, 4 de abril de 2012



ganhei o nome de partida quando não mais sabia das raízes. prestei-me ao vento sempre que o vento era forte para carregar a casa, as roupas, os livros. ganhei estradas estranhas e poeira quando não sabia direito o que cada uma delas era, mas sabia que eram – de alguma forma – uma linha em uma das oito mãos da Terra. ganhei o som quando me foi preciso gritar mais alto (porque é sempre preciso gritar mais alto) e outros nomes colados ao meu na jornada, sem saber que os nomes que colavam traziam as armadilhas do disfarce, aquilo que só é dados às figuras teatrais. sabia que um dia o mar estaria presente, de alguma forma, dissolvendo os espaços que haviam entre as minhas mãos quando olhava bem de perto através janelas. tudo estaria, sempre, no vento além das janelas por onde olhava, cheio de nomes, mas ainda partida. por isso parti tantas coisas, parti letras, silêncios, o que era preciso, como se parte a saudade com lágrimas. mas ainda há pés e rotas, e o mar me ensina que é preciso, mais do que atravessá-lo, vivê-lo.

quarta-feira, 7 de março de 2012

O que o ICHS tem



Não, eu não sei o que o ICHS tem. Sei que nele há uma força subterrânea que nos prende pelos pés. Talvez seja isso: pisar um chão tão antigo quanto Minas, fundamental e fundador. Sei que meus pés aprenderam e apreenderam o chão de pedra e ainda aprendem e apreendem velhas lições que ele lhes passa, tal como a tentativa de decifrar um grande enigma (antes de entender o que não ouso saber) na leitura imprecisa do que está nas pedras do chão do antigo seminário, da vazia capela.

Esta força subterrânea, silenciosa, entra em nós com a lentidão do mofo contra o qual, lá, tanto brigamos. E nele, no mofo que por fim nos toma o sangue, buscamos algumas linhas que ensinem o que é o eterno aprendizado.

Leopoldo estava certo: no ICHS aprendi a aprender para exercer esse aprender por toda a vida. Aprender que a literatura efetivamente pode tudo em seu silêncio, que o nada é a maior das potências, que loucura é palavra vazia de sentido.

Acho que é o mofo que nos ensina isso, enlouquecendo-nos aos poucos, silencioso, no contato real com o irreal e intermitente, transformando corredores, o redondo, a biblioteca, em princípios aos quais sempre retornamos, sem uma compreensão precisa.

Talvez seja isso que nos faça ir até lá, dizer (de alguma maneira) que somos gratos a tudo por tudo, do melhor e do pior que nos aconteceu. Por isso, tantos dos que passaram por lá entendem que se pergunto se eles ainda sonham com os corredores, com as salas, com o Instituto ou com a extensão dele – as nossas casas – é porque sei, de alguma forma, que eles responderão com o mesmo enigma: sim.

fiquei em silêncio porque o tempo é um companheiro estranho, de muitos braços. faz com que eu aponte rostos de amigos que estão em todas as partes, em outros tentáculos, mostra-me meu próprio rosto. silenciei-me porque o tempo é grande, o grande mar de muitas outras idades que eu não consigo digerir. quis por muitas vezes reviver um momento de fotografia ou saborear duas vezes o mesmo gosto das palavras. é preciso dividir sílabas, mas não o tempo das fotografias ou do som ou mesmo o tempo destas palavras. silenciei-me porque a secura insossa é sempre mais forte, é de cal. cola as palavras umas nas outras, argamassa. sentia as palavras sumindo sem sequência, uma a uma, até dizer isso e saber que nada as traria de volta, nem o mar que tudo pode trazer à praia. sinto que o silêncio se estenderá por uma vida inteira, incapaz de vencer essa fome imensa que tudo devora, saindo por entre os dedos do medo que eu não consigo conter diante de tamanha força. a força bruta que é mais que aquela que dizem as canções ou os poemas. e estar em silêncio, mergulhado, é como sentir o profundo silêncio das águas, no íntimo divino que bate no fundo do mar.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

dos dados

é preciso praticar o pensamento porque nele eu sinto o sentido da cifra dada em paladar de palavra. no pequeno detalhe do entre, as muitas farsas repetidas que nada dizem às claras, na falsa valsa que dançamos na sala vazia. no silêncio potente onde todas as vozes falam, nem a sombra sólida, nem a força perdida comunica a palavra que existe no detalhe. eu vivo de breves cifras, simples imagens que repetem velhas teogonias, velhas vontades nunca dadas, mas permitidas no ir, quando o que se esvai é palavra. então percebo o abismo, longo ao longo do profundo avesso. talvez já se havia dito e não se ouviu no barulho da cidade. talvez uma breve mensagem gigante como um outdoor. em mim, a cifra disse, dizia já antes da cifra, quando o que se dava era palavra.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

seis pedaços


este silêncio partido em seis pedaços é o que te oferto com as palmas das mãos e os pedaços se costuram numa grande teia, legião de formas dissipadas nas tardes de vontades repartidas. saiba das minhas manhãs como recados, baixos recados sussurrados nas sombras das noites, nos holofotes. saiba que no não cabem todas as possibilidades de talvez. ao sim nada contempla porque o sim é a mais forte das palavras. eu te costuro nos seis pedaços que lhe oferto na busca pelo quem sabe, perdido em um nó que não se fia, embolado carretel de transparências. eu aperto o nó sem ousadia, trocando a forma sem medida pelo resto de voz que soe, outro sussurro na noite imperiosa das palavras. como cores que se comem, as vírgulas nos formam como páreas sem disritmias em concessórias densidades que se cobrem. neste só, os caminhos que criamos sobre as águas, no som que ninguém caminha, pisando firme o através. atolados na lama dos carinhos nos sobra o claro lado onde as flores do tempo são as chagas da vaia, as caras mordidas pelos dentes canibais. canibal é meu silêncio guardado no sétimo pedaço que não te oferto, quebrando-o na mão fechada, feito giz. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

dos guardados


Na capa do livro, a música ouvida em tantas madrugadas. Na folha de rosto, a letra de tantas cartas de envelopes coloridos, guardadas numa pequena caixa. A capa do livro também já esteve dentro de uma caixa, colorida, cheia das letras que estão nas cartas com as palavras dentro do tempo. Na fita k7, o som da voz rouca vai sumindo e ouço, como num túnel, as palavras que já foram limpas de ruídos, a música da capa do livro, as músicas dentro dele, dentro da madrugada. Manchados os rostos nas antigas fotos guardadas em outras caixas, de outro século, numa época em que ainda se trocavam fotos de papel. No verso de uma foto, as palavras manchadas de vermelho que carreguei por anos. Na casa, as marcas dos presentes do passado: outras palavras, canetas que não riscam mais, a memória azul de uma camisa, um antigo cordão. Numa pequena lata de balas ficaram guardados os recorte de papel vinho com letra prata. Tudo para que, quem sabe, ela possa ver como andam as coisas pelas coisas do tempo. Tudo para que, quem sabe, ela ainda possa rir de outras palavras. 

sábado, 14 de janeiro de 2012

para


Faz de conta que hoje é como um velho dia e que a maior das verdades está dita e que não mais há espera e que a calma nos comanda em meio. Fecha apertado os olhos e tente lembrar da noite que nunca acabou, que se prolonga entre as sombras, nos becos da cidade e mande outras palavras despretensiosas que chegam sem propósito carregadas do azul do mar. Faz de conta que talvez o lençol ainda tenha seu cheiro e venha conferir, quem sabe, se eu digo coisas sem sentido como todo dia. Confira sem parar caixas de e-mail, caixas de correio na ilusão de receber um retrato prometido que talvez nunca chegue e permita que o pequeno suor dos dedos umedeça mais que o suor das noites que passaram e entenda o haver do menos, sempre, em cada som. Conjugue o haver, o ter e o através em tudo, que é neblina, difusa, na manhã desbaratada, naquela janela que guardou o ruído das montanhas, nos vidros foscos de ontem. Faz de conta que há uma colcha imensa a destecer na madrugada e espere a chegada ou que há um papel imenso a escrever uma carta e escreva em rolos intermináveis, num pedaço estreito de guardanapo. Faz de conta que só sobrou uma luz acesa depois de tudo, diante de uma porta que não se abrirá e guarda, enfim, o imprevisto que existe no maior dos verbos divinos: o mas. 

domingo, 8 de janeiro de 2012

Da lama



Foi de lama, sobretudo, o verão e seus desastres repetidos, seus barrancos fazendo sumir por debaixo bairros inteiros, casas, vidas. Foi de rios tomando as ruas e enchendo até à meia altura as paredes, a vida daqueles que pagam caro as viagens de férias dos políticos. De muita chuva ainda é o verão, chuva devastadora que inundou o ano catastrófico que terminou.

Debaixo d’água tudo: o direito de se manifestar, de pedir, de reivindicar. De reclamar dos altos preços das passagens, do vexatório governo de Minas, da postura vergonhosa do governo do Espírito Santo, ambos impassíveis aos apelos populares que tanto mostraram à população – ou tentaram, pelo menos – de que lado estavam os culpados. Debaixo d’água a lama de uma imprensa que tudo encobriu – escândalos da privatização, o descarado descaso com a educação pública, com a moradia, com os movimentos populares.

Em um ano que casaram na Inglaterra um príncipe que pode nunca subir ao trono, na semana em que isso era a capa dos principais jornais do Brasil, Guantánamo recebeu destaque em um jornal espanhol e ninguém nas Américas comentou o fato. Enquanto a primavera árabe era notícia na Globo, estudantes apanhavam em Vitória, professores em Minas Gerais e uma pequena nota de fim de jornal pintou a todos como baderneiros.

Não reclamem da chuva de verão. Mesmo repetindo um filme antigo onde milhares de desconhecidos efetivamente perdem tudo o que a custo conquistaram com muito trabalho, nossos ilibados governantes curtem o sol no Caribe. E a lama podre de depois dessa chuva ficará nas nossas ruas, em frente a nossas casas, reflexo de um país que trata o povo como uma grande porcada que será sempre morta de véspera no Natal do ano seguinte.

E no fim, outros engravatados subirão aos palanques deste ano dizendo não ser de lama seu passado, ancorados pela mídia que desde sempre nos quer convencer que neste país quem reclama é que merece ser calado, nem que seja pelas lágrimas sobre seus destroços cheios de lama. Pois é de lama todo ano,ou pelo menos o fim do anterior que ainda segue, lento, destruindo tudo.