terça-feira, 29 de julho de 2014

Carta aberta ao meu poeta maior


        Poeta,


estive em teu chão. Era de chão que precisava, poeta, cheio de minério. Pisei antigos assoalhos, andei em cômodos que hoje têm teus versos transcritos em livre disposição. Versos de família, no teu antigo lar, aquele que figurou em tua parede de poemas, de versos escritos aos ares sobre a memória dessas casas, de tua Itabira longínqua, hoje mudada, repelida daquela que não cabe mais na velha fotografia, como se o vestido de brumas da cidade não a vestisse mais como antes.
 

Trouxe prendas, poeta. Ganhei um retrato de tua família, tu no canto esquerdo, de terno listrado, rosto sério, jovem ainda entre teus parentes que o tempo desbota. Ouvi as homenagens que te foram destinadas há alguns anos, no Rio (pessoas de vária formação recitando teus versos), expostos em vídeo na parede da estrebaria, na parte debaixo da casa, aquela que ainda guarda o cheiro antigo dos cavalos de teu pai. Os cavalos poéticos que ele montava quando ia para o campo, no tempo em que lias Robson Crusoé. Os poros de taipa do espaço guardam cheiros ancestrais, cheiro de vida que um dia pulsou comum e ordinária como a vida das famílias, com seus problemas circunscritos.
 

Vi teus poemas em ferro forjado nas ruas mais antigas de tua cidade, não mais qualquer, mas ainda de ferro nas calçadas e nas almas. As pedras de minério calçando as ruas. Pedras que ainda hoje abandonam Itabira em vagões também de ferro, no trem de ferro que jogará todo o aço do futuro no fundo de uma embarcação, indo encontrar seu destino pelos mares, solto em pó preto voando pelos ventos de Vitória, rumo às almas, à China, ao mundo.
 

Itabira também é mundo porque cruza os mares, poeta, para além de teus versos. O chão flutuante de Minas abastece o mundo de coisas de metal que não ouso listar, e a terra revolvida, absconsa, pousa entre as serras, expondo-me nessas luzes cinzas de inverno o paredão que sobrou do Pico, a cratera de pedra disfarçada de rasteira braquiária.
 

Foi a música que fui ver em tua casa, poeta, e não teus versos na parede, no chão, no imenso pôster com o retrato que Portinari fez de ti. Mas antes de a música levar-me a teu antigo lar, foi o chão de Minas que me abasteceu de Minas nos dias que me faltam contar, nas histórias que me faltam escrever, talvez para outra carta, talvez para só um verso.
 

Há chão, poeta. Há, novamente, antigo chão em mim. Agora me reconheço. Tinhas razão: Minas não há mais. Mas ela ainda, como li em teus versos, poeta, escritos anos depois deste, permanece dentro e fundo.

Retornarei a teu lar, poeta, algum dia. A teu mar. Às Minas que flutuam, seja nas calçadas da capital, no Atlântico, no ar que se respira ao longo das margens de ferro da Vitória-Minas. E saberei: em tudo isso, seja no ar, no mar, nos trilhos de metal, é sempre chão que se busca habitar. Chão acima do chão, profundo e recolhido como o que há no caminho de uma estrada pedregosa, quando os sinos daqui se confundem com o som dos meus sapatos.


            Até e sempre,

Danilo.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Do retornar


Numa praia de Vila Velha, esta semana, um filhote de baleia jubarte encalhou e morreu. O filhote pesava mais de uma tonelada e já apresentava as marcas das mandíbulas que tanto aprecio nas jubartes. Há muito, quando ainda morava na Ilha, no pequeno apartamento que recebeu esse nome em Vila Velha, falei com Luana que as baleias escolheram o mar, a sua liberdade e o que ele tem de ilimitado, o que fazia delas, para mim, os melhores animais dentre os seres vivos.
Quando uma baleia encalha, muitas coisas me passam em mente. A mais marcante é a razão pela qual vêm à praia, elas que desistiram da terra há milhares de anos. Por mais que os especialistas falem as muitas razões que trazem baleias às praias, algo nisso me impressiona, porque não é, para mim, um fenômeno de todo desligado do sentimento ancestral de voltar.
É teoria da ciência moderna que as baleias já foram, em algum momento da evolução, mamíferos terrestres que se alimentavam de pequenos crustáceos nas praias de um mundo anterior à humanidade. Por uma necessidade de adaptação, por cada vez mais entrarem no mar para buscar alimentos, as baleias evoluíram e, então, entraram definitivamente nas águas, deixando para trás o mundo terrestre e sua forte gravidade. Mas não perderam, nesse processo de evolução, seu amor ao ar que respiram.
Visto que a vida no planeta saiu do mar, a volta desse mamífero às águas é, a meu ver, como disse, um tipo particular de grito de liberdade. É uma escolha que mudou uma série de estruturas de biomas complexos, alterou a vida no planeta. Os maiores mamíferos do globo, ao voltarem ao mar, por sobrevivência, retornaram ao lugar do princípio e lá evoluíram, livres do peso do mundo.
Então, por que voltar à praia? Por que só algumas baleias encalham, só algumas são enterradas nas areias ancestrais que seus antepassados pisaram?
Penso sempre que vejo isso: as baleias sentem, de alguma maneira, saudades da praia. Mas algumas, só algumas, retornam, mesmo essa de que falo, a jubarte ainda filhote. E a saudade pode ser desastrosa nesses casos, porque sair do mar não fará as baleias voltarem a andar. E voltar, essa pulsão natural, pode ser a mais fatal das escolhas, causando-nos, por fim, a sensação de que tudo, enfim, pode encalhar. E se encalhar, morreremos, ou poderemos contar com as marés?

terça-feira, 15 de julho de 2014

do vermelho-alegria

Qualquer coisa a ser dita nesta profunda alegria é inútil. É inútil a metáfora de que a vida é barulhenta como um trem que passa por um túnel. Inútil também a metáfora de Caetano de que só o verso é capaz de botar mundos no mundo. É pouco a metáfora de Gilberto Gil de que toda menina baiana tem um jeito, ou dos versos de Drummond sobre a Bahia, ou mesmo aquele gostoso som das músicas de Caymmi na voz de Maria Bethânia. Talvez Maria Bethânia cantando Chico, mas ainda sim diria pouco. Talvez a metáfora severina de Cabral, porque tudo isso ainda diz pouco das fortes alegrias.

Alegria é um bom termo (mesmo que a palavra diga pouco). Lembrei de uma madrugada em que ouvimos na esquina (a gente chegando em casa) "Proibido proibir", do Caetano, e um senhor perguntou se a gente estava bem, passava bem, e estávamos para lá das roupas de festa. Lembrei do sorriso debaixo das palavras escritas sobre o convento, o cigarro à janela do apartamento em um banco que espera outro cigarro. Lembrei de vermelho-alegria, de sexta em supermercado e jantar de sábado. Lembrei de pequenos silêncios, de sono de domingo à tarde, de cozinha, café e panquecas.

Talvez a metáfora do sorriso na avenida: dividida no coração numeroso do mundo, nas cores tão vivas nesse proposital dia nublado, a alegria diminuta, como na música, ressurge bruta como um maracujá, uma pedra, uma declaração de amor dita de pé em um banco de bar. O barulho-mundo ama e sorri de tudo, em seus desdobramentos, e estamos sempre em choque nesse roda-moinho. Outra imagem, também boa: estar na rua, no redemoinho, como o diabo, pois a alegria se movimenta, cheia de uma gargalhada adocicada de pecado. E a vida pode ser surpreendentemente fascinante. E deixa esse sorriso no rosto (sorriso que não me deixa), essa alegria de, como Caetano, cantar: por que não?