sexta-feira, 22 de março de 2013

Carta ao mar

Não, mar, não é um abandono. Eu subo as montanhas porque eu busco outra forma tua, flutuante, na neblina. Eu vou te ouvir, mar, em uma de tuas formas, como um pequeno riacho aurífero que corta o mundo até teu abraço salgado de lágrimas. Eu subo, mar, pois quero teu afeto ainda doce de chuva, sem tanto rugir, para assim lembrar da tua fúria com mais memória de sal preservada. Lembrar das tuas ondas no cais em maio, teu azul profundo de setembro, teu constante quebrar que perturba e perpetua a mais autêntica forma de amar.
Não haverá, mar, entre nós, as corriqueiras distâncias. Soltarei no riacho da pequena Aldeia as palavras que te disse em muitas tardes destes anos que passaram. E se não ouvirei mais teus barcos, teus navios manchados de mundo gritando ao entrar na baía,  buscarei perceber no vento um pouco do que corre sobre tua pele de espuma.
Teu vestido azul, mar, não estará mais na vista do dia, ao sol, como tornou-se em mim um constante contemplar. Estarão os muitos verdes, o dorso do Espinhaço imponente e assustador, as explosões dos bambuzais morros à-fora. No verde do manto do rochedo, eu verei teus olhos e estaremos nós dois, novamente, na impossibilidade que é nosso trocar afagos quando banhas meus dedos com teu suor de agonia pleno de sorriso. E sempre será possível jogar meu corpo nas águas de algum rio para ele me levar a ti em algum pensamento possível de ser compartilhado só contigo, deste pensar que cada dia é mais inútil de comunicar e mais afastado do sentir.
Até breve, mar, no espaço. Fica meio beijo na areia que tu levarás aos afogados e levo-o em mim no sal sanguíneo do meu corpo, morro acima, para os pés de ferro onde o Espinhaço tem forma de menino.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Era preciso compartilhar o mar, o Penedo, o cais do centro. Talvez dar aos olhos dos outros o que é possível discernir no convento, a Reta da Penha cortando, minúscula, a parte leste da Ilha. Dar o cheiro do mar, as conchas partidas entres os barcos da Prainha, o sol que se deita ao longe, cobrindo de sombras dentadas a praia desenhada pelo vento. Era preciso dividir os barcos que saem lentos da baía, que entram lentos por debaixo da ponte pela manhã, o som de suas chaminés que ouço dentro da madrugada. Mas nada disso se dividiu, se compartilhou. A Ilha ainda fica reclusa, aparente aos meus olhos, aos olhos que a ela se acostumaram, voltados para dentro com uma ácida timidez. E se perdeu, por fim, a chance de se dizer da sua beleza quando, num dia comum, em plena quarta-feira, uma escadaria do centro apareceu colorida, ornada com sombrinhas, meu presente singelo para depois.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Tear de ondas, I, primeiro movimento

Pela primeira vez, o Desde que o samba é samba extrapola a palavra escrita e lança-se no espaço do áudio.

O poema que aqui eu leio é o primeiro do meu próximo livro, Tear de ondas, que será lançado, espera-se, até o fim de 2013.

O áudio é uma parte do texto, que possui grande carga visual. Por isso, o leitor - agora ouvinte - deste blog não receberá mais que uma pequena amostra, um leve aperitivo, só o som do movimento dos pentes deste tear.

Espero que gostem.

Para ouvir, clique em Tear de ondas, I, primeiro movimento

sábado, 2 de março de 2013



Terminado. E o que significa? Significa voltar para a casa que pede atenção? Para as cadeiras que precisam de reparo, para os móveis que precisam de mudança, para a máquina de escrever que silenciou em respeito aos prazos? Significa voltar ao vento da janela, à cômoda que tudo acompanha, ao sabor frio do mar em março, seu balanço constante de sim e sim sempre em espuma? Significa voltar às ruas, olhar as pessoas no rosto, ler romances do XIX, reler poemas de Neruda, ouvir Caetano e mexer em antigos papéis? O que significa, por fim, terminar? O nome é terminado, terminação de algo que me chega na ponta do braço e some, entre os dedos da mão, como a areia da praia? Significa empacotar tudo, colocar em caixas e caixas a vida – se é que a vida é possível de encaixotar-se – e montar em um antigo vento que carregará a nau imaginária de mim de volta ao que de montanha tenho no sangue? Significa ver a montanha que me guarda o Espinhaço, seu olhar imponente que espera a cada instante o carinho do sal do Atlântico que nunca retirará dele as arestas, que nunca preencherá o vazio deixado pelo ouro retirado de seu ventre? E o que significa esta nau que vaga no vento, de velas infladas, com bússola que indica milhares de caminhos, mas que sempre me leva ao mesmo solo antigo de um garimpo abandonado, suas bateias de ferro que aqui, frente ao convento, são o preto vento que me entra pela casa? Como mergulhar neste vento que é só mar e busca, e enfim, ter um significado terminado para o que se há de terminar?