sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Do maior dos paquidermes


Sim, eles estão espalhados e por isso, incompleto, sempre busco contar deles. Aos daqui no espaço beira-mar, toneladas de histórias do que vem de Minas. Aos de Minas, quais os ventos me cercam beira-mar. Ao que vai além de Minas, além da Ilha, cortando o país e os continentes, atravessando os mares, os que dormem em outro tempo e espaço, nas bifurcações do que nos une de forma imperiosa. Em cada um, um pedaço meu compartilhado, uma marca funda como grande cicatriz. Nas fotos dependuradas pela casa, nas frases que grossas repito, nos casos que a muitos gargalham e nas palmas de minhas mãos, congrego todos numa grande festa. Essa semana, contando sobre todos ao mesmo tempo, disse: é preciso que você conheça todas as histórias, menina, mas sem tanta pressa. Não sabe ela que adiando sempre para depois o que é às vezes impossível de ser contado ali, lembro uma velha amiga que fala como um grande rio, bifurcado e múltiplo, indo para onde as palavras sempre nos arremessam, esses outros destinos impensados. Nos arremessos, para que ela e os viajantes desses casos não se percam na linha azul do horizonte – seja a montanha longe, seja o oceano – é preciso sempre manter o norte: são todos meus amigos, cada qual, no seu tempo e espaço, tocando a vida alheia em farta contingência de utilidades rápidas. E saibam todos, nos tentáculos que buscam a linha do sem fim da amizade: reúno-os na minha cozinha, com o café que tantos já experimentaram, com os risos que queria compartilhar com todos. Tudo isso, essa imensa teia, justifica o que dela se desdobra em mais saudade.

domingo, 2 de outubro de 2011

Conto do QU4RTO DESAMP4RO

Há muito, Flávia Canto me disse que se viu neste texto do QU4RTO DESAMP4RO. Como há muito não publico um fragmento do livro, faço isso hoje em homenagem a ela. O livro, disponível para download e leitura, está aí ao lado, na imagem com o nome da obra. Aproveitem!

***

A mulher-azul via toda a cidade sob seus pés: um mar emaranhando gentes, buzinas, sirenes, camelôs, tudo sob um amarelo-fubá de um dia de semana. De pé, na beirada, a mulher-azul desorientada não sabia bem o que faria com aquele rio-preto-viscoso lá de baixo ou com o amarelo-fubá.
Deu um passo vacilante até a beira do terraço. Olhou fixamente o rio-preto: um mundo colorido e viscoso banhado displicentemente pelo amarelo-fubá. Olhava o viscoso preto e o roxo-asfixia da alma refletida nas pálpebras fechadas.
O vento aumentava. Era preciso pôr fim e bastava coragem para que tudo se tornasse parte daquele amarelo-fubá. Então, bastaria esperar lentamente as cores acelerarem e ouvir o baque surdo antes do vermelho-quente.
A mulher-azul olhou novamente o rio-preto-viscoso e ouviu o zumbido colorido da cidade enquanto era açoitada pelo vento azul-comfort. Fechou de novo os olhos para o ver o roxo-asfixia.
Era vazio o vermelho que batia descompassado no peito. Era vazia a vida que levava, o trabalho repetido e comum, os ônibus que pegava cheio de densos que não se viam. Era vazio o gosto da comida que comia na hora do almoço, as horas iguais de todos os dias. Tudo um rio-preto-viscoso, tudo amarelo-fubá. Sentia, ali, fazendo algo que era uma nova maneira de colorir-se. A vontade que rompe o silêncio, o grito que organiza. Ali, com o vento-comfort no rosto, era livre. Se tivesse a coragem dali a alguns instantes, seria de outra cor, talvez vermelho verdadeiramente quente.
A cabeça embaralhava idéias estranhas, rostos, cidades, formigas, pontos que se agitam num zumbido baixo, regidas por um vento sem cor. Então, a mulher-azul ergueu a cabeça e olhou a cidade. Milhares de casas e prédios se acotovelavam no espaço das montanhas, tudo amarelo-fubá. Todos os volumes se acotovelavam e não guardavam a mulher-azul, que se jogaria na coragem de sua existência: a maior das verdades.
O vento azul-comfort soprou mais forte. As imagens se montavam confusas. Lembrou-se do primeiro dia de aula, do primeiro beijo, do casamento dos amigos. Lembrou-se do primeiro emprego, do primeiro vestido e do primeiro porre, do cigarro escondido e das noites de frio, sozinha com seu cobertor. Lembrou-se de que todos os dias, há anos, fazia a mesma coisa. Que todos os dias se banhava, se vestia, saía e voltava para dormir. Que aos sábados, longos sábados que não acabavam mais, assistia à televisão entre um sono e um entre sono. Nada de telefonemas e que, quando saía com amigos, era sempre igual. Há anos ela dormia com homens-sem-cor de vez em quando e era vazio. Homens que ligavam, não ligavam, roncavam ou não. Uns prometiam o mundo, outros lhe davam o silêncio e ela usava a todos. Tudo um rio-preto-viscoso banhado por forte amarelo-fubá.
Fora com essa sensação que ela acordou naquele dia e que a fez querer mais cores. Era essa a sensação que ela tinha ali e não queria mais: amarelo-fubá sobre rio-preto-viscoso.
Sorrindo, abriu as mãos e os braços e entregou.
Viu o céu, a cidade, o rio-preto-viscoso. Tudo mergulhado no amarelo-fubá.
Durante a eternidade da cor, ouviu uma música, uma longa melodia que lhe surgia vermelha, talvez vermelha verdadeiramente quente.

Danilo Barcelos Corrêa : QU4RTO DESAMP4RO - p. 51-54.