terça-feira, 27 de setembro de 2011

Lida lição do lido




Fiz um balaio estranho e nem sou um ajudante de guarda-livros. Cruzei estradas sem moinhos e escrevi a meu jeito um Pierre Menard. Não sei se no balaio estranho coube a estrada de Minas pedregosa, se dela saltou, um dia, na minha pesada fronte, um enigma para o qual repentinamente cochilei. Não sei do mar seus cabelos e não me lembro mais se toda a Brahma ajuda a levar de fato os desenganos, tão pesados como o chumbo presente nas palavras. Não esqueci naufragada a obra ao invés da mulher ou a mulher naufragada e salva a obra, ou a mulher naufragada na obra, mas naufraguei mulheres na memória – esse grande mar do oriente. Aprendi que não há nada mais nu do que um cavalo, que na neblina se constrói, vaporoso, um solto amor e descobri com a dor de debaixo da pele, das palavras, que a mais profunda das miradas é o tortuoso e amante olhar pleno de um cego, visto de um bonde.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Das prioridades de Minas Gerais


A greve dos professores de Minas Gerais é um marco. Primeiro porque denuncia que o Governador de Minas e as sucessivas administrações tucanas por que passou o Estado nos últimos anos não se preocuparam e não se preocupam com a formação básica de seus cidadãos. Em segundo porque o sucateamento gradual pelo qual passou o ensino público mineiro nas últimas décadas, o sucessivo descaso com o profissional da educação e, sobretudo, o atual descaso com os grevistas apresenta uma radiografia das prioridades de Minas Gerais.

A primeira prioridade é tirar o máximo de minério que se conseguir e vender a preços competitivos no mercado. A segunda é estar em dia com as obras da Copa de 2014 para que a especulação imobiliária e hoteleira possa faturar o que nunca antes faturou. A terceira é a de encher os bolsos dos mercenários do ensino, que inflam suas salas de aula para ganhar o máximo gastando o mínimo. Ouvi de mineiros, quando estive em Minas, que os professores, ao pararem Belo Horizonte, os impedem de ver a novela das 19h. Até a novela é prioridade em Minas. Já a Educação de qualidade, não.

O mineiro que não apóia a greve dos professores escancara que sua prioridade está longe de ser a de um compromisso real com o povo, com o cidadão politicamente ativo e criticamente atuante. Todo aquele que não acha justa a luta dos professores por melhores salários e por melhorias na educação de Minas e que se sente incomodado com as manifestações porque os impede de chegar em casa mais cedo atesta que não se importa com as futuras gerações. Aqueles que acham a luta justa mas não querem ser incomodados atestam sua ignorância em grau maior porque não sabem que sem incomodar e sem fazer barulho não se conquista nada no Brasil. 

A greve é um marco, pois mostra que os professores não têm medo de defender o que o Estado não defende: seu povo, sua gente, sua educação e formação. 

sábado, 17 de setembro de 2011

tango branco


descobrir outros espaços, com as costas das mãos, abrindo o tempo que há entre as coisas densas e os seres. descobrir um rosto entre os espaços com as partes de debaixo das unhas, onde guardamos restos de coisas. descobrir os poros que param os espaços mais curtos no tempo, o tempo mesmo dos espaços com seus sucessivos infinitos. sentir os infinitos dos tempos, lugares de vertigens, onde a perdida sorte se confunde com o perdido jeito do vento, na circularidade onírica do que negamos. descobrir que a cor do tempo é o branco, o profundo e pleno branco capaz de proliferar os círculos de muitos nós de horas.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

os cacos




surgem novas palavras e eu esqueço antigos nomes. busco os nomes e os antigos que esqueci formam os buracos de traças e o tempo imprime a antiga palavra, alimento de um verme que há muito não encontro. nos escombros dos festejos, entre cacos e cigarros, ela ainda faz brotar grossas lágrimas em outros olhos. comove, porque talvez ainda me comova no silêncio que a custo se dilui. amarradas nas espumas das ondas, nossas sílabas se misturam no infinito das águas do mundo desfeitas como sempre, neste mar que não pode mais buscar outros caminhos. líquido o nome que a língua lambeu, na madrugada de mim feito infortúnio, quis sumir aos poucos na neblina e se perdeu, enfim, por completo, das palavras. desgarrada de todos os nãos, ela não mais contempla a cor dos meus dias na alvorada e se perdeu por completo na surdina. nem nos livros, nas páginas que marquei com dedos da saudade, não há mais os misturados nós nas cores comovidas. ela segue em algum lugar despertencido dos sentidos dos meus tatos, pontos que não causam em mim velhas memórias. no fim da longa estrada, quando meus dedos tortos já não mais terão ao alcance as cores da sua íris, ela surgirá compacta, de outro nome e forma, e brilhará na noite, na ante-sala madrugada que não consigo deixar.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

mais

diz dos impossíveis passos sobre a areia enquanto olha os céus. diz também da inconstância dos sentidos quando o tato toca as palavras e as vestes já não mais contém os sem-dedos dos destinos: cores entrecortadas que miram o cais. diz dos pássaros atrás dos fios na cidade e da velocidade dos nossos olhos na multidão, soltos como flores nas saias de janeiro. diz do imperfeito encontro do dia, da desordem da forma em contínuo sair, no cheiro que sai das mãos úmidas de angústia e sal. diz do seu saltar e é de saltos que nos fazemos, todos nós em queda nos desatinos, nas palavras. diz da queda e cai, planando em outra sinfonia.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

nos pés


e chegou uma carta que eu preciso ler com mais tempo, os olhos dela me assaltaram a noite, os meus pés pisam velhos caminhos, antigas partes e desenrolados corpos que, em teia, desfolham-se em outras sombras. e somou-se a isso o desatino do sol de fim de inverno, a imagem da janela beira-mar, o frio das manhãs nas antigas catedrais. e não sobrou meus cheiros em velhos livros, meus toques em mãos abertas e meus desenleios nas cores. e há ais, cais e unhas novas que se apresentam sobre outras mesas. e nas unhas os espelhos dos céus-carmim que me fizeram ver, numa tarde de fim de agosto, numa noite de princípio de setembro, o caloroso sabor que volta, constante, aos meus poros e ouvidos.