terça-feira, 23 de agosto de 2011

Para os formandos de 2011/1

Peço licença aos leitores regulares do Desde que o samba é samba para uma publicação um pouco fora do que é costume para este blog. Fui convidado pelos meus alunos de Letras português da Ufes para ser paraninfo da turma, homenagem que muito me honra e que me carrega de responsabilidades.

Por isso, dedico este post a eles e publico aqui o discurso que proferi na cerimônia de conclusão de curso. Fica assim, público mais uma vez, meu agradecimento pelo carinho de todos, a quem desejo sucesso sorte e, como disse, as mais profundas experiências.

Profundo carinho por vocês e obrigado,

Danilo Barcelos.


Boa noite à mesa, composta por caros colegas por quem nutro grande estima,

Boa noite aos presentes,

Boa noite queridos formandos, a partir de hoje, meus colegas.

É difícil a tarefa preciosa e que muito me honra de dirigir-lhes palavras. Hoje, não mais o artesão que recebeu alunos, na valorosa imagem que nos dá Walter Benjamin em O Narrador, mas sim o artesão que se despede dos alunos para dar boas-vindas aos mais novos artesãos, ficam minhas palavras como marco zero de nossa relação que re-começa.

Deixo meus aprendizes, suas dúvidas e aflições, seus passos apressados pelos corredores lotados e recebo, cheio de forte alegria, os meus colegas professores, com dúvidas, aflições e passos apressados em corredores mais lotados.

Já que estamos no grau zero, no momento que antecede o passo que cada um dará nas empreitadas da existência, cabe ao já iniciado dar algumas desimportantes precauções aos ingressantes no ofício de ensinar. Vocês, os mais novos artesãos, loucos como todos nós, estão alheios do paraíso da ignorância por provarem do fruto proibido da abstração, como nos ensina Walter Benjamin em Sobre a linguagem. Não mais podem regressar ao lugar dos que ignoram, hoje só memória. Mas por ser memória, podem sempre transformar o passado, recolando cacos de vida e formando estranhas xícaras como já nos disse Drummond.

Aqui, neste tempo do agora que nunca mais será repetido no infinito da vida de cada um de vocês, lembro-me, talvez transformando meu passado, dos olhos e das dúvidas que vocês tiveram sobre muitas coisas. Lembro-me que leram – eu espero – O narrador, de Walter Benjamin, que há pouco citei. Nós, narradores, que viajamos no cotidiano enchendo-nos de experiência, passamos o que vivemos, o que experenciamos, como o artesão faz ao contar histórias a seus aprendizes, ensinando. Enquanto tece seus tapetes com mãos atentas, o artesão sabe que nunca fará dois exatamente iguais, nunca tecerá duas vezes o mesmo enredado. Aquele que passa aos aprendizes seu ofício passa também tudo o que sabe e que viveu e que nunca será percebido igual por cada um dos aprendizes.

Então, vocês, meus aprendizes, levam mais que as minhas lições e a de meus colegas de ofício, levam também nossas digitais, nossas vivências que, somadas à que cada um terá, multiplicar-se-ão ao incontável infinito numa grande rede. Enredados nessa tessitura, nós seguiremos na memória e na linguagem que agora, todos do mesmo lado, compartilhamos. Tecendo artesanalmente o lecionar, vocês, com mãos cada vez mais atentas e agudas, modelarão seus alunos, transmitindo-lhes a experiência – essa rede – fazendo valer o ofício que é trabalhar com a linguagem.

Vocês provaram o sabor do saber. Quando morderam o fruto, não sabiam do impossível retorno. Não sabiam que leriam Walter Benjamin, que leriam Northrop Frye, nem tantos outros que tantas noites de sono lhes custaram. Não sabiam, ao escolher as letras como formação e ofício, que nunca mais teriam a paz do paraíso, de tão menor sofrer.

Na empreitada das letras que vocês escolheram sem a sedução da serpente, vocês irão se deliciar, espero, com aquilo que sempre torna a começar. Ensinar é o eterno recomeço, é mostrar infinitas vezes o novo daquilo que para vocês já é tão antigo. Mirar nos olhos de seus alunos o quão perturbador é o saber que eles tateiam, como mirei nos olhos de vocês nessa caminhada.

Por isso, hoje, orgulho-me de ter-lhes dado muitos frutos difíceis de engolir, ainda na memória, espero. Feliz por talvez ter ensinado ao menos o que nos diz Baudelaire no seu Embriaga-te: “Deve-se estar sempre bêbado, (...) de vinho de poesia ou de virtude” lição que muitos levaram a cabo, pisando a lama primordial da criação dos seres.

Por fim, no rito de passagem que ora se conclui, é preciso lembrar-lhes do risco, pois professorar, ensinar, é riscar e ter riscos como as palavras. Hoje começa, e não termina o curso de Letras de vocês. Hoje vocês chegaram no início e então começa a empreitada. Teçam seus aprendizes com mãos tão propícias ao devir, no texto e na rede em que sacodem as palavras.

É com orgulho que eu agradeço-lhes a oportunidade deste ensinar e lhes desejo as mais profundas experiências.

Obrigado e parabéns.

Discurso proferido dia 18 de agosto

de 2011, no teatro da UFES, em Vitória, na cerimônia

de conclusão de curso de Letras-Português da turma de 2011/1.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Da generosidade

Nas quinquilharias do dia, sob a ordem de um tempo humano passível de ser entendido somente com os olhos nas folhinhas, no relógio que trazemos na mente, nas datas impressas em nossos papéis oficiais sempre reclamados pela ordem burocraticamente vazia do mundo, demo-nos em uma semana de suspensão um longo basta.

Desconstruindo lógicas estabelecidas, em novos horários de vivência e experiência, revivemos a troca que permitem as palavras, a generosidade maior dos narradores mais arcaicos que depois de longas viagens pelo mundo, em lugares de afeto e de produções manuais, na eterna cozinha de receber, somam gestos e afetos com convivas, criando mutuamente uma nova relação de experimentação das coisas e cores do mundo.

Revendo novas cores, re-conhecendo antigos nomes e palavras, reconhecendo-nos no que há de misterioso na saudade de antigos companheiros que se encontram e entoam hinos, estivemos nessa suspensão densa e de difícil rompimento, dura como a quebra da lógica do tempo em nós que a custo vamos reaprendendo a lidar, a recontar. No ínterim do movimento, das densidades desfragmentadas e vividas, nas nossas cores e toques, em meio a tantos outros aprendizados, a profundidade dos afetos trouxe-nos novamente para o lugar que antes não o reconhecíamos e que agora tem outras densidades e detritos. Mutuamente, esvaziamo-nos e nos reconstruímos, mergulhados em sabores e saberes, em música e, sobretudo, em palavras.

É efetivamente divinal o poder do verbo que cria e reconstrói. Seres de linguagem, jamais poderíamos experimentar e experenciar o tempo de nossa suspensão da mesma maneira que o vivenciamos nos últimos dias, praticando a efetiva generosidade que à palavra é dada a comungar. Talvez seja essa a função maior de criação divinal que o verbo, qualquer que seja ele, possui, mesmo em sua condição potente e significativa, no silêncio de olhos nas miradas mútuas: reaprender a tocar os seres com mãos e palavras e a partir deles reconstruir o mundo.