sábado, 26 de março de 2011

Um baú de fundo fundo

Um baú de fundo fundo. Essa é a imagem que Vanessa me deu em um supermercado, em janeiro, durante a breve visita que me fez. E nós, naquela noite entre tantas Brahmas, trouxemos nossas memórias e o nome que me persegue há anos. Ele surgiu cheio daquilo que a Vá chamou de meu grande medo: a vida como um emaranhado novelo que sempre me coloca, descompassado, em outro atropelo com nomes.

Tudo muito parecido com Alice no país das maravilhas. Na cena da conversa com a Lagarta, Alice não sabe quem é (como eu nunca sei quem sou), mas ela sabe o que foi e o que quer ser, como todos nós que sempre nos furtamos de pensar o agora. Crescendo e diminuindo enquanto cai, Alice é de muitos tamanhos, tão grande que pensa em como será mandar cartas para os pés. Altura que não a assusta quando atravessa o espelho em Através do espelho e vê as peças de xadrez conversando. Todos os tamanhos e todas as vontades ao mesmo tempo, no passado e no devir, nos atropelos: tudo misturado no baú de fundo fundo.

Deste baú tirei, em uma noite de março, como uma Lebre, um livro. Por cima da capa, Arraial da Ajuda, em um abril de quase 10 anos atrás. A cena é a de um sebo pequeno com estante na rua. O livreto era Tout Alice. No prefácio, o editor comentava a reunião das histórias de Alice e detalhes da tradução para o francês que me intrigaram muito. Fiquei com o livro entre as mãos, parado na rua, lendo trechos em francês da história e, por mais sonora, a história era estranha. Alice respondendo em francês me incomodou tanto que não comprei o livro. Sensação parecida tive quando li Alice em inglês, na edição que comprei já vida beira-mar. Mesmo sabendo que Alice ali é mais autêntica, ela perde um pouco o charme, não é mais tão musical.

Gosto de Alice em português, na língua que li quando criança, histórias que tanto me intrigam e que sempre releio nos meus momentos mais tranquilos – daqueles em que só a simplicidade de Alice pode alentar, como também a beleza de Miguilim em Campo geral ou como os olhos de Amélie Poulain. Há nas histórias de Alice uma magia como se as palavras me mostrassem mais e isso tem mais efeito em português, com nossa maneira de dizer das coisas sem reduzi-las.

Alice é um nome muito mais sonoro em português. Parafraseando Nabokov em Lolita, Alice é um nome que se degusta, abrindo os lábios para comer a sua sutil liquidez que a língua prende ao céu da boca, para soprar o êxtase com o ar entre os dentes: A-li-ce. A delícia de se dizer Alice faz a história, para mim, ser muito mais nossa, de nossa língua. Talvez porque Alice é brasileira no seu jeito de sair e entrar em encrencas. Talvez pelo meu amor à personagem e as suas histórias. Talvez até porque eu tenha um amor ainda maior pelo nome.

Por alguma razão, no novelo e em meus atropelos no baú de fundo fundo, Alices se confundiram formando tantas outras entre livros e poemas, que acabei voltando a janeiro, em que líamos eu e Vanessa os infortúnios d’Os três mal-amados, de João Cabral: “o amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome”.

sábado, 19 de março de 2011

Das Nichts

Guardar nas caixas mais que papéis, fotos e anotações. Encaixotar todo um momento, o lugar onde habitei os últimos anos, o tempo e seus fragmentos.

Tudo retorna à mala como no quarto de hotel do poema Assalto, de Drummond. Jogado os restos de mim da janela do nono andar, eu mesmo agora, depois de lavado pelo branco sabão da calma e seco com a branca toalha do olvido, posso marchar, quem sabe, por outro caminho, por outra rua que passa por muitos países.

No fim da suspensão em que estive nos últimos meses, a força imperiosa do nada que tanto estudei operou em mim mais do que reflexões. Dias depois de sair do nada, ainda sob a angústia tranquila, sem palavras, observava o quarto em desordem, a casa ainda com papéis e restos de carnaval. Não mais. Outro, refeito, de mesma carne e sangue, tocava, como qualquer ser, a palavra que há em todas as coisas.

No ínterim do renascimento, a releitura de dois versos de Canção amiga que não fizeram antes mais que breve toque e que se tornam hino de novas paradas: “Minha vida, nossas vidas / formam um só diamante”.

Haverá sempre outras palavras para que as tornemos mais belas no mundo de palavras sempre re-ditas. Porém, em tudo, o nada me trouxe a companhia de vidas que não mais se desvencilham da minha, múltiplas nas suas formas leves, cristalizadas agora nos meus fragmentos.

No fim, enfim, a visão de que sou o que sobrou de todos os conflitos, somado à mudança intermitente, às vidas que em mim se cristalizam como um só diamante, às canções que todos cantam. E o poeta, aquele que há anos me diz tais palavras, opera em mim aquilo que nele estudo: a força fundadora e imperiosa do nada.

sábado, 5 de março de 2011

nossos nãos

Contorcidos e esparsos são os movimentos sobre o corpo. Em fragmentos, os cotovelos se anovelam aos joelhos mordidos, às canelas do pensar. Não sabem das formas seus destinos, nem das cores seus tormentos. Ante às formas da palavra, no corpo que nos acomete os medos, as pernas e a pele que desvendam.

Tudo poro. Maior e intermitente, banhado de saliva. O cabelo que nos dentes prendem, nas unhas o resto de nós, nossas cores na noite sobre a cama, cobrindo os órgão de lençóis. O sensível lugar das coxas, dos calcanhares sobre os pêlos, no que nos desmonta na penumbra como se eu, se você, misturados todos nesta valsa, soubéssemos os doentios gemidos da madrugada.

O sereno nos olhos fechados, no vento seco sobre os móveis. O corpo desmembrado em casa, nos talheres barulhentos do almoço, de nossas salivas nos alimentando enquanto nos engolimos. A tosse que nos acalenta, as formas que se pronunciam. Tudo em nós é a carne grossa, indomada, da capa de chuva, das sobrancelhas, dos joelhos vermelhos e das mãos cansadas.

Deitados sobre nós, eu, você, em partes soltas, nossas unhas. O que nos incomoda de não podermos nos engolir, na frieza indômita da palavra.