sábado, 26 de fevereiro de 2011

A pele

Um corpo sólido, como um soco. A vontade do soco antes do soco, na cor da verdade camuflada. Mas há o corpo, ali, diante dela, como um soco. Compacto, pesado, incomodando.

Ela não sabia se queria o corpo, como um soco. Queria a pele dele, só a pele, para dependurar na janela, na parede, forrar a poltrona. Mas denso, o coágulo exposto na cama é estranho e cheira intermitente.

O calor do corpo: ali, entre os lençóis, no janeiro, ela não queria mais calor que o dela. No sono, o soco denso era calor ainda, incomodava mais que o cheiro, mais que o sensível tato. O corpo que tinha mãos demais, pêlos demais, poros demais. Se pudesse, dava ao corpo um único poro, grande, como a imensa boca que aberta na noite engole a lua.

Mas o corpo ali era um soco, incomodando.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

No contrapé da contra-luz

O olhar de súplica de Holofernes para Judith. A mão firme de Judith que segura os cabelos dele enquanto olha atenta para o corte. O rosto feio da terceira personagem, como se a voz esganiçada pudesse ser ouvida na suspensão da cena. A sensação é de que, desviado o olhar, o corte findará e que a cabeça ficará suspensa na mão esquerda de Judith. Forte e contagiante. Parece que seguramos as mãos dela enquanto mantemos nossos olhos presos na tela. É o nosso olhar que impede que Holofernes termine de sucumbir.

Na livraria, passei a tarde com o olhar de Judith: o mais enigmático dos olhares. Há em Judith, em especial e mais que nas outras telas de Caravaggio, certo lirismo: uma dissimulada e dúbia graça ao cortar uma cabeça. Se não fosse o olhar dela, compenetrado, talvez a cena tivesse mais horror, mais crueldade. Talvez até por isso mesmo seja mais cruel, mais horrenda, dada a leveza de seus braços enquanto ela degola o homem que a olha suplicante.

Toda a tela é o olhar profundo de Judith. Escuro e cheio de enigmas, duplo e contraditório. Nada mais barroco nas pinturas. A pele, a cor e a leveza dos cabelos, o longo e pesado pano vermelho sobre as personagens. Em tudo, uma sensação densa de realidade, de profundidade. E a sombra pesada, escura, o denso negro que encerra tudo como na Vocação de São Matheus ou na Conversão de São Paulo.

Os braços de Judith tão densos como os pêssegos numa tigela. Tão mais eróticos os pêssegos! Tão mais eróticos os corpos que perderam as musculosas formas! Davi cortando a cabeça de Golias nem lembra os músculos da estátua de Michelangelo, mas é mais real, feito de detalhes.

Sempre bocas pequenas, sempre olhos brilhantes. Esses pequenos detalhes que carregam as telas de Caravaggio de vida estão em Judith, seus braços pouco musculosos, sua boca contrita, as sobrancelhas, a mão que, firme, segura o cutelo enquanto a outra apóia a cabeça de Holofernes ainda cheia de vida. Tudo na tela é resumo da ambivalência entre o pesado colorido, a leveza dos atos e a força das cenas maior do que todo o conjunto, exatamente por causa das disparidades.

Talvez, sem Caravaggio, nunca as artes teriam experimentado a potência das cores de forma tão profunda e intensa. Talvez, sem Caravaggio, não fosse possível nem sonhar.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

...ela vai sair...

Um dia, ela vai sair, sentar-se num bar, pedir uma cerveja. O bar não será mais o bar, mas guardará o espaço. Ela fechará os olhos com força e vai querer, por tudo, vê-lo passar à porta, sentar-se, pedir um copo.

Ela reverá, ali, diante de si, a saudade com que o abraçou naquele bar, naquele espaço que antes não era nada mais que um espaço.

Acabada a cerveja, ela vai pedir tantas outras! Vai ficar bêbada e vai andar sem a blusa na rua, nua, que é livre. Tirará as sandálias porque os pés querem refazer os passos.

Cambaleando, chegará diante de um portão sem cor, sem porteiro, sem nada por detrás.

Gritará. Já não saberá dizer se é homem, se é mulher, se é margem.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O sol-pedestre

O sol como há muito eu não via. Lembrou o daqueles dias ainda dos parafusos, quando voltei a sair de casa, ainda com o halo, para ver as pessoas na rua, pegando ônibus, reclamando. Numa manhã dessa semana, em São Torquato, o sol das onze e as pessoas reclamando, indo e vindo no movimento da cidade me trouxeram de volta aquela esquecida alegria, aquela densa forma de saudade.

O retorno do sentido, da pequena alegria esquecida, revisitada, é leve, acalma. A alegria antiga que me faz recordar a razão de continuar andando pelas cidades a pé, de ônibus, de metrô. Ver as pessoas: a cidade chocando-se e as pessoas colorindo as ruas. A alegria em ver Barbalho no letreiro de um ônibus numa rua suja e colorida da Cidade-vermelha de todos os santos – o nome da música de Caetano, do jeito de pongar no bonde. De depois de me perder na Grande Cidade e mirar os altos prédios, de cruzar o mais que histórico lugar onde os sindicalistas do país iniciaram longa caminhada. As placas e uma rua sem árvores, sem pessoas, cinza como quase tudo na garoa: Rua Machado de Assis, uma curva entre asfalto e asfalto.

Tudo colorido e com cheiro. Os cheiros variados das pessoas nos variados momentos do dia, seus suores na testa, suas roupas novas, velhas, gastas, de trabalho. Sobretudo, as cidades têm cheiro: de pastéis e óleo velho, de esgoto, de salgado frito, de pedinte, de perfumes caros e baratos, de livros novos e velhos, de grama molhada, de suores, de cerveja velha, de queijo, de meninas com cheiro de Comfort. E sons como uma grande feira livre em que todos temem a todos, olhando o chão de pedra da Costa Pereira na Ilha, da Afonso Pena nas Alterosas, da Rio Branco do Juiz-da-zona-da-mata, da Paulista na Grande Cidade, da Brasil na Perdida-maravilhosa. Tudo colorido, cheirando. Os cheiros loucos que sempre me despertaram a atenção, assim como as grandes cores, os prédios sobre seus cotovelos.

Os uniformizados da cidade, os trabalhadores urbanos, os flanelinhas, os mendigos, as meninas nas esquinas, as menininhas dos Jardins que gostam de happ(y end). A cidade com tudo que lhe é próprio e particular e que os vidros escuros dos carros se recusam a mirar nas horas. Tudo isso me traz a alegria de quando ainda estava com a cabeça nos parafusos. Ali, com o mundo margeado pelos metais frente ao rosto, o temporário cárcere privado de meu corpo carregava o detento e a cela para ir ver o mundo efetivamente colorido, pulsante, intermitente: cheiros condensados dos seres do planeta. Bonito e cheio de arestas, de pontas, de erros e de defeitos. Mais bonito e colorido que o que vendem os encartes das lojas, que as vitrines das varandas frente ao mar.