terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Saldo final


No período em que todos começam os seus votos de um ano melhor e olham as retrospectivas, mirando um ano que sempre que revisto aparece retorcido, 2010 se despede sem ter do que se vangloriar.

Fechamos a década com o ano em que a homofobia saiu do armário e deixou de se esconder na hipócrita face do brasileiro que se diz sem preconceitos. Pôs a discussão em pauta, alarmou a população e nos fez reviver um fantasma amargo da intolerância, do extremismo que tanto matou homossexuais, negros, judeus. Um fascismo silencioso que pairava entre todos e que ressurge pelas mãos de um jovem na Paulista. Uma violência gratuita que ainda espera justiça.

Foi o ano do preconceito: a vitória de uma mulher para a presidência pelo maior partido de esquerda do país trouxe mais uma vez o fascismo daqueles que se acham brasileiros puros. Um movimento sórdido que invadiu as redes sociais, a imprensa, os meios de comunicação, produzida pelos covardes sem cultura e sem memória, adensando o fantasma que o Brasil quis esconder.

As vítimas - nordestinos, negros, pobres, trabalhadores do país - foram inferiorizados pelos vencidos que se acham mais brasileiros que os demais, acreditando que suas contas bancárias fazem com que seus votos valham de forma proporcional às suas fortunas.

Foi também mais um ano da violência na tv. Uma guerra com milhares de civis feridos, numa ocupação que muitas vezes se confundiu com uma limpeza étnica. A imprensa apoiou desmedidamente uma polícia que não conseguiu, com todo o armamento pesado e com toda a estratégia de guerra, prender os verdadeiros chefes do crime organizado.

Também foi o ano da política mais sórdida na festa da democracia. Felizmente agora sabemos que no Brasil a maior parte da direita não significa oposição. Aqui, ser de direita é sempre intentar o golpe. Não há para ela uma estratégia político-democrática: há a vontade de recuperar o brinquedo de quinhentos anos à força, no grito, na baixeza e na vilania. Um ano de política para se lembrar, em que o golpe estava nos jornais, nos sites e na tv.

Os meios das famílias que dominam a imprensa nacional ressuscitaram fantasmas que acredito que não nos abandonarão pelos próximos anos. Caída a face do bom-mocismo, as organizações Globo, o grupo Folha, a editora Abril e os jornais Associados não mais podem disfarçar o quanto colaboraram para um golpe de uma elite que não sabe jogar no cenário democrático. Uma elite que nunca quis ser oposição e que só conhece o baixeza, o vilipêndio, o boato, enquanto promete na surdina vender mais uma estatal, mudar as leis para que as petrolíferas internacionais saíssem no lucro fácil.

Algumas batalhas internas se colocam no fim da primeira década do milênio. O brasileiro percebe a urgência que temos em sanar as injustiças históricas, étnicas, sexuais, de um povo com problemas e com desigualdades de vária ordem. Nunca foi tão urgente uma política em que as diferenças sejam respeitadas e não aniquiladas pelo discurso do" somos todos iguais", do "acima dos partidos". Só há democracia se o povo é sapiente de que a diferença é que compõe a nação. Um povo que entende a discussão como válida e que encara a manifestação pública pelos direitos, pela escolha, pela melhora, como importantes caminhos para eliminar os abismos do preconceito, do ódio, da violência fascista em ressurreição no Brasil.

Que na próxima década, o saldo final seja melhor. Que cenas como as que vimos de homofobia, violência e de falta de decoro sejam menos frequentes e que o país possa, enfim, consolidar o plano democrático que tenta ser efetivado desde 1989, respeitando as diferenças mas buscando uma política que seja efetivamente para todos os brasileiros.


domingo, 19 de dezembro de 2010

Canto branco

No quente abril de outrora, carregado, volta o nome dela, que dizia, no longe do tempo a alvorada que perdia em mim que dela desprendia.

Não sabia da perda processada, mas de mão recolhida me servia com vontades loucas repassadas nas palavras que sosobram na agonia.

O nome se faz carne de repente e mostra-me agora, rediviva, a força que tivera de perder-se no silêncio que antes me trazia.

Viveu em mim, tanto e potente, a carga do dizer que desfazia a velha lembrança embaraçada do sabor do amor intenso que irradia.

Sentados frente à frente na mansarda, de olhos pensos e nomes divididos. A Máquina do Mundo fez-se de repente e o mundo grande se mostrou possível.

Por ela aberta no momento da advinha, o nome da mulher que em mim vivia amou-me em intensa liberdade.

Mostrou o nome claro, de repente, aberto como gota de alegria e fez sair do tempo intermitente a graça que em mim já fez-se fria.

Ali, vi retorcido um outro rosto de alguém que nada respondia. Responde à imensidão da claridade o amor que tinha e que a custo silencia.

Inverso o lado do espelho a Terra toda, flutuando e se movendo, pequenina. Mostra no desvelo a quarta etapa do que nunca falou em qualquer língua.

O amor então presente aberto em mágoa pesa o nome à flor que o vertia. É sempre agora o silêncio desta raiva que o não-dito no tempo aparecia.

Ante à Máquina feroz que acelerava toda a pele e todo amor que outrora ouvira, fez-se a mulher do outrora regressada, presente no meu canto mais que viva.

É cor de força densa, contemplada, e chama-me ao nome deste dia. Refaz o abril inteiro de repente, que ao silêncio de nós dois correspodia.

Amor de verdadeiro e simplesmente que no tempo anterior a minha partida fez-se a abraços soltos na verdade a voz que em mim por tempos se estendia.

Sabia dele o nome e agora entrava no nome em que ela, hoje, densa, habita. É mais o agora intenso da palavra que nada processa em mim: potência fina.

É ela outra vez recolocada na ordem primeira do meu dia. Surge a outra Alice contemplada, densa de potência que tardia

à hora que o tempo então regressa, ao mim de mim que acaba neste prisma. O mundo que o nome convocava, do lado de lá do espelho, respondia. De mão extensa e voz apassentada,

rouca me dizia o que, um dia, o silêncio do abril despedaçara e que em mim reverberou no tom que via.

Não soube dizer nada, de repente, ao nome que formou a tal jornada. Sabia a clara voz que agora vinha, de vida ampla, inteira, carregada,

saltada da palavra que continha o nome que escrevia na alvorada. O amor refez meu tempo e, de repente, trouxe o silêncio que abraçara. Abracei com forte angústia a tal palavra

como o corpo abracei em outra vida. É ela, Alice, inteira, de repente, a recriar-se potente como nada. À enorme realidade que continha, mostra a face de si, plena, em som que espalha.

Perdido plenamente de meu tempo, o amor que em mim agora silencia comunica de forma mais potente o amor de outrora que em hora se perdia.

Refeita Alice toda, de repente, que a Máquina feroz me oferecia, soltei a larga lágrima que, amarga, urgente, reclamou o que a chuva tinha.

Desfez-se Alice em forma de presente, no nome que surgiu no outrora nada. Falou de meu amor, mais que a perfídia, perdendo em mim a ausência de rasgá-la

como carne de papel, som e moinho,
jogada ao vento completa e deformada.

Na Máquina do mundo vi lascívia e medo de seus berros desmontados. Sumiu-se Alice inteira entre as palavras do amor que então cantava na memória.

Não sabia que amores silenciam, de carne que se fazem simplesmente. Não sabia que perdia de repente, na tarde de abril que então, formosa,

a chuva me trouxeste, em outra vida, o abraço que dissolve a cor da hora.

E deu-me Alice o abril com seu presente: suspensa cor que agita o nome em frente. E o nome principia no vermelho com a mão aberta de cor indiferente.

Ali, de ante de mim, com ocaso brilho, que nunca vi em olhares contemplados. Na noite, a cor da aurora se formava e a Máquina do mundo recolhia

Alice que sumia toda e inteira, deixando o nome e o perfume na partida. Sumiu-se tudo de repente e está de volta o branco que em mim, completa cifra,

dá passo incerto no presente da amurada, sem a mão dela, sem seu som, sem seus delírios.

O amor me abraça inteiro de repente, e parto com o nome que esvazia, para caminho torto e diferente, sem mais abril, com a marca do presente.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Da linguagem

Disse Duda Machado a nós, alunos da graduação, no fim de uma aula: "o verdadeiro aluno é aquele que permanece na aula mesmo depois que ela termina".

É claro que, dada à juventude, à pouco leitura, ao contexto, entendi pouco da frase, que reverberou. Não entendia que Duda ampliava de forma extraordinária o sentido de continuidade e do exercício da aula, do que é "estar em aula", muito maior do que a contagem do tempo humano da sala e da atividade burocrática que acostumamos a chamar de estudo.

A então aula de Teoria da Literatura II terminava, mas continuei nela, preso na memória - este passado recheado de agoras de que diz Walter Benjamin - por todo o tempo que se seguiu, na grande aula que é o constante aprendizado. O sentido de aula, na frase poderosa de Duda, era o de estar em contato, em busca constante pelo saber. Não pelo saber específico que a tecnocracia ironicamente nos diz dar ao nos conferir um papel, como um diploma de graduação, de técnico em informática, em culinária. Mas a aula como a experiência: a busca pela experiência presente no tempo e só possível de, nele, chegar próximo de um vislumbre do saber.

Isso transforma a aula num continuum: sempre em contato com a experiência que vislumbra o saber maior que só o tempo no traz, a aula nunca termina e o aluno - o que está aquém da luz - pode sempre aprender continuamente.

De todas as lições, as reais lições da graduação, esta é uma das mais fortes porque efetivamente ensina, transmite a experiência profunda de que fala Benjamin: o mais velho e viajado narrador dá aos mais novos em uma narração potente um saber que ele buscará compreender por toda a vida, reverberando e suspendendo o tempo daquele momento de fala, efetivando a grande aula.

Só hoje vislumbro esse conceito ampliado de aula que nos deu Duda e só hoje posso aplicá-lo a outra aula da qual nunca saí.

Um dia, numa tarde nas Intocáveis, encontrei as meninas empolgadas numa calorosa discussão que já havia tomado um dia - o anterior à minha chegada - e que me atropelou antes do tradicional café que sempre bebia lá, como faço em casa de amigos. Bia, com olhos brilhantes, disse que a discussão que a envolvera, assim como à Vanessa e à Carla, era se havia linguagem em um quadro, em uma escultura, como há em um texto poético. Claro que a pergunta não era da definição meramente linguística da linguagem. A pergunta jogava a discussão para o profundo terreno da filosofia, pois indagava, de modo fundamental - como diz Heidegger - principiando o verdadeiro pensar interessado, que sempre retorna.

Tomei a pergunta a sério e discuti calorosamente o restante daquela tarde, pensei na frase pela semana, ainda discutindo com Bia pelos dias que passaram, até pedirmos a ajuda de nosso professor de História da arte, José Arnaldo, que trocou o foco da discussão impondo-nos outra pergunta: a da existência de um discurso, mais palatável ali aos estudantes de graduação de letras e história tão distantes que estavam dos pensamentos da filosofia e da teoria da linguagem.

Imputávamos, naquela querela, a grande aula de que disse Duda. Eu não sabia que a discussão da tarde entraria em mim na mesma suspensão que a da aula de Teoria II, e de que a outra pergunta de Zé, que desviava ilusoriamente o foco, não seria o bastante para a resposta.

Não sei quem iniciou a discussão nas Intocáveis, mas, de fato, a pergunta era valiosíssima e acredito hoje ter chegado perto de uma resposta. Como pergunta valiosa, como as grandes perguntas das grandes aulas que fazem com que os alunos permaneçam nela mesmo depois que elas terminem, acredito nunca podê-la responder sem criar com ela outra profunda questão filosofando ao gosto heideggeriano em sua Introdução à filosofia.

Em bravata, empolgada com a questão imensa que ali, em explosão na mão dos jovens estudantes causava o despertar saboroso do contato livre com o saber, Bia defendia: sim! Há linguagem em tudo. E há. A linguagem nos envolve, sem fora, fundadora, nas palavras de Heidegger.

Era a linguagem que nos provocava, independente de onde tenha partido a pergunta. Assim como a aula de Duda: no planisfério da linguagem que nos domina, iludido é, como diz Leibniz aquele que acha que domina a linguagem, que nos usa sempre e a todo instante e que usou a nós naquela tarde.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Começar: de novo e de novo e de novo...

Pula, vai, tá um calor danado e a água tá boa.

Era uma terça-feira, feriado. Pula! Quatro latas de cerveja, um churrasco na casa de colegas, uma piscina com um metro e meio de profundidade. Pula! Os meninos pularam, parecia funda, ali, do lugar em que estava observando.

Pulei. Uma forte dor nos ombros e na cabeça depois de batê-la no fundo da piscina. O putaquepariu tomou a garganta, depois que ergui o corpo ainda na água. Com essa você poderia ter quebrado o pescoço, disse um dos colegas.

Em casa, depois de um dia sentindo a dor de cabeça aumentar. O ombro doía ainda e meu irmão empurrou o pescoço: é uma luxação, amanhã passa. Uma noite de sono. Na manhã seguinte, a dor na coluna, a corrida de hospital em hospital, a chegada ao João XXIII, o encaminhamento: mergulho em águas rasas. A emergência foi ontem, senhora, para a minha mãe, ali, comigo.

A sala de raio-x: o último segundo antes da notícia, deitado na maca para fazer uma radiografia do crânio: Não se mexe mais, meu filho, falou a enfermeira, ao pé do ouvido, saindo para dar a notícia a minha mãe.

Fratura do corpo da quinta vértebra do pescoço em quatro partes, trincas na quarta, na terceira e na sexta. Um milímetro: o que separava o corpo fraturado da medula. A imensa distância que me separou naquele dia da morte, da cadeira de rodas e que me faz, hoje, escrever este blog.

A fratura como um divisor de águas. Para o menino que, ainda no berço, quase morreu com uma parada cardíaca e uma respiratória, aos três meses: pneumonia, coqueluche, e tudo o que prejudicou pulmões por uma vida. Para o jovem que, depois da fratura, foi espancado na segunda de carnaval ao voltar da casa da então namorada, um ano depois do pulo na piscina; que dois anos depois de ser espancado, cortou a mão e a faca quase atingiu a artéria; que três anos depois disso foi atropelado; que três anos depois do atropelamento, teve o apartamento em chamas.

Seria uma bonita e trágica ficção e se contada em um livro venderia milhares de exemplares para um público ávido por tragédias. Mas, aqui, 12 anos depois do pulo na piscina, completos ontem, é uma lembrança amena de uma vida como as outras.

Brinco com amigas que as quero de branco em meu velório. Talvez porque a morte seja minha companheira de vida, em tantos momentos soprando o hálito doce em meu nariz que quase não sente cheiros. Dá-me a mão sempre, a morte, mostrando que viver é frágil como o sono que tenho nas noites: sem ar por segundos que atormentam os que me vêem dormir, a intermitência pulmonar constante.

Estar vivo hoje, desde aquele 8 de dezembro de 98, às 14h. O pulo como a fecundação. Naquele momento, ainda no ar, nunca poderia imaginar que a distância que promove a vida, a contínua vida que sempre reaparece diante de mim, é imensa como um milímetro. Imensa como o centímetro que separou a lâmina da artéria, como o minuto em que o coração parou junto com os pulmões, no corredor do hospital, no frágil corpo de três meses de vida.

A distância constante entre a vida e a morte é frágil como tantas vezes constatei. Deitado no asfalto, enquanto apanhava de muitas pessoas, pensava nos chutes que acertariam a coluna. Com a cabeça em frangalhos, arrebentada em todos os lados, nenhum chute no pescoço. Instantes que separam os chutes do portão que se abriu, salvando-me de um linchamento sem fim em época que pessoas morriam espancadas no bairro. Os mesmos centímetros que separaram as chamas no apartamento da botija de gás debaixo do fogo, na área de serviço. Pequenos instantes no imenso tabuleiro, em que a morte dá um xeque, sem mate.

É nas pequenas distâncias, nos pequenos e insignificantes momentos que a luta feroz entre morte e vida se dá: um lance no tabuleiro. Errada a jogada, a morte ganha. Até agora, ela tem dado apenas bons apertos. Faz parte da minha trajetória, do meu cotidiano. Durante o jogo, a distância, a mínima distância prova constantemente que a vida é sempre mais forte, mesmo nesses bons apertos.