domingo, 30 de maio de 2010

O novo

Tenho sapatos com os bicos abertos e muitos mortos que carrego nos ombros. Observo todos, com a cabeça mal disposta, e noto que quase todos são eu mesmo em meus muitos outros momentos: meus mortos-de-mim.

Colocados como fotografias ladeadas, é estranho observar no tempo o quanto morri em muitas faces nas quais não me reconheço mais e que não consigo efetivamente tocar. Um mosaico estranho, em uma pouca cor, mas que me apresentam em multi-facetadas outras formas que abandonei, que me abandonaram, mas que são, em pedaços de mim, um outro eu.

No caleidoscópio de rostos, percebo outros, outros rostos que não são meus. Desmontados, são a soma de todos os rostos que me atropelaram vida à fora - porque todo contato com o outro é um atropelo.

Violentos, os outros rostos precisam ser escamados, um a um, para que eu possa notar a marca que deixaram no pós-atropelo. Sob a marca de um, outro rosto diferente, de data não sequencial. No fim, sobra um conjunto disforme que também não é meu rosto, ou qualquer outro rosto meu abandonado, morto; mas o de todos os que me antecederam em eras mais imprecisas. Parentes que eu não reconheço no traço do nariz, mas que enviaram dos confins do passado as tremuras das mãos, os cacoetes de ajeitar os óculos, as doenças, o arqueado dos ombros.

Depois de tantos outros, meus joelhos reclamam o peso de todos sobre mim. Lembro-me que é hora de cometer outra morte e, como se desencarnasse, recordo-me das outras vezes em que antes de morrer notei os mortos. Sairá outro rosto de tudo, mais leve, que não notará seus muitos mortos e eu terei, dali em diante, a sensação de que re-nascer é tornar-se novamente virgem de todo e qualquer contato. Se é sempre virgem para o novo, mesmo sendo o novo o repetido exercício do presente.

sábado, 1 de maio de 2010

Sei que nada será como antes

Algumas questões desligadas: um malbec aberto, um par de olhos castanhos, Milton Nascimento, Jorge Ben e uma sexta-feira gorda, ensebada, de difícil digestão.

O conjunto todo me traz cidades perdidas, ruas lotadas, serras cheias de nuvens na manhã maluca. É o malbec. Na foz de todas as vertentes tem jeito de dizer o exagero das palavras.

"Ah, se eu pudesse fazer homens e estrelas" no som da voz de Jorge Ben, agradecendo à Moça pelo gostar, esse gostar que faz parte das atenções coloridas desses jeitos loucos das pessoas. É o malbec.

"Por causa de vochê, bate em meu peito, baixinho quase calado um coração apaixonado por você..."

Pois vochê passa e não me olha! E Jorge Ben, dançando nas palavras, traz uma cor de passado menos melancólico que Milton. Tudo na música de Milton é saudade: de Minas, dos amigos, do que foi deixado em função do caleidoscópio que é o mundo. Já Jorge Ben, como nunca deixou o Rio, tem cor mais leve, sem tanta saudade.

Então, Bebete, vãobora.