quinta-feira, 1 de abril de 2010

Amor é compromisso/com algo mais terrível do que amor?

Ontem, tive uma das mais interessantes conversas de cantina de minha vida. Eu e um conjunto de amigas, a partir de uma metáfora criada por mim para explicar, de uma forma quase tocável, o novo contato que eu estabelecia com uma dúvida - que, há dias, me atormenta e à angústia que ela me gera -, e de um verso de Drummond em Elegia 1938, travamos um acalorado diálogo sobre o amor e o hábito.

Antes de partir para os detalhes do diálogo, é bom lembrar que a minha metáfora era sobre uma situação inusitada e que considero irrepetível, como o sabor que o vinho traz à alma no momento exato de seu contato com a língua, toque esse que suspende o corpo do chão, preenche as lacunas da alma e que só pôde ser sentido naquele exato momento, sem um antes e sem um depois. E a angústia está na busca por um outro contato que seja único, nem igual - muito menos parecido - com o primeiro, porém único e também carregado do presente que o satura de sensações.

A discussão então começou no momento em que, após dizer a metáfora do vinho, disse que a maior parte de meus problemas está muito bem ilustrada no verso "A literatura estragou as tuas melhores horas de amor." do referido poema do poeta maior. Isso porque a literatura ensinou-me a perceber o hábito que nos obriga a tudo em tudo, o hábito que, como ilustra Cortázar no capítulo 73 da Rayuela é "un fuego sordo, (...) fuego sin calor que corre al anochecer por la rue de la Huchette, saliendo de los portales carcomidos, de los parvos zaguanes, (...) fuego sin imagen que lame las piedras y acecha en los vanos de las puertas". O hábito mergulhado, fluido, opressor, que Drummond poetiza na sua "elegia", em que o sono nos desobriga de morrer, no limite que ele continuamente nos impõe e que nos encerra.

Dali para adiante, a discussão foi a de se amor morre ou se é oprimido pelas instituições criadas dentro do hábito, pela complexidade que está encerrada no termo "namoro" e o peso que a instituição tem e que muitas das vezes é maior que o peso daquilo que ela foi feita: o sentimento mais amplo e que fere o hábito, a maior pobreza, o compromisso terrível no constante passar do presente, que mostra-nos, sempre, que entre o sim e o não há um conjunto infinito de possibilidades de escolha, e que a palavra verde carrega em si outra infinidade de tons, mortas no limite-verde. O hábito limitador e constante que lambe como um fogo surdo e que nos queima e que o máximo que conseguimos ter dele é uma sutil percepção de seu funcionamento, uma vez que ele nos queima a pele.

É claro que a discussão, boa discussão, profunda, em que os saberes nos carregavam de novos sabores, terminou em cerveja, uma vez que somos limitados diante da profundidade do tempo e do tema. Sambamos todos por uma noite inteira, e no samba, o amor, que tenta matar o hábito, nos mostra o hábito de tentar matar o amor. A noite, sem cerveja, seria de uma discussão eterna, e é muito provável que se, por covardia, não tivéssemos abandonado o barco, ainda estaríamos lá, levantando elementos que comprovam e que contestam a temática.

Daí a profundidade daquilo que simplificam: saber. "E como saber, como gerir um corpo alheio?" do Mineração do outro de Drummond.

O que nos sobrou foi que "os dias consumidos em sua lavra/ significam o mesmo que estar morto."