segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Ano Novo

Como eu não sou bom com desejar as coisas, vai Drummond, que sempre diz melhor por mim.

RECEITA DE ANO NOVO

Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo

cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,

Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido

(mal vivido talvez ou sem sentido)

para você ganhar um ano

não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,

mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,

novo

até no coração das coisas menos percebidas

(a começar pelo seu interior)

novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,

mas com ele se come, se passeia,

se ama, se compreende, se trabalha,

você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,

não precisa expedir nem receber mensagens

(planta recebe mensagens?

passa telegrama?).

Não precisa

fazer lista de boas intenções

para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar de arrependido

pelas besteiras consumadas

nem parvamente acreditar

que por decreto da esperança

a partir de janeiro as coisas mudem

e seja tudo claridade, recompensa,

justiça entre os homens e as nações,

liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,

direitos respeitados, começando

pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano-novo

que mereça este nome,

você, meu caro, tem de merecê-lo,

tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,

mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo

cochila e espera desde sempre.


o mundo-cor sobre a agonia

É sempre preciso descarnar a cor. A cor-amêndoa do passado, em meio a neblina quase branca da presença. A cor-voz do aveludado verde-creme, como pistache em estado frio. A cor-azeite-cabelo da cor-forma-derretida, como os sabores das cores do tempo.

É nessa lógica imaginária, como num caleidoscópio, que a palavra-carne se faz palavra-carne-silêncio. No silêncio incomunicável da verve, da voz no escuro, é que a alegria, em tons-sóis-carminizantes surge na rouca-esquerda-voz de detrás do espelho. A forma nova, repetida, como um holograma, é mágica em palavras desmedidas, em formas e sabores do cortar o pão pela manhã.

Perseguida eternamente pelo perfume, pelo tom, pelo toque, a cor-amêndoa do tempo retorce as formas e traz, no incapturável momento eternizado, o ver-melho-mesa, o ver-melhor de uma segunda-feira. No segundo, a mão é o toque no passado, no vapor que é mais carne que a carne, no ser que é mais que o ser. O novo silêncio recheado de palavras traz os olhares, novos e velhos, no amêndoa. O amêndoa da neblina, da penumbra, da voz que ecoa na noite.

Num átimo de serpente, em que o s é mais que s, é mais que a forma, habito a agonia do não-tempo da palavra reservada para mais. A palavra perdida na cor-tempo, infinito como a consciência aberta ao toque, ao requinte, ao esquerdo formato do sorriso ao recuar do corpo involuntário.

Juntos, formas e formas são mais a nostalgia agônica, mas de uma agonia boa, nova, mergulhada como o aroma no café. Mergulhada na vertigem das cores no sobretom-cinza quase ao toque. Tantas condições divididas, sem o abraço-cor-saudade.

No conjunto, a Liz se recria, como nos versos, no constante-contante tchau, e sobra o farto sorriso, o da saudade que sempre se renova no até, no além, no aquém-cais.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Para nova cara

Não é um blog de samba, embora o samba esteja em tudo o mais. Também não é um blog diário, porque a vida é cá fora, longe de tantos teclados e silêncios. É o rodopio da saia vermelha,no chão de um samba lavado.

Assim, Desde que o samba é samba não tem compromisso e parte do improviso do partido-alto. Pretende-se, como uma roda de samba tímida em cantos de cidades, em quintais, em bares, em praças, afinar os cavacos e roncar as cuícas para, aos poucos, embalar a alma, mais a de quem toca que a de quem ouve.

Como o surdo e a marcação, o chão desse samba, atravessado de esguia pelo violão dedilhado, tem o piso-alma-corpo-todos, refletidos nas retinas uns dos outros.

Curtam os sambas e bem-vindos ao novo Desde que o samba é samba.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Para a foto.

A beleza-passado aparece em sobrancelhas levantadas de passos de dança, no corpo que cheira a sândalo, incenso e cores.

Nas perdidas paredes, grossas dessas umidades fartas, a leveza indomada do passado, suspenso nas sobrancelhas, traz um tom de castanho, a cor-vertigem das rugas do arqueado da testa, olhos que vêem de esguia a capacidade compacta do que negou-se em ter.

É estranho como o passado, nos seus tons-toques de adamascado sabor, fazem rodopiar sobre-sob as prórpias cores. Um conjunto imutável de sensações que, suspensas no todo-sobrancelha chocam como ossos que se partem, como caixas vazias.

O bailado das sobrancelhas faz surgir o perfume do sândalo, cor de damasco, que a mulher carrega na ponta de seus dedos, em mãos rabiscadas-cheias de incensos.

Na dobra-sentido do toque, a noite cobre como um soco e um travesseiro: sufocante travesseiro que teve insônia, marrom-café sem soluços.

O que sobra é sândalo-sandalha, saudade que se espalha como incenso para as sobrancelhas.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Re-ouvindo o passado


Como a vida é o movimento e entro nesse mês no meu processo retrospectivo, muitas das múltiplas sensações de contatos reaparecem. Repesar e remedi(a)r tornou-se a primeira tópica. Nesse complicado exercício de mergulho num labirinto no qual não tenho muita noção de luz e de sombra, sobra alguns cacos no caminho. Desses muitos cacos, o poder perturbador que alguns atos têm sobre as pessoas, como uma caixa fechada; alguns álbuns de retratos antigos, das faces de meus muitos, e por último, algumas músicas.

Andei refletindo sobre isto, sobre as músicas, e caí num repertório imenso que não sei o início e que ainda aumenta. Sei de grandes épocas marcadas por discos completos, como As cidades ao vivo do Chico no período da graduação, juntamente com Flávio Henrique e Marina Machado - disco de tardes inteiras em Mariana; Louis Armstrong com Dream my litle dream above you, dueto com Ella Fitzgerald, música que ainda me persegue pelas ruas de Vitória e de BH, remontando o holograma Juiz de Fora em novas formas urbanas desconexas. O estranho é que essa música em especial não vem isolada num contexto de rememorações. Aparece, quase amalgamada, com Fever, cantada por Ray Charles.

No momento então em que o jazz se apodera das minhas visões urbanas mais confusas, Paulinho da Viola atravessa a cena, louco, com Eu canto samba, música que me acompanha há anos.

Nesse maluco caleidoscópio de reminiscências, em que meu passado aparece "saturado de agoras" nas palavras de Walter Benjamin, caio na adolescência em que buscava no olhar de qualquer mulher o jeito da Daomé, de Coisa Feita de João Bosco, música e músico que ouvi a exaustão em minha vida. Traz um gosto assim delicado, que me põe num furacão de memórias que se chocam com todo o disco ao vivo Fina Estampa, de Caetano, em que ele regrava Suas mãos.

Um dia, há meses, ouvi um disco de João Gilberto que divide minha vida em duas épocas e lembrei, nas notas dissonantes, que meu ingênuo amor já foi vivido no tempo dos ingênuos amores que se rasgam como cartas mas que perpetuam-se como doces perfumes. Em Farolito, que tocava suave numa madrugada, numa noite infinda de Belo Horizonte, vejo a imagem do céu, do recorte de estrelas que via da janela do apartamento.

Por fim, caí inevitavelmente em Cartola em Corra e olha o céu, em Caymi com Morena Rosa, no Chão de estrelas na voz de Nelson Gonçalvez e Boêmio na voz de Orlando Silva. E penso na vida um instante, como me pede Orlando, vendo que Come together, dos Beatles, Eu você nós dois, na voz de Caetano em Prenda Mia me trazem novas rememorações, quase presentes e tocáveis.

Na ciranda, retorno a Louis Armstrong, na mesma música de há pouco, mas agora com De noite na cama, na voz de Marisa Monte, no Mais. E ao entrar nessa múscia, reouço Gal em Baby, Maria Bethânia no disco ao vivo com o Chico, que me traz um trecho da estrada de São João -BH, e Futurantes amantes que me traz uma cor, um tipo específico de verde. Mais além, na confusão musical de tempos que se sobrepoem, tem Besa-me mucho, o primeiro bolero que dancei, na rua, em Pitangui, ainda quase menino, e Lábios que beijei na voz de Caetano, que dancei na sala de meu apartamento em JF. E me acabo em gargalhadas com Coriente 348, um tango cantado por Nelson Gonçalvez em gravação de péssima qualidade, juntamente com a não menos saudosa Vermelho 27.

Acho que, saindo do turbilhão, acabo nos vocais inigualáveis de Because, dos Beatles. Ultimamente esse é o som das manhãs, e Sérgio Sampaio em Velho Bandido, nas noite. E volto, quase sem perceber, sempre ao samba Se alguém perguntar por mim, que recitava aos 13 anos em todas as ocasiões em que partia: Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí/ com um violão embaixo do braço. Em qualquer esquina, eu paro/ em qualquer botequim, eu entro/ e se tiver motivo, é mais um samba que eu faço.