quarta-feira, 21 de março de 2018

Queria poder dizer coisas boas
do tempo que vivemos.
Nas filas dos bancos,
muitos comentam a sensação de precipício.
Lembranças como âncoras capazes de dar razão à escolhas impensadas.

Hoje sou eu o estranho no meio de tudo
quando penso?
Estranho por entender que nada retornará?

Mas ainda há sonho entre ladeiras de pedras e noite.
Ainda há sonho, suas portas cinzas de duas abas,
suas janelas, sua imensa casa.

Estou nele clandestino
morando novamente num sorriso
em meio a esse tempo amargo de embargo.

Há barulhos no forro do teto.
Há medo nas mãos e nos gestos.
Há medo de tiros e guardas.

Mas há sonho onde entro
e está na sala o lutar sentado à espera
habitado por desconhecidos que me me abraçam
habitado por uma memória coletiva
daqueles que habitam o mesmo sonho.

Há uma amarga e estranha lembrança,
entre um cinza e outro de dias de chuva sem bucolismo e lirismo,
de mofo nas coisas que realmente incomodavam,
de aranhas venenosas e verdes
descendo pela lateral dos muros que pouco compreendíamos,
que davam para o odor de valas comuns
invadindo as janelas.

A vista arrepiante do lugar fechado
do horizonte mostrado na ponta do dedo:
morro por onde passavam carros barulhentos.

Mas é isso que guarda o lutar na sala do sonho:
o opaco abismo para nos dar coragem de passar.

Estamos, braços dados, indo à porta:
como quando da primeira vez.
A rua íngreme de todo dia,
cheia dos nossos afetos
mudará o rumo da praça.

A praça, nossa casa.
À praça, todos gritam!

E no retorno de nós de braços dados à praça
às ruas
revemos velhos rostos conhecidos,
mudados pelo tempo e pelos hábitos.

Revemos de novo o sonho.
Revemos de novo o lutar:
Não mais os dias cinzas de agonia.

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