quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Precisamos falar dos pais de Guilherme


Guilherme Irish não foi o único jovem militante de esquerda que teve um pai de direita. Muito provavelmente não foi o único jovem de esquerda com um pai fascista. Também creio que o pai de Guilherme não foi o único pai do país que tenha pelo menos uma das seguintes adjetivações a seguir: machista, misógino, homofóbico, racista, preconceituoso, xenofóbico, fundamentalista, ou todas juntas. Também creio que em muitos embates discursivos entre pai e filho, o pai de Guilherme o tenha obrigado a se calar, proibido de emitir suas opiniões, de defender seus ideais e heróis. E creio também que o pai de Guilherme não é o único pai do país que tenha garantido o seu direito particular de fala baseando-se no argumento hierárquico de que ele era pai. A frase “Me respeita, eu sou seu pai. Eu mando em você” (o que para muitos pais significa o direito ao desrespeito irrestrito e inconsequente da intimidade, da individualidade e das crenças de seus filhos). Mais ainda, o pai de Guilherme não foi o único, creio, que possa ter, mais de uma vez, usado o argumento vago e impreciso de que as opiniões omitidas pelo pai precisavam ser respeitadas, independente se elas não só desrespeitavam o filho como também eram, historicamente, carregadas de violências.

A diferença é que o pai de Guilherme puxou o gatilho contra o filho. E mesmo tendo puxado o gatilho porque não aceitava a postura política do filho, não alardeou ou apareceu nos jornais com a atenção devida. O pai de Guilherme passou de todos os limites, e isso, além de inegável, é inquestionável.

O pai de Guilherme chegou  às vias de fato. Muitos não chegam. E não são poucos os que, como ele, tecem com seus filhos e filhas discursos de ódio que desrespeitam, destroem psicologicamente, maltratam com base no direito irrestrito que creem ter por se colocarem nesse lugar complexo que é o de um pai. Muitos pais parecidos com ele muito provavelmente usam de outras formas de violência para matarem simbólica, discursiva e ideologicamente seus filhos e filhas.

Muitos pais espancam seus filhos e filhas por eles serem ou pensarem diferente. Não são poucos os dados de filhos e filhas gays expulsos de casa, espancados, silenciados, psicologicamente agredidos por pais como o pai de Guilherme. Não são poucos os casos de filhos e filhas que tiveram suas opiniões silenciadas, sejam elas políticas, religiosas, de gênero, etc, por pais como o pai de Guilherme. Mas o pai de Guilherme puxou o gatilho. Os outros já puxaram, puxariam?

Além dos tiros em Guilherme, quantos tiros metafóricos pais como o de Guilherme já não deram em seus filhos e filhas? Quantos não assassinaram psicologicamente seus filhos por eles divergirem dele em algum ponto? Quantos pais, munidos do direito auto-outorgado de plenos poderes sobre as mentes de seus filhos e suas filhas não foram, também, assassinos em potencial ou simbólicos de seus filhos e filhas?

O caso de Guilherme não é, infelizmente, um caso isolado. E não acredito que o fascismo que motivou o pai de Guilherme tenha sido, somente, resposta de um momento político levado às últimas consequências. Porque os pais como o de Guilherme ainda estão em muitas casas brasileiras, puxando outros tipos de gatilho, matando seus filhos aos poucos por eles não se enquadrarem nos desejos ideológicos e políticos que querem impor aos filhos e às filhas. O fascismo está dentro das casas, nos métodos de educação que formaram esses pais como o de Guilherme. No machismo de cada dia, na misoginia de cada dia. Em cada fala que um virtual pai de Guilherme tenha dito que “bandido bom é bandido morto”, “mulher é tudo vadia”, “homossexualidade é doença”, “preto não é gente”, “eu não confio em gente desse país”. Frases assim são ditas todos os dias pelos pais como o de Guilherme pelo país. Frases assim levaram o pai de Guilherme a matar o próprio filho, porque para o pai de Guilherme “comunista tem que morrer”, e ele cumpriu o dito. Matou um comunista, não o filho. Quando percebeu ter matado o filho, matou-se em seguida.

O que me preocupa é que outros pais de outros Guilhermes continuam por aí. E eu não sei mesmo até quando filhos e filhas serão assassinados de muitas maneiras por seus pais fascistas, sob a máxima de “Eu sou seu pai. Eu posso. Você é meu.”. Até quando veremos notícias desse tipo?

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Atlântica - VII

algo de remanso no fundo do rio quando bate a cara ao mar: amor, esse dilúvio.
enchendo os poros do corpo de outro corpo inalcançável, os dedos e os olhos comungam da mesma linguagem.
amor: o que esculpe o fundo do rio e, lento, bate a cara ao mar.
o mar, tempo impreciso, revolverá o amor em seu ventre amplo e fundo. seu ventre maduro e inteiro, pleno da vida de antes. da vida anterior aos seres, época em que o planeta era só o fervilhar das entranhas, as lavas profundas de um amor primeiro.
algo estranho no remanso do rio: o ato.
amar: um ato imperioso e impreciso, como o romper de uma crisálida, o estilhaçar a vidraça a pedras e correr. enquanto se corre, ter no rosto o beijo leve do amor que venta, secando becos e espalhando gotas de água suja da rua. água suja que chegará ao fundo do rio manso.
esse rio, nossos rios, que se debatem profundos entrelaçando unhas e cabelos, linhas e salivas.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

20 frases que um praticante de religião de Matriz Africana já ouviu pelo menos uma vez na vida

Na onda das listas; inspirado pela matéria do Jornal Hoje em Dia de BH da última terça (8/11), em que meu irmão falou sobre a experiência pessoal (que é a minha e dos meus familiares) de ser de uma religião de matriz africana; por causa do tema da redação do Enem, fiz uma lista das 20 coisas que mais ouvi na minha vida por ser umbandista. Acredito que muitos e muitas adeptos/as de religiões de matrizes africanas passaram por pelo menos uma dessas situações. Vamos a elas:


1-) Macumba é do demônio, né?
2-) Vocês matam animais para fazer o mal?
3-) E esse negócio de trabalho... É verdade?
4-) Vocês acreditam mesmo nessa coisa?
5-) Vocês são politeístas, não é?
6-) E depois que vocês morrerem, vocês não vão para o Céu?
7-) Vai na minha igreja qualquer dia para você conhecer melhor.
8-) Mas Umbanda (Candomblé, etc) não é religião. Olha só o Catolicismo. Ele é. Tem uma estrutura que a gente pode chamar de religião.
9-) Não conta para a minha mãe que você é macumbeiro não, ok?
10-) Você não acha que nosso filho vai crescer nisso aí não, né?
11-) Eu tenho medo do que você pode fazer comigo. Vai que você um dia faz um trabalho para mim.
12-) Eu tô com encosto?
13-) Mas você precisa usar essas cores mesmo?
14-) Por que não pode encostar nesse colar seu? É só um colar!
15-) Mas e esse negócio de Exu?
16-) Pombagira é puta, né?
17-) Uma vez eu até fui num terreiro. Mas aí começou umas coisas esquisitas a acontecer, pensei que era o capeta.
18-) Vocês põem comida para o santo e ele come?
19-) E esse negócio de Orixá? Como vocês descobrem?
20-) Mas eu não sabia que você era tão ligado nessas coisas de esoterismo.