terça-feira, 31 de maio de 2016

Carta aberta em apoio à Presidenta Dilma e contra o Golpe


Cara Presidenta Dilma,

votei na senhora nas duas eleições para a Presidência. Acreditei no projeto político defendido pela senhora nas duas eleições que venceu e, mesmo tendo visto que alguns rumos e algumas políticas avançaram timidamente am áreas importantes - como a demarcação de terras indígenas; os direitos das mulheres, dos negros e da comunidade LGBT, e as reformas agrária, política e previdenciária, defendi seu governo e o voto que conferi a esse projeto.
Não penso que o golpe foi algo tramado por Temer, de quem não reconheço o governo, ou de seus opositores derrotados em 14 nas urnas. Ainda no meio do seu primeiro mandato, temia pelo fato de os seus algozes ainda estarem lúcidos o suficiente para tramarem contra a senhora, apoiados nos discursos mais absurdos. Não porque a senhora representava modelos de políticas de inclusão social, ainda que bastante tímidas, herdadas dos anos de Lula. Mas porque a senhora é o símbolo da vitória de uma geração que os militares e as oligarquias nacionais tentaram calar, matando e torturando.
Ao longo de seu primeiro mandato não foram poucas as cartas do Clube Militar contra o seu governo. Não foram poucos os que, viúvos dos anos de Chumbo, pediram a sua cabeça. Não foram poucas as vezes que ouvi seu nome associado ao “terrorismo” na boca de seus opositores. Sua ficha no Dops figurou nos jornais do país, nos mesmos jornais que elogiam e sustentam o golpe. A sua vitória, mais que a vitória de um projeto político, era a vitória da esquerda dos anos da Grande Noite.
Os golpistas vigiaram a senhora e arquitetaram, ao meu ver, a lenta vingança. Não levaram aos debates à época de sua campanha as discussões efetivamente sérias com relação às políticas públicas. Centraram a discussão em temas que poderiam alimentar o ódio já existente e propagado por jornalecos, marqueteiros, fundamentalistas, todos baseados em discursos e representações políticas que vêm sendo construídos aos poucos nos últimos anos em uma rede de ideologias perigosa – porque ali sim há uma doutrinação em massa em processo, utilizando-se das concessões de meios de comunicação e se beneficiando da não tributação de seu capital imobiliário e em reserva. Puseram-lhe a Bíblia, e não a Constituição, a ser debatida nos dias mais calorosos de 2014.
Seu adversário naqueles dias era e sempre será um fantoche. Foi um fantoche do avô, é um fantoche da irmã e foi um fantoche dos oligopólios em 2014. Fantoche porque não tem envergadura política suficiente para um debate de propostas e ideias. Mimado demais, quis a faixa presidencial e foi incentivado por quem meticulosamente arquitetou o golpe nos últimos anos. Aécio Neves é um golpista de segunda classe e a ele a história reservará páginas e alcunhas piores que as que reservou a Carlos Lacerda.
O golpe chegou, como eu temia. Tudo como nos anos que antecederam a Noite. Uma imagem amarga. Usurparam-na com as mesmas bandeiras e faixas, com a mesma massa de manobra que derrubou Jango. Com o mesmo verde-amarelismo e o mesmo ódio oligarca. Usurparam-na exaltando os anos mais sombrios de nossa história recente porque não suportaram vê-la vencer. Porque ao subir a rampa dos eleitos, a senhora subiu de braços dados com todos os heróis e heroínas mortos nos porões da Ditadura. Subiu com todos os desaparecidos políticos, com todos os procurados e torturados. A senhora subiu a rampa dos eleitos de braços dados com Lamarca, com Marighella, porque a senhora é e sempre será uma daquelas e daqueles que sofreram no corpo a ferocidade do regime ditatorial da direita facínora representada pelos militares nos anos de Chumbo. A senhora é a vitória, por fim, sobre a Grande Noite. A senhora é a vitória do Brasil sobre os militares e com isso os golpistas não se conformarão. E subiu aquela rampa nos braços dos votos de mais de 54 milhões de cidadãs e cidadãos, seus eleitores.
      Além disso, a senhora representa talvez a maior caça aos corruptos da história da democracia brasileira, e pôs na cadeia oligarcas e donos de empreiteiras, corruptos e corruptores de que partido fosse. Fazer o que deveria ser feito foi a gota d'água para os plutocratas, em especial os da mídia, na mira que estão de operações de investigação de sonegação fiscal e corrupção.
E agora, mais uma vez, quando seus algozes se mostram, a sensação que tenho, semana após semana desde o dia da usurpação, é que seu vice traidor e toda a corja que a apunhalou cobre os olhos de vergonha, como os militares cobriram os olhares em um julgamento onde a senhora, altiva, se mostrava inabalável ao centro. Nenhum deles tem a mínima noção da sua força e, covardes que são, não a encaram de frente.
Presidenta, é nessa sua força inabalável, nos braços dados desses que em memória e em simbologia lhe seguem que acredito que o golpe sucumbirá. Acredito que a força do povo brasileiro em luta pelo respeito aos mais de 54 milhões de votos vencerá o golpe. E a história não esquecerá nenhum golpista. E deixará um legado: sempre será possível, pela luta, manter e fortalecer a democracia deste país.
Força, Presidenta!

Danilo Barcelos
Professor de Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa da Universidade Estadual de Montes Claros.
Poeta e escritor.