quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A onda da paixão paranóica: um retrato dos torcedores canarinhos



Buscando imagens que clareassem o que se dá com a direita brasileira, para além de tudo o que já foi dito, e que concordo em grande parte (a ascensão do fascismo no país, a revolta pequeno-burguesa contra as políticas de distribuição de renda, etc), busquei na cultura de massa algumas imagens que sempre me pareceram elucidativas do fenômeno que se processa. E são essas, ao meu ver, as mais fortes imagens que, quando somadas, ilustram boa parte da direita brasileira atual.

A primeira delas é o famoso personagem de Miguel Falabella, nos idos de seu programa global que encerrava os domingos na década de noventa do século passado: o burguês Caco Antibes. Um homem branco, de classe média, mas que sentia saudades de seu status elitista falido. A personagem era uma mistura mal feita do “Rei da Vela”, da peça homônima de Oswald de Andrade, e do personagem “Primo Rico”, interpretado por Paulo Gracindo, nos programas de humor de rádio (inicialmente) e da tevê.

O bordão da personagem Caco Antibes, repetido semanalmente (com tempo de marcação de cena e silêncio de plateia), espalhou-se pelo país, ficou conhecido: “Eu odeio pobre!”, “Tenho horror a pobre!”. Na época, era uma piada nada inocente na Globo. Hoje, uma realidade.

O ódio de Caco Antibes encontrou seus Caco Antibes. Eles estão aí pela cidade: homens e mulheres de uma classe média que sofre porque odeia pobres. Esse ódio encontrou os Caco Antibes nas revistas de direita, nos conglomerados de mídia, nos salões de restaurantes e em um político que, em quase tudo, é o próprio Caco Antibes, chorando pela perda vertiginosa de seus lugares de poder, reclamando, mimado que é, o pirulito que lhe tiraram: o senador do Estado da Guanabara, Aécio Neves.

Aécio é onde se reúnem essas imagens de que disse. Estandarte da direita brasileira,  nele também pode-se perceber, além do ódio Caco Antibes, a música do grupo infantil “Trem da alegria”, dos anos de 1980, de título “Fera Neném”, hit gravado ao som da voz do esquecido Juninho Bill com o ex-Blitz Evandro Mesquista. Na música, a letra é clara: “Se eu for presidente você vai se dar bem”. Isso não é diferente do que o netinho mimado de Tancredo sempre imaginou que seria. E hoje é o que ele, paranóico, repete endoidecido enquanto confabula o golpe que pode jogar o legado de seu avô e sua luta pela democracia na lama.

Paranóico, o Fera Neném, imbuído do ódio Caco Antibes, quer mais. Quer espalhar o ódio Caco Antibes para além dos limites do provável, transformando a eleição e a Democracia Brasileira na tabela do Brasileirão, com uma malta de torcedores da seleção a apoiá-lo, cega que está porque acredita (talvez porque ouviu para além da conta a voz de Juninho Bill) “que entre 2001 e 2010 / Já era a Terra uma guerra final”.

Além do ódio Caco Antibes, o Fera Neném Aécio Neves é movido pela “paixão paranóica”, do não menos lobista e golpista, o falido cantor que iria para Miami e não foi. Cercado de drogas e de amigos inúteis, o Fera Neném está incansável e passa a “onda da paixão paranóica” aos seus torcedores canarinhos por todo o país. Não dá muito para controlar e o que eles dizem, no rádio e na tevê, nas redes sociais e em seus jornais de direita, suas magazines de direita, é um imenso blablablá. Sem um reforço político-teórico sério, sem um projeto político que se ache capaz de vencer qualquer eleição e que precisa, a todo custo, lançar mão do golpe.

Com isso, os torcedores canarinhos têm sua redenção. Seu Fera Neném vai fazê-los se darem bem, e vão poder voltar a dizer que odeiam pobres, sem condenações, como nos anos noventa. Por isso, eles precisam do Fera Neném: porque a “onda da paixão paranóica” os tomou de vez, para sempre, e trouxe com ela as mais malucas manifestações (como o menino que se parece com um antigo apresentador de programa infantil, um porta-voz liberal que escreve um romance colocando os liberais do país em cena, ou como o velho colunista da Veja exilado nos EUA, se protegendo da onda bolivariana brasileira, comunista). Um teatro de horrores que desmerece algo que foi realmente sério nos anos de 1980 e 1990: a luta dura por uma Constituição que garante o Estado Democrático de Direito, o voto popular e a efetivação de nossa democracia.

E um dos agentes desse movimento de redemocratização foi o Neves que mimou o Fera Neném. Tancredo Neves falhou com o Fera Neném. Não conseguiu ensinar ao seu neto mais do que meia dúzia de jargões políticos. Talvez, entre mimos e mimos no casarão dos Neves, em São João Del Rey, o Fera Neném nunca tenha entendido conceitos como democracia, direitos, espaços democráticos. E iludido com a promessa de que quando crescesse seria presidente (como o avô sonhava ser), ouvindo muito Lobão na juventude, o senador do Estado da Guanabara agora se apropria de Caco Antibes.

Somando as imagens, crédula em seus heróis, a malta de irresponsáveis Caco Antibes, torcedora da canarinho, movida pela “onda da paixão paranóica”, segue seu Fera Neném a bater panelas fartas nas sacadas das elites nacionais, querendo, a todo o custo, o golpe. E chorarão por décadas a perda de seu pirulito.