terça-feira, 10 de março de 2015

Em defesa do voto



Os últimos dias de fevereiro e os primeiros de março me lembram outubro de 2014. Nas redes sociais, nos jornais, nas caixas de e-mail, uma onda de ódio tomou o país. E é o ódio meu problema central em tudo isso. Porque o ódio quer o revide. Ele quer que o argumento cesse, que os contrários ao ódio caiam, literalmente, na porrada.

O ódio me assusta, mas não é de todo uma surpresa. Estamos em um quadro novo na política nacional. Um quadro em que a democracia começa a efetivamente ser sentida pela população, vivida no seu cotidiano. Um exemplo disso é o fim da demagogia ideológica. Há um tempo (não muito, diga-se de passagem), muitas das pessoas de direita que conheço defendiam a tese de que não havia nem direita nem esquerda no país. De que isso era uma falácia inventada pelo PT para tirar o foco de que tanto direita quanto esquerda governam da mesma forma. Hoje, mesmo que ainda de maneira confusa, a direita se assume enquanto tal. As pessoas de direita defendem que o são abertamente. Porém, esse reconhecimento para aí, porque são poucos os que, de direita, assumem bandeiras claras de direita, como a política neoliberal, o estado mínimo. Nos demais, depois disso, vem o ódio, e isso é intrigante.

Outro ponto que ressalto disso, do qual não me assusto, que talvez ajude a entender tanto ódio. A direita não esperava por mais quatro anos de PT. Olhou com vista grossa o primeiro mandato de Lula, e muitos torceram pelo seu fracasso. Terminado o oitavo ano de mandato, com Lula sendo ovacionado em todo o mundo, a direita perdeu, mas só por mais quatro anos. A reeleição de Dilma assustou seus opositores. Esquentou o jogo político. Pôs em evidência algo que há muito ela, a direita, não consegue fazer: ser oposição dentro da democracia. E mais: mostrou que, como oposição, não conseguiu eleger o querido Fera Neném, Aécio Neves, o mais inexpressivo nome dentro do ninho tucano. A direita nunca fez oposição e dormiu por doze anos.

Daí a campanha do ódio. Porque, convenhamos, as alianças do PT no início do segundo mandato (sem contar as veementemente criticadas ao longo dos últimos anos) foram feitas para agradar aos tucanos, à direita como um todo. Feitas em nome da governabilidade, dos interesses suprapartidários, mas que, no fundo, puseram em risco diretrizes sólidas do PT. Nomes como Kátia Abreu, Joaquim Levy e Cid Gomes adoçam o bico dos tucanos, acalenta o sono da direita. Agrada ruralistas, donos de faculdades privadas, grandes empresários. São ministros que administram essas pastas dentro de tudo que a direita gosta.

O problema é que a direita não é a única oposição possível ao PT, ao governo. A esquerda, velha de guerra em assuntos oposicionistas, continua lá, lutando por melhores salários, melhores condições de trabalho, por reforma agrária e por um estado cada vez mais presente, de forma a dividir melhor as riquezas do país. E ainda mantém coerentemente suas críticas duras ao PT, às bandeiras que o partido vêm, ano após ano, abandonando na sua caminhada.

A esquerda se mantém coerente e esgota todos os meios democráticos. Reúne centrais sindicais e organizações da sociedade civil. Vai às ruas inúmeras vezes protestar por todas as suas pautas, há anos, há décadas. Está sempre pronta a contra-argumentar, entendendo que o mais importante é a soberania do Estado Democrático de Direito. E luta contra qualquer tentativa de redução de direitos duramente conquistados ao longo dos anos.

Então, a situação é crítica para a direita. Sem uma articulação eficaz, sem uma ideologia clara e bandeiras objetivas, no jogo político a esquerda tem mais chances enquanto oposição. Porque a esquerda sabe fazer o que a direita não sabe: o dever de casa. A esquerda quer a CPI do HSBC, de interesse da população. A direita se esquivou de assinar a solicitação de abertura. A esquerda quer pôr pautas urgentes: a legalização das drogas, a lei do aborto, a taxação de grandes fortunas. A direita não quer nada disso.

Sem articulação, como ganhar uma disputa política? E se a lista do HSBC escancarar as mazelas tucanas, que credibilidade popular a direita terá? Como ela pode se reerguer com a crescente e marcante aparição de Luciana Genro, que não tem medo de dedos apontados ao seu rosto pelas oligarquias nacionais? Como o tucanato sairá em 2018, depois da reforma da mídia, da reforma política? E se a esquerda vencer, de vez?

Por isso articular o ódio, associar PT a comunismo. Dar foco ao ódio é encontrar um inimigo possível e palpável, antigo rival da mídia. Por isso os fuzis estão contra o PT. É muito mais complexo do que achar que são problemas de gestão (que há, claro, mas que não justificam um impeachment). O problema foi o voto. O PT ganhou no voto. Ganhou muito apertado, o que é ótimo para a democracia. E o voto é soberano demais para uma direita desarticulada. E nesse jogo de lutar por votos, sem comprá-los, a oposição de esquerda sai na frente na corrida pelo Planalto em 2018.

Então, por que a direita não se articula democraticamente em torno de pautas saudáveis, sólidas, claras e coerentes ideologicamente? Porque ela não tem essas pautas. A bandeira da privatização precisa ser camuflada porque é uma medida impopular, e a direita quer passar-se por popular. Reunir-se com sindicatos e organizações da sociedade civil é impensado: foi contra eles que a direita lutou e vem lutando por toda uma história. O que fazer, então? Disseminar o ódio.

O ódio evita a discussão, acaba com o diálogo, fere a soberania democrática. O ódio não precisa agir democraticamente dentro das bases constitucionais. O ódio é simplesmente ódio. É a mais cega e eficaz arma quando se está em desvantagem dentro de uma democracia que caminha para o amadurecimento. É com o ódio que os militares podem voltar. E quem tem ódio nem percebe que será a vítima de primeira ordem dos desmandes militares.

Ninguém que odeia a Dilma e o PT quer o melhor para o país só porque odeia. Isso não é o mesmo que ser contra o PT. É possível ser contra um partido, uma ideologia, sem odiá-los. Odiar não contribui para a discussão saudável de pontos de vista contrários, para que, por fim, prevaleça o que for melhor para o país.

Quem odeia (e vocifera, esbraveja, grita alucinadamente e confunde “comunismo” com qualquer cor vermelha que vir – menos a da Ferrari), não está afim de conversar. Quer ganhar no grito. Quer o fim da voz do povo, e isso fica claro quando clama por intervenção militar, porque a voz do povo é o voto. É preciso respeitar o voto. Mas a direita ainda não conseguiu dormir depois de outubro.