sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Para os artistas, com carinho.


     O que fazer, artista, depois de tanto acumular? O que escolher de cor, de som, de palavra, cheio que está de cores, sons e palavras? Qual movimento deve escolher, artista, se a dança já tem tantos, se os prédios já têm curvas, se as telas já têm outras formas de usar o som? Como, artista, diante de tanto novo, pode ainda fazer algo novo, problemático?
     O que escrever, artista, depois de tanto texto, seja sua escrita a pintura, a escultura, a dança, a música? O que escrever, artista, diante do que é branco, no silêncio? Em que casa viver, artista? Na que tem cores, que é das palavras-cores, ou na sem cores, só silêncio e branco? E se trocar a cor do papel artista, será novo o que você comunica, será nova sua expressão?
     Quanto tempo demora seu traço, artista? Um minuto, um mês, uma vida? E nesse traço, quanta força empreendida? O que soma em você, artista: a vontade de partir o branco em cores, quebrar o silêncio com traços, gestos, música e palavra? Qual vontade é essa? Quanto de medo há em você, artista, e quanto de coragem em seu expressar? Como, artista, saber se na máscara que vestirá, na cena próxima do ato antigo, irá honrar a todos os atores que, como você, já quiseram inovar tantas máscaras?

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

corda de tecer

para ana.



amor, tece as mãos!
as quatro mãos do destino
e as reconhece plurais e espelhadas
sem certeza.


onde não teceres quatro mãos,
amor, fia as que faltam
ou desfia todas.
transcende as mãos em outras linhas
faz bordado que embola
- tantas voltas -
no avesso complicado da cor.


amor, tece mãos!
com elas
desenha dedos para perceber-te no escuro
(porque há outros
sentindo)
e ensaia um pensar difícil e cifrado
para nelas
para ambos desistirem do pesar que há nisso
e, então, de mãos tecido, amor, sem mais pensar
conta-te fio a fio
destece-te
e toma o ar em par de asas!

domingo, 19 de outubro de 2014

Dos ares lavados


“.............................................................................
Um toque, e eis que a blandícia erra em tormento,
e cada abraço tece além do braço
a teia de problemas que existir
na pele do existente vai gravando.

 

Viver-não, viver-sem, como viver
sem conviver, na praça de convites?
Onde avanço, me dou, e o que é sugado
ao mim de mim, em ecos se desmembra;
nem resta mais que indício,
pelos ares lavados,
do que era amor e dor agora, é vício.
…...........................................................................”


Mineração do outro – Carlos Drummond de Andrade



Fazer as malas como quem compõe o corpo a ser decifrado. Escolher cada roupa e cada cor de roupa, escolher as cores mais nulas porque a cor, seu contraste, devia dar espaço ao corpo que compunha. Cumprir a coragem de romper silêncios e distâncias, naquela mala – corpo em composição – crendo haver no ato algo maduro, lúcido, sóbrio. Havia. Mas havia quilos de medo, apreensão, cicatrizes. Mas era preciso cumprir a coragem que a existência nos obriga, correr o risco, sim!, porque a vida é feita de correr riscos. E rompeu-se a distância no tempo presentificado e lento, sem haver depois – que haveria.

Abrir a mala como quem abre um corpo e retirar-lhe os sentimentos em camisas, peças íntimas, um par de chinelos velhos. Tirar do corpo, peça a peça, o que deveria – pesado e medido – dizer em precisão, em primazia. E o corpo abriu-se aos poucos, ainda cheio dos avisos do medo, mas cheio de coragem. Como romper as fortes águas do mar – que ali havia – bravio a ponto de expulsar, mas em calmaria incomum, de duvidar serem águas do mar a penetrar, calma e cristalina lagoa que se tornaria em onda despregada que não imaginava haver – e haveria?

Fechar a mala como quem costura um cadáver. Sem capricho porque o corpo não precisaria mais ser visto. Descomposto, confusos órgãos e sentimentos, medos e coragens, com corpos por costurar em mim, neste mim que em mim, profundo, esconde-se de tudo, pequenino. Desmembrado, rasgadas as partes sem nenhum cuidado, sem capricho. Tudo, de repente, cortado como a um mutilado, como corpo sem autópsia. Morto? Mas corpo ainda, sem destino, sem ação porque no aniquilamento foram-lhe cortadas as pernas. Para onde seguir, amor, sem corpo agora que seja seu, depois de aberto em flor e de rasgado a dentes espumantes, ódio pútrido? Houve a onda em fúria, e se partiu na areia.

Tiro do corpo amputado, a mala fria sem cuidado, os frangalhos da empreitada. Não houve o que o corpo, nu e composto, pensou encontrar? Há ainda algum corpo a vestir os sentimentos que, embolados e sujos, saem, um a um, da mala, para que agora, em casa, protegidos, possam ser lavados, perfumados, pendurados nos varais? E o segundo vigilante guardou o movimento da onda quebrando na areia, recuo das águas que não percebi porque mirava relaxado as estrelas, quando na sombra da noite o mar partiu camisas, mala, corpos e palavras? O segundo, será que ao menos o segundo teve piedade quando a onda partiu tudo cheia de ódio e fúria, barulhenta na praia dos destinos, sem nenhum cuidado ou gentileza? Guardou o segundo do quebra-mar a memória do vivido?