segunda-feira, 16 de setembro de 2013

o segundo motocontínuo

as madrugadas de domingo, as tardes de quarta, maio, a segunda quinzena de novembro, o dia de pagar o aluguel, a hora do almoço, a viagem na família, o embreaga-te, a mesa laranja, a máquina de escrever, o canto da coruja, joão gilberto, a valsa vazia, a ante-sala madrugada, a janela sob a cômoda, as pombas no meio-fio, os restos de carnaval, o liso do sussuarão, o habitar, as declinações do grego antigo, os sinais vocálicos do hebraico, o tempo verbal, o giz, o grito de gol, um beijo no guardanapo, um bolero ruim, um texto ruim, o passar deste rio.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Ouro Preto, um mimo


Quando não mais se tem saídas e quando o caminho parece um eterno círculo com muros e pedras, surge Ouro Preto, ao sol do fim de inverno, vestida para a festa cheia de mimos. Com tecidos, rendas, anéis de vários lugares do país e do mundo, com sorrisos de dançantes na praça às três da madrugada, a cidade fez sair – como é bem de seu feitio – arte de todas as paredes centenárias. E arte é como café com pão, arroz com feijão. Deve alimentar a vida todo dia, seja no livro que carrego comigo, nas músicas que ouço em casa, na arquitetura secular preenchida com suas pesadas sombras. Ouro Preto alimenta pelo simples fato de estar lá, exposta ao mundo em suas ladeiras, trombando com os idiomas todos, suas misturas e seus encontros cheios de novas experiências, de conversas de madrugadas inteiras sobre aquilo que sustenta os túneis subterrâneos da cidade.

Foi no silêncio do sono das ruas do Antônio Dias que o círculo, enfim, se desfez. A possibilidade de mais, fome insaciável desta última busca, está lá, enaltecida e resguardada, à espera de quem a descubra como quem lhe arrancou ouro. Nas dobradiças das janelas, nas placas em frente às casas, nas padarias, nos becos, em seus museus e templos, seus fantasmas e histórias. Encontrei a rachadura no muro do caminho e lembrei o que buscava no início da empreitada: saciar a vontade de mais, de alguma forma, com muita arte.

Só a arte refaz as pessoas, cria as possibilidades de mundo passíveis de habitação, de contato, esta imensa praça de convites. Achei a praça da arte e enquanto ouvia uma banda da Jordânia (que passa por período tão complicado), comentando sobre o perdido show do Madredeus com uma mulher muito mais fã do que eu, (conversa que desdobra, buscando a Lisboa aspirada, o fado de Mariza, de Cristina Branco, de Dulce Pontes), entre uma e outra observação do arranjo das músicas orientais, cheguei, depois, com passos mudos na madrugada vazia no bairro de Aleijadinho, ao ponto em que o muro se desfaz em pó: a escolha de tudo começa, sempre em mim, por onde aponta o norte onde a arte é guia.