sábado, 25 de maio de 2013

Porque o Corujão




Eu tenho me visto pela cidade. Vi a mim mesmo nos olhos de uma vendedora de loja que lembrou-se de que eu vendia, nas tardes de há mais de 12 anos, salgados e doces. Vi-me nos olhos de Cabeça quando passei por ele no Jardim e ele fez a mesma referência, com abraços calorosos de quem não se vê há quase 7 anos, desde um acidental encontro no Maleta. Este mesmo eu que encontro pela cidade também surgiu-me quando encontrei Cíntia, meio-dia, no Jardim, e se eu fechasse apertado os olhos, veria um banco onde as meninas todas estavam sentadas chamando por mim para comprar salgados depois da aula. Laura lembrou uma frase daquela época, que ela não viu, mas que ela adorou a história, de como conheci Ana Luíza em meio a sanduíches naturais. E foi a isso que Boy e Aline fizeram referência quando me convidaram para padrinho, e Aline lembrou do apelido há poucos dias.

Esta é a imagem minha que mais tenho revisto desde que cheguei: a época em que vendia doces e salgados pelas ruas. O apelido voltou cheio de ternura nos lábios de diversas pessoas! Ontem, tudo isso se resumiu nas lágrimas de Marcele. E o Corujão, lugar onde tudo sempre acontece, me deu mais esse presente. Marcele chorava porque me via depois de 10 anos. E lembrou tantas histórias, e se explicou para os presentes conhecidos tentando transmitir o sentimento. Dois velhos amigos que há muito não se viam numa mesa de bar onde tudo um dia começou. E ela lembrou do tempo dos salgados também, contou do seu momento presente, rimos daquela época e nos descobrimos vizinhos, nesta Passagem que sempre me surpreende.

Ainda não tomei um café na casa de Mãe Dôra, ainda não fui ver Tetê, ainda não vi a Lourdes (que espera não só a mim), ainda não tomei uma Brahma com Vanessa, Costilla chega essa semana próxima, Fabrício aparecerá qualquer dia, preciso ligar para o Fernando, preciso andar de trem aqui com o Welber, mas ontem, depois que Marcele chorou ao me ver sentado sozinho esperando Pedrão chegar, queria ter visto todo mundo e pensei que, como a noite já era mágica, que Edmar chegaria depois de sair do Sagarana, que Giu pediria uma dose de vodca, que Ana, Maguinho e o Boga gritariam na porta, que um violão chegaria nas costas do Dudu, que Clarinha chegaria com o sorriso imenso cheio dessas alegrias que transbordam em lágrimas no Corujão, no que existe além dele em mim, na sua continuidade nas ruas, nas calçadas centenárias.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Dos mapas



Chegar para partir não mais para outro lugar no mapa, mas para outro lugar em mim, entre as costelas, onde há frio como lá fora, onde há espaços ainda sem muito nome e nem muita função. Nos novos espaços, há choques constantes de tempos e de palavras, de verdades nunca sentidas – se é que verdades são, do que duvido – no fundo onde é tudo duplo: as ruas por onde passo, os contato com velhos conhecidos, o apreender os novos sem delimitá-los. Geografizar tudo em mim, desenhando um outro mapa e tecendo uma longa manta a que chamarei, outra vez, Minas Gerais. Nela, nem eu, já acostumado ao som das ondas, nem os livros, carregados ainda de grossa maresia, nem os móveis, habituados com o passar das tardes no calor, sabemos mais ao certo que lugar no mapa ocupamos, se de fato ocupamos mapas e lugares. Um longo vitral lilás nas manhãs frias explica a necessidade maior de café e cobertas, mas não explica as montanhas e o espinhaço, o sol batendo nas rochas. O frio é satisfação e não maltrata mais as mãos, há muito castigadas pelo tempo, mas não passa no turbilhão, no vento, nos nós dos dedos, na dor incessante no ombro esquerdo. O rosto no espelho não entende mais o que é o novo espaço urgente e intenso em um tempo de calma e contemplação. Sim, é tempo de contemplar por horas o pequeno rio. Mirar nele o espelho fluido e constante que é um conjunto difuso de explicações. E o rio me mostra que é preciso reaprender o outono no lugar estacionado no calendário. Decifrar o frio e o fio e refazer toda uma linha de pontos dados porque os nós estão se anovelando. O novelo aumenta, tropeça no bordado e em adjetivos. Tropeça em mim cada um desses nós que não podem buscar ouvidos ou pretendê-los no movimento incessante de intensidade, onde tudo é mais urgente; onde eu, que não tenho tanta urgência, ocupo a espera de outro mapa sem saber se no mapa ocupado há nomes e veredas, há a quem buscar abrigo na alvorada. Neste mapa, quem sabe se existe, e no outro, que não sei se existirá, haverá outro manto que é Minas, ainda não tecido nem experimentado, refeito no rosto que já tem, estranho rosto que já foi meu, um eu que agora vaga na noite em busca de outra face. Contorcer o rosto para nele caber os tantos mapas, as linhas da mão que nada dizem, os astros sobre a cama nos vidros sem palavras das janelas. Enredado, deito e contemplo o mapa do céu, com a colcha na mão, ainda sem saber se é manto, capacho, mortalha ou estandarte. Branca, sobretudo, pois não retirei dela as cores que a ela alinhavaria, as que aquecem, de fato, o que existe de cru nos riscos das calçadas, dos vícios das pedras vasculhadas deste rio. Então, desteço as noites e os dias sem ainda ter tecido coisa alguma, mas sabendo sempre que o primeiro ponto é rio.

terça-feira, 7 de maio de 2013

outrem


passageiro de mim desembarco
desse trem só movimento
no outono estacionado pleno em nada

teço o trilho azul que segue além
ao som de um rio decomposto
coberto de anilina e falsa forma

percebo neste trem do qual despeço
a peça pulsante de sentido
proposta pela máquina adiada

feita de delírio e triste espanto
na corrida desmedida, só mistério,
do que antes já foi vida e é resposta

condenso o trilho azul transpondo a linha
que divide o riscado das palavras
para trazer em mim o mesmo

que perdido já é falta
na paragem deste trem, som do vazio,
soltam ao ar as folhas deste outono

lugar que marca a ida e desencontros
na constelação contrária de um lago
onde miro o que em mim é outro dia


Passagem de Mariana, 7 de maio de 2013.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Das perguntas


Hoje tenho mil perguntas, menina. Chegará o dia que nem mais perguntas terei, tão grandes elas se tornaram. Ainda tenho perguntas que cabem nas palavras, mas sei que chegará o dia em que as palavras não mais serão uma opção, nem os gestos, e as línguas não mais poderão dizer o que pretendo de uma forma simples e limpa, como o descascar de uma fruta. Hoje, menina, ainda posso, quem sabe, esboçar um sorriso diante do medo da pergunta, sem saber ao certo se a pergunta que me provoca o sorriso me causa outra pergunta ou me assusta tanto que não posso senão ter com ela uma reação de convidado de sala de chá. Enquanto tenho perguntas, tenho dedos, olhos, mãos e sabores e mil ondas, uma quebrando sobre a outra e nas outras ondas outras formas de saber (que não entendo), como aquela conversa sobre a nobreza potente e divinal do mar que resume as metáforas da criação em ferro, sais e água. Enquanto tenho perguntas, posso ver nas chamas suas muitas cores a que chamam cores de chama, as brasas dos cigarros carregados de poemas de Bandeira, o vício dos antepassados de Pantagruel. O problema, menina, é que perguntas nunca sessam de perguntar, como crianças travessas que nos puxam as barras das calças. É preciso novamente jogá-las para o ar para caírem em minhas mãos com largos sorrisos para, em breve, ver-me envolto de crianças querendo o ar da discussão a me puxarem violentamente as calças e eu ficar, por fim, nu diante de todas, com o mesmo sorriso de sala das primeiras perguntas. Enquanto ainda tiver perguntas, ainda tenho um rosto ao espelho que duvida, sempre, da idade que quer ter a barba, que duvida sempre se é água mesmo o que sai da torneira, se é dia o que entra pela janela do apartamento. E se entramos em saber o dia, a aguá e o apartamento, entramos em saber mais do que é tudo isso além de tudo isso e para tudo isso há subterfúgios e quartos escuros, há sempre o debaixo da cama. Mas não sei se há embaixo da cama o debaixo da cama enquanto pergunto o que me pergunta a pergunta e de qual abismo eu falo quando falo do abismo da mesma pergunta perguntada e tudo por fim é complexidade e cor e densidade e brilho e fascínio e olhos e uma torneira aberta de um homem a se barbear. Enquanto houver torneiras, menina, pode ser que eu tenha um rosto para além das águas, da espuma e da lâmina.

Das palavras


O que fazer quando há palavras nos poros, nos dedos dos pés, nas paredes brancas da casa, nas janelas? O que fazer para pegá-las, colocá-las todas em seus tantos compartimentos e subdivisões – nas suas cores, seus contrastes, seus pesos e medidas – e organizá-las em horas de conduta como se elas, alunas respeitosas, fossem capazes de entender o sono, o silêncio, a hipocrisia sadia dos lugares de convite? Como fazer quando as palavras saem porque é preciso o tecido cheio de nós, e em cada nó uma pergunta e em cada pergunta outros tantos nós, como uma caixa de fundo fundo de onde brota grosso e complexo novelo que nada mais faz com a vida do que torná-la mais complexa? O que fazer quando é preciso dividir as palavras – no tempo, no branco da página, na lousa, na cama, com as pessoas – e entender que existem palavras de bom-tom, palavras de uso diário como minhas camisas, palavras viciantes como o ópio, palavras que só podem ser ditas à meia luz e ao pé do ouvido? E se elas, todas, desrespeitassem certas normas de conduta, estariam por fim soltas da velha sintaxe, essa amarra maior que nos prende e que as obriga a voltar, emudecidas, aos seus lugares na gramática? E se as palavras, revoltadas, implodissem a gramática, a sintaxe, a práxis, a ortoépia e desse a todos esses termos nomes de flores, de belas cenas, ou só grossas cores e densidades? Se as palavras, saltadas de tudo isso, sem sintaxe e gramática, pudessem ter mais sabor que as frutas, mais aromas que os perfumes, mais sal que o mar, estariam elas nos abandonando por fim? Será que só nesse fim, onde as palavras podem, enfim, se verem livres de nós e das línguas, das letras e dos sons e dos gestos dos surdos e dos dedos dos cegos, será que só aí elas parariam de sofrer e nos deixariam em paz, como são as cadeiras, as conchas, as colchas de retalhos, um lápis?