sábado, 19 de janeiro de 2013

Do amor, II

Como saber do amor além de seus contratos? Além de seus mais leves anseios e mais profundas formas de tranquilidade? Além de nós dois, expostos sobre as velhas sombras que nos acompanham pela vida sem razão aparente, esta forma insdispensável que nos contrapõe ao mesmo êxito? Como inaugurar o amor além de nós mesmos, problematizá-lo, digeri-lo, se nele estamos imbuídos ao contrário acordo que firmamos com os passos, com os objetivos primeiros dos nossos passatempos, do nosso rumo mais válido entre o sim e o sim? Como pensar o amor além da sua miséria maior, cheia de vontade, de nosso melhor espaço de sono e nossa pior verdade de ausência, quando nenhuma palavra anseia ser, por fim, ela mesma, plena de razões, quando não entendemos as velhas posturas daquilo que nos extrapola, do que nos está além em todas as suas propostas mais básicas, mais indistintas? Como delimitar, por fim, um amor possível dentre todos os que experimentamos na tarde, no fim de mês, no sábado pela manhã, no banco? Como amar na cidade que não comporta mais nada e onde os sons são abusos; os aplausos, provocações; as manias de sentir, coisas perpétuas? Como, enfim, amar a potênica que o amor nos delega, a potênica que existe dentro da palavra, seu sal e seu mais?

domingo, 13 de janeiro de 2013

dos versos


A máquina de escrever trabalha incessantemente em algo que ainda nem tem forma, mas é em verso bruto que precisa de gaveta e lapidação, de tempo – muito tempo – como os que eu deixo guardados nas caixas espalhadas pela casa. Há então a busca por outros versos, mais leves e de força. Nos versos laranja que a Vanessa escreveu e que não mais tiveram versos sucessivos. Nos que escrevi sobre a foto de Joana, nos que Fabrício traduziu – em bela e aventurosa tarefa, e que tem exemplar dedicado a Edmar aqui esperando o caminho dos correios, a postagem urgente que nunca acontece e que incomoda a mim por não fazê-la cumprir seu destino. Há também os versos da tese, o que está no pulso da Ana, os que escrevi para ela e que ainda não foram postados, dedicados, remetidos. E os versos todos se aglomeram e enchem os pulmões de densa neblina e fumaça. Querem sair, urgentemente, como o vômito a que Gullar comenta no prefácio do Poema sujo, ou como as ondas dos versos de Neruda, ou como as partitivas e desenhadas palavras dos densos poemas de R. D. Laing. Dentre os versos que se acotovelam nos pulmões, entre a neblina e a busca pela liberdade, um açucarado verso de Césaire: “Le sucre du mot Brésil au fond du marécage.” Césaire, que ainda espera uma tradução corajosa e aventureira, que merece estudos e que quase ninguém conhece no Brasil. O martiniquenho que tem belos versos sobre o samba, que põe nosso batuque em sua lírica. E Césaire tem ficado junto com tantos outros versos neste balde de vontades que não me abandona os pulmões, que não se resolvem! – se é que versos se resolvem algum dia. Nem o mar resolve esses versos. Quem sabe jogá-los na água salgada do mundo, como diz João Cabral, mas não para tirar os que boiam. Para ver os que afundam numa turva água do mar. Para ver qual deles germina no meio do sal e que, potente, cresça varando o leito das águas, chegue às nuvens e viva qual planta carnívora que vai, por fim, nos devorar.