sábado, 15 de dezembro de 2012

voltar


pôr meia dúzia de brahmas para gelar, o chegar de velhas embarcações. voltar como quem parte pão aos sorrisos, nossos segredos sobre o pano do almoço, no fundo de muitos copos que espalhamos pela casa. voltar as músicas, as agulhas das vitrolas, as fitas, voltar as costas dos livros para ler as contracapas, ao que esquecemos numa tarde de sábado, aos bancos do jardim, à velha praça, às pedras da rua. saber o sabor das palavras velhas que voltam como os nomes de esquecidos rios, velhas miragens e senhoras sentadas às sacadas, rendas ao colo e bordados do sem fim. voltar porque é preciso tomar a decisão de sair, como numa odisseia sem fim em que a vida, enfim, é a busca final, o fim do beco, a rua cruzada por gente e pelo fogo dos velhos habitantes. voltar como se fosse possível refazer o trago do cigarro (que se recomporia ao invés de se deixar cinza), para de novo acendê-lo, trazê-lo ao lábio, apagá-lo para recolocar no bolso de uma camisa também deixada de lado. voltar porque o tempo do relógio, sempre cíclico, e o da folhinha, sempre em linha, pedem a outra volta, a outra página, para que de unhas e mãos sujas de manteiga marquemos os dias que ainda virão, as palavras que usaremos para agradecer e pedir, para dizer que ainda amamos, sobretudo, o que sobrou de nós mesmos depois do tempo e dos destroços, do que escondemos nas salas e gavetas, nas fotografias antigas ainda em papel que só desbotam. no fim de tudo nosso fundo é sempre um voltar.