sexta-feira, 20 de julho de 2012

cubo


dentro de uma casa uma causa de casa. por detrás das janelas as palavras, escritas sobre a paisagem do dia. por dentro da janela a casa que causa outra casa na casa mesmo do agora, esse chão desdobrado em mim, onde se deita quando é frio e quente, quando a fome é urgente e a plenitude é clara. onde as mãos podem se tocar sem pressa porque o chão não traz o tempo nem os relógios nem os enfeites de uma casa, seus quadros e sua mobília. uma casa simples, no sim que causa a casa no mais.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

o apartamento

o apartamento é antigo e não está preparado para a pressa, para a necessidade de tomadas, de cabos pela casa. é amplo porque antes as pessoas andavam nos apartamentos, comiam juntas, conversavam e não só dormiam como hoje. são grandes as janelas porque antes era preciso que entrasse o ar para refrescar o calor da cidade, o sol inquietante e dourado do atlântico. também se ouve pouco das conversas dos outros apartamentos porque no seu auge ainda a vida era reservada, ainda era preciso ter sigilo, diferente de hoje, com tudo exposto nos muros de cidades sem pessoas. 

já não fazem mais chuveiros ou estantes boas ou lubrificante de janelas para o apartamento. não pensam mais na quantidade de tinta necessária, cada vez em menos quantidade para grandes cômodos, nem móveis que lhe sejam graves nem estantes pesadas para o sempre. não há mais para o apartamento camas de gerações, talheres de gerações, coisas com a história de suas imortalidades, coisas perpétuas como ele, sofrendo com a nova demanda.

ele nem é tão eterno quanto as construções anteriores, de grossas paredes centenárias. jovem, é tão obsoleto nas construções e não pode se aposentar como as antigas edificações, como os antigos templos da cidade, ou trocar de função como antigas casas tornadas museus. um jovem senhor que sofre por não achar mais coisas tão duradouras, tão perenes, sentido como os homens sentem o tempo e percebendo que também pode ele, um dia, desaparecer da cidade, sumir da paisagem e receber como seus mortais habitantes a certidão de óbito, para que no lugar onde ocupou possam nascer outros tantos apartamentos menores, sem tantas janelas.

sofre porque me ouviu dizer que prédios inteiros somem em outra cidade. somem as fachadas imponentes, os estilos arquitetônicos, o rosto urbano que estamos acostumados a ver. ele pode sumir como sumiram lojas, barracões, casebres, um conjunto inteiro de casario da Lagoinha para que ali os carros passem, deixando seu espaço para a urgência e para o tempo. sofre o apartamento com as novas urgências e reformas, das cirurgias que sofre para ser sempre jovem e por isso ser ocupado pelos novos habitantes, preocupados com toda uma parafernália pública e eletrônica para a vida.

enquanto morrem as casas como os homens e o apartamento sofre e teme com a idade, além do apartamento, ainda fazem velas de cera, ainda é possível escrever nos vidros das janelas as palavras que precisam ser ouvidas e compartilhadas, ainda um aposentado capitão de mar e guerra reclama o cansaço do mar, bêbado como cabe aos antigos marinheiros, perdido entre outros seres de outro tempo em uma cidade onde as ondas ainda viajam lentas pelas águas do mundo, transformando rochedos em areia.