quarta-feira, 7 de março de 2012

O que o ICHS tem



Não, eu não sei o que o ICHS tem. Sei que nele há uma força subterrânea que nos prende pelos pés. Talvez seja isso: pisar um chão tão antigo quanto Minas, fundamental e fundador. Sei que meus pés aprenderam e apreenderam o chão de pedra e ainda aprendem e apreendem velhas lições que ele lhes passa, tal como a tentativa de decifrar um grande enigma (antes de entender o que não ouso saber) na leitura imprecisa do que está nas pedras do chão do antigo seminário, da vazia capela.

Esta força subterrânea, silenciosa, entra em nós com a lentidão do mofo contra o qual, lá, tanto brigamos. E nele, no mofo que por fim nos toma o sangue, buscamos algumas linhas que ensinem o que é o eterno aprendizado.

Leopoldo estava certo: no ICHS aprendi a aprender para exercer esse aprender por toda a vida. Aprender que a literatura efetivamente pode tudo em seu silêncio, que o nada é a maior das potências, que loucura é palavra vazia de sentido.

Acho que é o mofo que nos ensina isso, enlouquecendo-nos aos poucos, silencioso, no contato real com o irreal e intermitente, transformando corredores, o redondo, a biblioteca, em princípios aos quais sempre retornamos, sem uma compreensão precisa.

Talvez seja isso que nos faça ir até lá, dizer (de alguma maneira) que somos gratos a tudo por tudo, do melhor e do pior que nos aconteceu. Por isso, tantos dos que passaram por lá entendem que se pergunto se eles ainda sonham com os corredores, com as salas, com o Instituto ou com a extensão dele – as nossas casas – é porque sei, de alguma forma, que eles responderão com o mesmo enigma: sim.

fiquei em silêncio porque o tempo é um companheiro estranho, de muitos braços. faz com que eu aponte rostos de amigos que estão em todas as partes, em outros tentáculos, mostra-me meu próprio rosto. silenciei-me porque o tempo é grande, o grande mar de muitas outras idades que eu não consigo digerir. quis por muitas vezes reviver um momento de fotografia ou saborear duas vezes o mesmo gosto das palavras. é preciso dividir sílabas, mas não o tempo das fotografias ou do som ou mesmo o tempo destas palavras. silenciei-me porque a secura insossa é sempre mais forte, é de cal. cola as palavras umas nas outras, argamassa. sentia as palavras sumindo sem sequência, uma a uma, até dizer isso e saber que nada as traria de volta, nem o mar que tudo pode trazer à praia. sinto que o silêncio se estenderá por uma vida inteira, incapaz de vencer essa fome imensa que tudo devora, saindo por entre os dedos do medo que eu não consigo conter diante de tamanha força. a força bruta que é mais que aquela que dizem as canções ou os poemas. e estar em silêncio, mergulhado, é como sentir o profundo silêncio das águas, no íntimo divino que bate no fundo do mar.