sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

seis pedaços


este silêncio partido em seis pedaços é o que te oferto com as palmas das mãos e os pedaços se costuram numa grande teia, legião de formas dissipadas nas tardes de vontades repartidas. saiba das minhas manhãs como recados, baixos recados sussurrados nas sombras das noites, nos holofotes. saiba que no não cabem todas as possibilidades de talvez. ao sim nada contempla porque o sim é a mais forte das palavras. eu te costuro nos seis pedaços que lhe oferto na busca pelo quem sabe, perdido em um nó que não se fia, embolado carretel de transparências. eu aperto o nó sem ousadia, trocando a forma sem medida pelo resto de voz que soe, outro sussurro na noite imperiosa das palavras. como cores que se comem, as vírgulas nos formam como páreas sem disritmias em concessórias densidades que se cobrem. neste só, os caminhos que criamos sobre as águas, no som que ninguém caminha, pisando firme o através. atolados na lama dos carinhos nos sobra o claro lado onde as flores do tempo são as chagas da vaia, as caras mordidas pelos dentes canibais. canibal é meu silêncio guardado no sétimo pedaço que não te oferto, quebrando-o na mão fechada, feito giz. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

dos guardados


Na capa do livro, a música ouvida em tantas madrugadas. Na folha de rosto, a letra de tantas cartas de envelopes coloridos, guardadas numa pequena caixa. A capa do livro também já esteve dentro de uma caixa, colorida, cheia das letras que estão nas cartas com as palavras dentro do tempo. Na fita k7, o som da voz rouca vai sumindo e ouço, como num túnel, as palavras que já foram limpas de ruídos, a música da capa do livro, as músicas dentro dele, dentro da madrugada. Manchados os rostos nas antigas fotos guardadas em outras caixas, de outro século, numa época em que ainda se trocavam fotos de papel. No verso de uma foto, as palavras manchadas de vermelho que carreguei por anos. Na casa, as marcas dos presentes do passado: outras palavras, canetas que não riscam mais, a memória azul de uma camisa, um antigo cordão. Numa pequena lata de balas ficaram guardados os recorte de papel vinho com letra prata. Tudo para que, quem sabe, ela possa ver como andam as coisas pelas coisas do tempo. Tudo para que, quem sabe, ela ainda possa rir de outras palavras. 

sábado, 14 de janeiro de 2012

para


Faz de conta que hoje é como um velho dia e que a maior das verdades está dita e que não mais há espera e que a calma nos comanda em meio. Fecha apertado os olhos e tente lembrar da noite que nunca acabou, que se prolonga entre as sombras, nos becos da cidade e mande outras palavras despretensiosas que chegam sem propósito carregadas do azul do mar. Faz de conta que talvez o lençol ainda tenha seu cheiro e venha conferir, quem sabe, se eu digo coisas sem sentido como todo dia. Confira sem parar caixas de e-mail, caixas de correio na ilusão de receber um retrato prometido que talvez nunca chegue e permita que o pequeno suor dos dedos umedeça mais que o suor das noites que passaram e entenda o haver do menos, sempre, em cada som. Conjugue o haver, o ter e o através em tudo, que é neblina, difusa, na manhã desbaratada, naquela janela que guardou o ruído das montanhas, nos vidros foscos de ontem. Faz de conta que há uma colcha imensa a destecer na madrugada e espere a chegada ou que há um papel imenso a escrever uma carta e escreva em rolos intermináveis, num pedaço estreito de guardanapo. Faz de conta que só sobrou uma luz acesa depois de tudo, diante de uma porta que não se abrirá e guarda, enfim, o imprevisto que existe no maior dos verbos divinos: o mas. 

domingo, 8 de janeiro de 2012

Da lama



Foi de lama, sobretudo, o verão e seus desastres repetidos, seus barrancos fazendo sumir por debaixo bairros inteiros, casas, vidas. Foi de rios tomando as ruas e enchendo até à meia altura as paredes, a vida daqueles que pagam caro as viagens de férias dos políticos. De muita chuva ainda é o verão, chuva devastadora que inundou o ano catastrófico que terminou.

Debaixo d’água tudo: o direito de se manifestar, de pedir, de reivindicar. De reclamar dos altos preços das passagens, do vexatório governo de Minas, da postura vergonhosa do governo do Espírito Santo, ambos impassíveis aos apelos populares que tanto mostraram à população – ou tentaram, pelo menos – de que lado estavam os culpados. Debaixo d’água a lama de uma imprensa que tudo encobriu – escândalos da privatização, o descarado descaso com a educação pública, com a moradia, com os movimentos populares.

Em um ano que casaram na Inglaterra um príncipe que pode nunca subir ao trono, na semana em que isso era a capa dos principais jornais do Brasil, Guantánamo recebeu destaque em um jornal espanhol e ninguém nas Américas comentou o fato. Enquanto a primavera árabe era notícia na Globo, estudantes apanhavam em Vitória, professores em Minas Gerais e uma pequena nota de fim de jornal pintou a todos como baderneiros.

Não reclamem da chuva de verão. Mesmo repetindo um filme antigo onde milhares de desconhecidos efetivamente perdem tudo o que a custo conquistaram com muito trabalho, nossos ilibados governantes curtem o sol no Caribe. E a lama podre de depois dessa chuva ficará nas nossas ruas, em frente a nossas casas, reflexo de um país que trata o povo como uma grande porcada que será sempre morta de véspera no Natal do ano seguinte.

E no fim, outros engravatados subirão aos palanques deste ano dizendo não ser de lama seu passado, ancorados pela mídia que desde sempre nos quer convencer que neste país quem reclama é que merece ser calado, nem que seja pelas lágrimas sobre seus destroços cheios de lama. Pois é de lama todo ano,ou pelo menos o fim do anterior que ainda segue, lento, destruindo tudo.