segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Para o velho jagunço


Nos dias de Minas, a lembrança sobreposta em ciclos das coisas que se congregam ao pé das montanhas. Esquecidas das imprecisões do tempo, as tradições se repetem, os passos se abrirão na Páscoa para venerar o Cristo Morto, as cidades tocaram seus sinos na meia noite de ontem.  Separadas no tempo e no espaço, as quitandas do mercado cheiravam a fumo de corda e pequi, como desde a minha infância nesta época do ano, e aprendi em São Paulo, com o Campelo, outra receita de comida mineira.

Em São Paulo, com farta surpresa, estive em Minas profundamente, com amigos de todos os lugares do país. Em longas madrugadas, em dias de festa, outro rito mineiro, profundo e ancestral, refez-se pleno da alegria comum e farta, sacramento que civilmente se cumpriu, enchendo de outras veredas a vida de um velho jagunço que não mais peleia sozinho. 

Descobri que há mais de Minas além do Equador, no frio canadense, num telefonema transcontinental que nunca antes recebera. Lá, onde o velho jagunço campeia na neve, noutro sertão de gelo e de veredas, outras tradições de fé, outras quitandas e cheiros distantes desta terra castigada pelo sol de dezembro, de seus buritizais imensos. Semelhante ao que vi de Minas na Europa, em outros lugares e cafés, onde as pedras de Ouro Preto são vendidas em grandes magazines de Montmartre. 

Presos nós todos, além das montanhas, no que nos liga a Minas: o sabor da amizade que existe mais forte nos olhares, na colcha de vírgulas feita de retalhos de nós que presenteamos uns aos outros quando, em breves e intensos momentos, revemo-nos mais velhos, mais seguros, mais intensos de saudade.