quarta-feira, 27 de julho de 2011

Cor de baião






e amor: termo-absurdo
posto em pele
e marca

e cifra desvairada
letra-fome
e não

e cores desfocadas
sal sem poda
e flama

e curva em cor-saliva
falso nada
e chão

domingo, 24 de julho de 2011

receberei outros castigos
outros espaços
outras quimeras

ou ficará esta sombra fria
esta cabeça
esta pilhéria
das verdades sitiadas em seus enigmas
meus versos soltos
outras ideias?

sábado, 23 de julho de 2011

Dos dados

Nas paredes onde moro, o torto caminho construído sob os pés, o sorrateiro sorriso que compõe o rosto, o jeito de ser sob as portas e as aldravas.

Nas conversas colocadas sobre as tábuas de chá, os dados jogados em pano verde e esquecido com sentimentos: destino que junta em pequenas mãos os desatinos e devolve à mesa o sempre.

Na possibilidade de hoje, as paredes que toco formadas pelo acaso dos dados lançados, do espaço arranjado entre o destino e a mão aberta, o lance como se a gravidade impedisse que os dados caíssem: eterno voar do desejado.

Por isso, dentro dos dados, os meus passos e, à janela, os restos de mim que tanto me atormentam. Com mãos no pano embalo a vida que esquina a esquina dribla a morte, convidando-a para outro baile de máscaras, caindo aqui ou acolá nas dobras do vestido, sem terminar, a esperar os dados.

Olho o translúcido laço, o dado ainda no ar: quem virá nos números que sairão? Qual número cairá neste dado que não guarda o sétimo lado exposto, mas interno, seu enigma?

Até lá, ele gira em suspensão, lento, enquanto o meu passado recolhido deixou o pano verde, as apostas, os dribles.

sábado, 16 de julho de 2011

Minas além do som


“Ninguém sabe Minas. (...)

..........................................

Só mineiros sabem. E não dizem

nem a si mesmos o irrevelável segredo

chamado Minas.”

Carlos Drummond de Andrade – A palavra Minas



Há alguns anos, eu e Costilla víamos o dia 16 de julho nascer em Ouro Preto, no Largo das Flores, com um foguetório, depois de fecharmos uns três bares. Há mais tempo que isso, via numa tarde de um 16 de julho todos os reis congos da região dos inconfidentes se reunirem na Praça Minas Gerais. Nessa tarde, na Padaria Lafayete, o Rei Congo de Mariana entrou de manto azul e tomou um café de pé, e eu prestei reverência a sua majestade e à Rainha, tomando meu café de pé junto com o Rei.

Aqui em Vila Velha, neste 16 de julho, vi o dia nascer ao som do mar, longe de Minas. Olhando o morro do convento, tentei imaginar a Penha multiplicada, fechando com um cinturão os arredores da baía de Vitória para transformar um pouco desse chão capixaba na Serra do Espinhaço. Ou antes, que o morro do convento se alargasse, múltiplo, no mar que meus olhos estão mais acostumados, de ondas verdes para o sem-fim, de espumas de nuvens de manhã. Distante do mar de ferro de Minas, que vara a todos nós dentro e fundo, meu coração acuado, criado aos pés da Serra do Curral, encara o tímido penedo, o tímido Mestre Álvaro, o tímido morro do convento, fins das ondas de Minas de quebram em espuma o mar.

Sem que meus pés possam sentir as batidas do chão de ferro, distante dos fogos, dos reis e rainhas de Minas, hoje meu café é mais doce, tem mais água na moringa, tem queijo, tem cachaça, tem um pilão na sala, um santo no pescoço. Que soem os sinos, que se ponham rendas nas janelas, que os Reis dos Congos de Minas ponham seus capitães, seus exércitos com chocalhos nas ruas! Hoje é dia de Minas, Minas além do som, Minas Gerais! É festa!

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Pelo fim da Ilha

Na janela sobre a cômoda, ontem, passou um paraquedas vermelho no céu azul de inverno. Era o fim. Vazia, a ilha acumulava nas paredes as marcas que as minhas coisas deixaram, o risco da cômoda que não mais ocupava aquele espaço e que nem teve notícia do paraquedista que nunca antes passou voando no azul.

O chão marcado ficou cheio de meus passos no pequeno espaço que habitei nos últimos anos. Refúgio e esconderijo, a ilha guardou conversas madrugada a dentro, amizades, noites de pranto e de alegria, misturadas todas nas lombadas dos livros, nas idas e vindas de amigos que por ali passaram.

Escondeu a ilha mistérios, muitos de meus segredos e imagens que se gravaram na cômoda, no colchão que pede troca, nas janelas que receberão ainda a brisa do mar, o sol-açoite de verão.

Fechada a porta, a ilha se desfez, levando consigo o tempo para outro lugar imaginado. Voando, partiu a ilha para encontrar outros que buscam, como homens do barco de Saramago, a sua Ilha Desconhecida, cheia de pessoas, fantasmas, sorrisos que bóiam na noite, palavras e promessas, sussurros e agonias. A ilha leva consigo o espaço, tornando-se, enfim, um lugar no tempo: lembrança devaneia como o paraquedas, traço vermelho no azul lambuzado de julho.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Das portas

A mudança traz as caixas e, nas caixas, eu mesmo em meus fragmentos, carregado dos meus passos. Para novos velhos, velhos novos espaços, cheios de medo. Na coragem, a cor do que toca, meus desejos, outras versões.

Quando tudo virar, outro sol nascerá. Sim a trilha sonora é Paulinho da Viola cantando Cartola. É samba, denso samba que traz a novidade, a cor do chão, uma casa com janelas para ventos do Atlântico, filtrados nos cabelos das árvores. Despenteadas, elas me disseram boas-vindas hoje à tarde, com prendedores de sons nos cachos: o que há muito não ouvia, outra fora de ver.

E muita água, muito sabão nas paredes, lavando minha alma, jogando meu novo cheiro no jeito das portas, nas paredes, concentrando nesse espaço outro lugar. Meus pés pisarão com cuidado esse novo chão sobre a cidade, suspenso para outras marchas, outros momentos em que eu serei outro, recolocado.

Sem mais: às caixas, vida! Embrulhados nas notícias, meus pertences frágeis, meus livros para amanhã, papéis em poemas, a pedra onde se escreveu saudade. Daqui a uns dias, o cheiro do café, a abertura, a nova cozinha: novas vontades de além-cais?