quinta-feira, 30 de junho de 2011

Do silêncio

Vou construindo o silêncio, aos poucos, com as suas mãos. Dedos contrafeitos, o suor é pouco mais que a agonia, que nós na noite: nossos medos e reformas – gestos de presença.

As palavras passeiam sem vontade e morrem cheias de espuma enquanto o lento silêncio construído ganha forma, corpo, resto de nós na tarde: luz de contra-tempo, gosto, contra-senso.

Neste inverno, seu silêncio toma toda a casa, na distância em que está: ultramarina. Além, onde velho vento trouxe o acaso, a lembrança do mar no frio da madrugada é de sílaba: sua pele, o dente, a mão, a curva.

Quando o silêncio tomar todo o espaço, sobrarão dois olhos quase negros, os traços das mãos, um cais?

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Do medo

Em nosso tempo, estamos exacerbadamente com medo. Há o medo das ruas, de sua insegurança galopante e de seu descontrole, o medo da violência – que em nosso século é muito mais desastrosa –, o medo das doenças, da morte. Todos eles estão ligados ao eterno devir. Teme-se o que pode vir a dar-se, a possibilidade de algo e não o acontecimento em seu momento presente. As pessoas temem a violência não porque ela é uma realidade, mas sim porque ela pode vir a afetar a vida da pessoa, a feri-la, a fazer dela mais uma vítima fatal. Teme-se a rua porque nela não é possível prever nada: estamos todos entregues a invariabilidade feroz da vida. Teme-se o sexo não seguro porque nele é possível que venha a AIDS, e se ela não vier, temos a imprevisibilidade dos filhos não planejados, e em nosso tempo as pessoas não são mais educadas para terem filhos e lidarem com suas constantes incertezas e mudanças: a entrega absoluta a que uma vida nova nos obriga por anos.

A atual geração foi preparada para a segurança e o conforto do controle absoluto. Dorme-se relativamente bem sabendo-se que a casa e a rua são monitoradas por câmeras 24h por dia, mesmo que essas representem uma invasão à privacidade. Isso porque a câmera combate o medo, sempre devir, com outro devir: nada garante que a presença dela iniba a violência, mas há a possibilidade da inibição com a sua presença, o que traz uma ilusória garantia. O mesmo se faz ao evitar-se o contato com a rua: sair em veículos blindados, distantes, num estar e não-estar na rua, inibe o devir da sua imprevisibilidade e, graças à confiança que devotamos ao funcionamento maquinal do trânsito (encarado como coisa e não como movimento), estamos seguros da possibilidade de movimento e de imprevisibilidade da vida pulsante que gira fora da ordem. O sexo seguro, por usa vez, tranquiliza-nos da incerteza do tempo que nos obriga a AIDS em seu trágico movimento. Além de nos proteger do que não podemos controlar – doença que é a contradição da auto-suficiência humana que hoje é capaz de controlar praticamente tudo o que rodeia a vida, do tempo da natureza à longevidade – a camisinha ajuda-nos a programar a vida, protelando sempre para o devir a possibilidade de filhos para o que acreditamos ser “o momento exato”. Claro que isso somado aos muitos métodos contraceptivos que existem, capazes de outorgar ao ser o poder divino de dizer quando, como e onde irá procriar, transformando a atividade em mais um item de agenda – como faz o ser com todas as suas atividades diárias.

Esvaziados da necessidade de encarar a imprevisibilidade da vida, desaprendemos os elementos bases da natureza. Com a possibilidade de agendar um parto, não nos preocupamos com quando ele pode acontecer, com a fragilidade dos tempos de gravidez como antes fazíamos, o que nos dá relativo conforto. Podendo nos precaver de doenças, estamos sempre a adiar ao máximo os momentos de felicidade presente para um apropriado instante que nunca sabemos quando e se chega. Controlando e monitorando as pessoas da cidade, criamos a ilusão de que podemos prever quando a violência pode ou não nos atacar, e evitá-la ao máximo. Com isso, as pessoas das mais novas gerações não sabem lidar com nada que quebre essa previsibilidade. Não sabe a atual geração lidar com o problema. Nele está imersa a imprevisibilidade e essa, impossível de ser aceita em nossos dias, é atormentadora. Da mesma maneira, não sabe lidar com os filhos, porque os seres humanos ainda são imprevisíveis. Não sabe lidar com a cidade. No meio disso tudo, desaprenderam a amar.

As relações interpessoais sofrem muito com esse desaprender. Amar é a total imprevisibilidade, inesperável pobreza. No amor, não podemos conter, regular, prever. Tudo está em constante mutação e depende de entrega, de entrar na fúria da vida e do corpo. Hiper-higienizados e controlados, os filhos mais ilustres da nova geração não suportam a desordem dionisíaca. Não suportam a dor dos ferimentos da alma, o correr-riscos. Trocam o amor e sua fúria, sua violência, por relações controladas de afeto, pensadas e medidas, analisadas paulatinamente e verificáveis nas ciências, aceitas pelos terapeutas: o amor da agenda que trará a felicidade narcísica que venderam durante mais de cem anos nas embalagens de sabão e de margarina.

Por medo, as pessoas fogem, mudam-se, dopam-se. Escolhem no mercado de corpos os que melhor lhe satisfazem, como quem compra tomates, pegam seus sujeitos e se sujeitam ao repetido e fugaz momento do uso, do corpo servindo à forma e à conduta, no agendável movimento do “amanhã-tudo-começará”. Se por acaso o amor surgir, suprimi-lo, com urgência, com quilos de soma.

Efetivamente os tempos do soma chegaram, como os do controle de 1984, mas muito piores, como já nos alertou Cortázar. E o amor, na luta constante contra o medo que impera, é vencido com anos de terapia, quilos de drogas manipuladas pelos caros laboratórios, para que as pessoas – eternamente doentes e vítimas do medo – possam ter a ilusão do conforto do controle.

domingo, 19 de junho de 2011

Das manhãs

Tudo novo, recolocado. Na suspensão, a calma expande o momento, reaproxima cotovelos na janela, fecha antigos paletós guardados, pisa sapatos velhos e esquecidos.

Os livros se multiplicam pela casa. Em todos, a urgência da leitura como se o mundo acabasse amanhã e fosse necessário salvar os ensinamentos para os próximos povos, os poemas que reeducarão o mundo. Há músicas de todos os sons invadindo ofensiva os ouvidos, como se para tudo existisse a urgência da nota que não ouvimos, guardada em caixas de escritórios. Para tudo há memória, enchendo perversa a mala de nós mesmos, carregada de pesos e mágoas que a custo arrastamos até a janela.

À noite, guardamos o segredo em quinta sinfonia: rompendo as cores dos astros, antigas metáforas do cosmos, tornamos o repetido recolocado – outro dia, como ontem e amanhã. Neste, tudo, pleno e indefeso, como a planta, o cacto, o algodoeiro. Tudo carregado de possibilidades na cor que avança céu à fora, sem medo das curvas – sombras que se escondem nas coisas.

Sem sombras, podem sair ao sol novos delírios, novas vontades. Nos olhos de muitos seres do mundo, na manhã, toda mudança é real e palpável, mais que possível.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Da importância dos movimentos populares

Os movimentos populares retornam às ruas do Brasil e pedem justiça social, melhores condições de trabalho e de emprego, direitos iguais, mostrando que a democracia se efetiva. Além disso, os movimentos trazem consigo a função de conscientizar a população de que o governo brasileiro ainda não sabe lidar com seu povo.

Seja na marcha pela liberação da maconha, nas lutas dos direitos dos homossexuais, nas reivindicações trabalhistas – sejam as dos metalúrgicos, as dos médicos, as dos bombeiros, dos professores – nas manifestações estudantis por melhores condições de educação e transporte, o direito máximo de reivindicação e de liberdade de expressão não foi respeitado. Mais do que isso, o Estado mostrou-se despreparado para o diálogo e preferiu, sempre, a violência, acreditando ser ela a melhor maneira de calar o povo brasileiro que volta às ruas.

Para aumentar ainda a problemática, costumes retrógrados de setores sociais vêm sendo incomodados pelas manifestações populares. Conquistando direitos, apontando problemas, questionando condutas, as manifestações sociais brasileiras deflagram uma casta da sociedade favorável à extrema direita, rançosa, fascista, que vem a público, lançando mão de velhos discursos, querendo convencer que calar o povo é proteger a moral e os bons costumes.

Esses setores, na figura de seus representantes públicos, acreditam que é uma conduta moral a de manter uma sociedade sectária, feita para castas e voltada para o interesse de poucos. Acham que os bons costumes são o povo apanhar e os eleitos se safarem de seus peculatos, de suas homofobias, de seus preconceitos de vária ordem e acreditam numa sociedade pouco democrática, interpretando “ordem” como a nulidade de reclamação e “democracia” como um governo feito por elites para mandar desmedidamente nas massas, seja pelo meio que for. Acreditam esses governantes que cercear a liberdade de escolha – seja ela sexual, política, religiosa e de comportamento – é a melhor maneira de governar. Para esta casta fascista, tudo o que não se enquadra, que não é possível de ser mantido por um poder vertical e dogmático, deve ser excluído do meio social.

As manifestações populares têm função importante neste processo: denunciar estes fascistas e fazer valer a lei que tanto precisa ser lembrada a todo custo: a de que o Brasil é um país livre, e a liberdade é o elemento primeiro em um estado democrático de direito e deve ser mantida a todo custo, nem que para isso seja preciso enfrentar o poder instituído.

Só com a volta dos movimentos populares, com o povo novamente nas ruas, poderemos garantir o estado democrático de direito e acabar de vez com esta casta que quer voltar aos tempos dos desmandes desmedidos, em nome de um discurso velho e ultrapassado.

Por mais que a mídia queira a todo custo convencer a sociedade brasileira que as manifestações populares são uma mostra de desestabilidade governamental, tais protestos dão ao Brasil aquilo que há muito o governo recusa: o direito popular de reivindicação, o poder democrático de cobrar das autoridades eleitas pelo voto popular que cumpram suas obrigações, governando pelo e para o povo de forma igualitária e justa, respeitando as leis deste país.

Por isso, a vitória hoje no Supremo Tribunal Federal foi a da liberdade. Por isso também o cancelamento por causa das manifestações estudantis do Fórum sobre a reforma eleitoral, que seria feito em Vitória nesta quarta-feira, com a presença do vice-presidente da República, foi uma mostra de que o Estado não sabe lidar com a democracia.

Cabe ao povo defender a liberdade. Então, é importante que fiquemos nas ruas e lutemos por nosso direito. Essa é, creio, a maior importância dos movimentos populares que aumentam em todo o Brasil e que se concentrarão na Marcha da Liberdade, dia 18. Todos representam um passo importante da democracia brasileira contra os velhos métodos de governar o país.

sábado, 11 de junho de 2011

De Dionísio

Há vinhos para certos momentos. Para levantar a alma, acordar os sentidos, alimentar, vinhos da Sicília, mais quentes e mais encorpados. Para os dias melancólicos, um merlot, mais azul, mais intenso, ou um bom vinho português, da Mealha, o vinho do chão dos fadistas. Para os dias de calor e caminhadas, um Chadornay gelado. Para as comemorações mais importantes, Champagne. Em todos, o gosto dos deuses, o sabor que aquece a alma nos domingos, a alma do deus roxo, Dionísio, em todos os lugares.

Como filho de Dionísio, deus patrono dos loucos das letras, completo o ritual sagrado, antigo desde os gregos, de marcar o fim de um ciclo com um bom vinho, pois Dionísio, no vinho que bebo, recheará o futuro que agora se apresenta com a fertilidade e o desvario que lhe são peculiares. Forte, o deus das loucuras e das artes, da fertilidade maior - a da alma - desorganizará tantas outras órbitas para reorganizar o caos que se forma nas coisas. Fechando o ciclo, longo e lento, Dionísio começa o novo, pleno do alimento maior do ser, aquilo que nos separa dos demais seres deste globo: a potência maior da criação que só à arte é consagrada.

Plenos da poiésis artística, damo-nos ao vinho como quem se entrega à farta divindade. De posse de nós, pode Dionísio dizer aquilo que segredamos, tirar do fundo mais guardado de nossas almas a delícia de nossos segredos, pôr todos em confissão desmedida, amando mutuamente todas as criaturas.

É pleno o amor quando Dionísio está em nossos corpos, pelo vinho. E pleno os outros sentimentos mais humanos. Plena a alegria e a tristeza. O vinho, capaz de mudar nossos sentidos, intensifica, graças ao seu poder divinal, tudo o que sentimos a fim de jogar tudo novamente no caos, tirar do caos e suspendê-lo no nada, trazer do nada refeito para a luz clara de Apolo, que dará aos seres um caminho ordeiro e retilíneo.

Desvio-me de Apolo sempre que posso. Entregue às forças do vinho, sinto mais o que o universo nos traz, na sua inconstante e perpétua mutação. Mudar, sobretudo. Mudar porque no cosmos tudo gira eternamente, porque corpos celestes surgem e somem e deixam no infinito suas marcas que recebemos mínimas na noite inteira de estrelas ofuscadas pelas luzes da cidade. Memória que contemplamos mudos: diante de um céu de estrelas, o brilho da memória se mostra potente como ponto de luz no firmamento.

Então, dou hoje mais um passo rumo ao infinito. Pleno de vinho - como muitas vezes sempre fiz e como sempre gostei de consagrar caros momentos (os mais importantes de minhas trajetórias) - ergo a taça: Evoé!

Sem mais palavras, que o néctar dos deuses cubra todo o globo e que Dionísio floresça sempre no corpo dos que o cultuam, mesmo em tempos em que sua divindade é tão pouco reverenciada!

terça-feira, 7 de junho de 2011

Carta aberta ao Governador Casagrande

Em caráter extraordinário, o Desde que o samba é samba quebra a rotina de sua publicação para tornar público o meu protesto contra o Governador do estado do Espírito Santo, Renato Casagrande e seu vice, Givaldo Vieira, que vêm, nos últimos dias, evitando resolver e dialogar de forma clara as reivindicações dos estudantes e trabalhadores da Grande Vitória.

Em declarada postura sectária e truculenta, o senhor Governador demonstrou nos últimos dias o desrespeito às esferas institucionais, deixando sua polícia militar e seu Batalhão de Missões Especiais alvejarem civis no campus de Goiabeiras, da Universidade Federal do Espírito Santo, território onde o Estado capixaba não tem poder.

Seguindo, o senhor governador não compareceu a nenhuma reunião solicitada pelos estudantes e trabalhadores, colocando para negociar, como marcha de manobra de um governante que tem medo da população e que a enrola para ganhar tempo, seu vice, que tentou retardar ao máximo a solução das questões, não apresentando nenhum comprometimento verdadeiramente válido para solucionar as reivindicações da comunidade.

Em conluio com as empresas que gerenciam o transporte público na Grande Vitória, o Governador mostra-se um fantoche das vontades dos empresários, dando as costas ao povo do Estado, povo esse que é vítima das altas tarifas e das péssimas condições de transporte, além da dependência inexplicável e inaceitável de um único meio de transporte público urbano, graças ao desmanche histórico dos meios de transporte aquaviários e do não investimento em políticas de transporte ferroviário urbano.

Defendendo os interesses dos ladrões dos transportes, Casagrande esquece-se de que o povo tem poder de destituí-lo do cargo para o qual foi eleito. Esquece-se de que é o povo capixaba que paga os salários dos policiais do BME que espancaram covardemente os estudantes na manifestação pacífica do dia 2 de junho de 2011 e que desterritorializaram 200 famílias carentes em Barra do Riacho, em Aracruz. A polícia militar e o BME de Casagrande mostram que o governador prefere apertar sprays de pimenta nos olhos de crianças, pisotear cidadãos, prender desmedida e inconsequentemente qualquer civil que passe em seu caminho a dialogar.

Foi o Governador quem puxou o gatilho das armas carregadas com balas de borracha e lançou bombas de gás na população, fugindo do diálogo civil democrático e ferindo o direito constitucional do povo de se manifestar.

Ao bater nos estudantes, o senhor Governador nos diz qual é a sua política para a melhoria da educação: para ele, estudante bom é estudante preso e educação se cala com balas de borracha, bombas de gás e cadeia.

Ao fugir ao diálogo, o Governador só demonstra que faz uma política sectarista, seguindo a vontade própria e de alguns particulares, disposto a matar civis se preciso para manter com mão de ferro sua governabilidade.

O povo está nas ruas, senhor Governador, e quer dialogar pacificamente. Caso o senhor Governador continue numa atividade sectária governando para os ladrões do transporte público e não discutir de forma clara as propostas que o povo capixaba, por meio de seus estudantes, levarem ao senhor, o povo não desistirá enquanto o senhor não sair do governo, nem que para isso seja preciso parar toda Grande Vitória.

Resistiremos, senhor Governador, até a tarifa cair.


Danilo Barcelos Corrêa

Mestre em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo
Professor e estudante. Membro da comunidade capixaba.

domingo, 5 de junho de 2011

Das partidas

As despedidas pelas quais passamos em nossa existência são experimentadas e experenciadas com forte carga fatalista, tendendo a reduzir a partida a um fechamento de um grande ciclo ao qual jamais tornaremos, afastando-nos de sua real condição.

De fato, qualquer ciclo que se fecha impõe, indistintamente, tal processo. Impossibilitados ficamos de entrar em contato com toda a experiência que se deu naquele tempo e nunca mais será repetida. Porém, qualquer partida também é sinal de que o movimento de fechamento vem seguido de igual força de abertura, trazendo a reboque aquilo que se fecha em outra roupagem, pois há na manutenção deste movimento a força imperiosa que nos mantém unidos naquilo que entendemos por afeto: os laços.

Percebendo a grandeza dos laços, desterritorializamos a ideia de comunidades em espaços delimitados. Mantidos por forças do âmbito do afeto, permanecemos sempre próximos, em contatos das mais variadas formas. Pensando como nos diz Hannah Arendt de que somos seres condicionados, criamos condições para mantermos os laços, seja via carta – como foi por séculos na história dos homens – seja na nova comunicabilidade virtual, seja pela construção de mitos e de tradições, de uma ficção que fará perpetuar por gerações sentimentos de afeto mútuo.

Desta forma, aqueles que partem nunca efetivamente separam-se de nós, já que estamos irremediavelmente ligados a eles na força potente desses laços, capazes de nos emocionar por recebermos notícias vindas dos mais variados jeitos. Nestas, informações de vária ordem sobre filhos que surgem, inaugurando novos ciclos cheios de outros ciclos circunscritos, numa espiral em que tudo será o retorno do mesmo nitzschiano, ou novas conquistas, novas escolhas. Recebemos infindos contatos até nos silêncios que nos devotam os distantes, mantendo os laços perenes que nos ligam uns aos outros e que fazem com que nos reconheçamos uns nas faces dos outros, nas mudanças pelo tempo e pelos espaços vividos.

Neste sentido, reencontramos, criamos datas, efemérides de vária ordem para consagrar afetos, de forma a estarmos novamente em contato com o ciclo que se fechou na fração de tempo que durar o reencontro. Assim, abrimos possibilidades para outro reencontro, e nele, os novos ciclos de afetos que permitem o sentimento de repetição involuntária da vontade mútua de retorno a um ciclo antigo, mas recolocados os rostos e seus contatos.

Por isso, é sempre importante partir. Mais do que um ato de renovação, a partida suspende tudo na memória coletiva dos afetos, fazendo com que nos tornemos outros, refeitos e recolocados em outros espaços. O partir, marca de um fim, imortaliza o momento e nos dá a essência de que nada se repete no infinito, beleza que contemplamos como grande obra só possível entre os humanos. Suspendido o momento, ele se valoriza: findá-lo é torná-lo eterno, como já nos disse há muito Martin Heidegger.

Ontem, uma amiga, por ocasião de outra partida citou Paulinho Moska: “Vamos começar colocando um ponto final”. Gosto mais da imagem de Clarice: para começar qualquer coisa, sempre entre suspensões e recomeços, a vida precisa é de uma vírgula.