domingo, 29 de maio de 2011

Dos pedaços

Talvez a sombra da noite seja a hora de amá-la. Partida, estilhaçada, busco-a nas sombras que se formam nos lençóis sobre meu corpo, disposto sobre as cores refletidas.

Espalho seus pedaços pela casa, nos livros. Distribuo seu cheiro entre as partes do que sou, naquilo que desenho, nas músicas que me entram inquestionáveis pelos ouvidos, na água na moringa, no colchão que pede troca, na janela sobre a cômoda. Busco o resto de você que se imprimiu em pele, feito cicatriz antiga, e tento estender o que sei de sua pele na janela para filtrar o sol. Há seu ar nos meus pulmões e sufoco-a com a tosse para que reclame a voz que tentei roubar.

Não sei dos traços do seu vento nem das setas da sua bússola, mas quero lembrar a cor, os seus olhos no meu travesseiro, através daquilo onde pousei a falta.

Repartida, espalho-a pelo espaço amontoando-a no alojamento de mim, meus cotovelos. Em tudo, por isso, há impresso incerto silêncio que respeita, engasgando os dedos nas palavras.

Talvez se eu partisse sua voz, distribuiria assim um pouco das palavras que você diz, enchendo esse espaço com mais do que pedaços. Talvez eu recheasse tudo com silêncios.

sábado, 28 de maio de 2011

Da mesa laranja

Tudo na minha memória começa com o som de um sino. O som do sino da Sé, às seis da manhã, numa das muitas madrugadas que passei em casa, na frente da mesa laranja, escrevendo à máquina e incomodando o sono do Fernando, do Truão, do Mestre, do Vagner, do João Paulo NY e de muitos outros que, em pequenos e longos pedaços de tempos de suas vidas, dividiram aquela casa comigo.

No som, outras imagens vêm nos dobres e badalos, desconexas, como as memórias de Riobaldo, que li na mesma mesa laranja, na minha cama que rangia de noite, no Jardim em frente ao coreto. E no Jardim, uma tarde, participei de calorosa discussão com Baiano e outros mais sobre a importância de se ler Jorge Amado. Quantas discussões de literatura, de não-literatura!

No Jardim, conheci muita gente nos tempos ainda em que se podia encontrar-me sentado, depois do almoço, ou com um violão, ou vendendo salgados e doces para as meninas do Colégio Providência. Numa dessas tardes conheci Thaís. Numa noite de domingo, conheci Costilla, Bode e Tchuim, ainda sem esses nomes, ainda com outras caras, no Saloon, com Edmar.

No chão da casa da mesa laranja (mesa que até hoje tem em sua frente os versos de Baudelaire que Fernando me mandou por carta, durante uma longa greve – a qual nos custou caros janeiros), Fabrício recitou muitos de seus versos, Edmar recitou muitos de seus versos, eu recitei muitos dos meus versos e nós nos criticamos sem dó nem piedade naquilo que ainda hoje é a Sagaz Crítica, com litros de café e cachaça. Boga foi tocar violão e deixou sua guitarra – e ela dormiu na minha cama uma tarde, bolinada vez por outra pelo Truão.

Em frente à mesa laranja, Fernando cantou de pé, em cima de uma cadeira, músicas dos meninos de Araçuaí junto com o Ponto de Partida, que assisti na Ilha de Vitória há algumas semanas, e vi a caixinha de catupiri onde se encontra o cd, e vi Fernando nela, no palco ali diante de mim.

E a mesa ouviu tantas músicas! Ouviu um rock que Welber, Costilla e Marcelo ilusionaram e que Isis flagrou da janela. Num show de Arnaldo Antunes, em BH, anos depois, vi o disco que a mesa ouviu junto comigo e com Fernando – Flávio Henrique e Marina Machado –, e essa semana frente ao mar ouvi na minha cabeça as músicas daquelas tardes em que só tínhamos a mesa laranja.

E foi perto dela que Truão recebeu o apelido, saltado de um verso de Adélia Prado. Na porta ao lado dela, os versos de Arnaldo Antunes desenhados nos marcos. Reencontrei-me com eles na casa da Priscila e da Jamile, no livro na escada: “estrelas para mim, só para mim.”

O novelo que sai do som do sino é grandioso. O som de todos nós misturados na mesa laranja que guarda memórias de tantas outras noites, de noites que nunca aconteceram, meus aplausos a grandes livros, as muitas despedias, abraços de boas vindas, brincos, dias inteiros de ressaca, conversas sobre as mais variadas coisas, amores de toda ordem. Viu tantos de nós em nossas muitas andanças entre um ontem e um não-sei-que-será, viu cartas, livros, lágrimas e muitos dos meus melhores sorrisos.

Hoje é outono e lá, ouvindo e guardando mais memórias, a mesa ouve o que daqui é só saudade e cais.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

para Paula


É preciso voar para o sol – ela pensa – e monta grandes asas de cera. Há no sol o brilho que ela, sentada no alto da pedra, mira sem muita visão de através. Na linha do horizonte, tantas outras linhas desdobráveis que ela, atônita, fugindo de tantos riscos, olha as mãos cheias de pena e cera, limpando a alma para outro salto, pelo outro lado.

É lá onde dizem que é lá?, mas sem mesmo saber se é lá o lá que dizem que é, prefere ver na linha a curva que forma o infinito. Em algum momento, no contravento, a asa pode bater em perguntas que lhe façam olhar fixamente para o sol. Quanto brilho, quantas penas!

Para as novas asas, ela limpa as mãos e vê mais linhas! Velhas ciganas já disseram que há nestas linhas seus destinos, como os traços da íris quase negra, mas agora, lá no horizonte onde o sol se acalanta, ela se vê partida, micro-mapa de si mesma: as bifurcações que fecha entre os dedos, escondendo-as na concha da mão, fechando os olhos.

Pensa, e como pensa em seus pés, em outros chãos, em tantos ais. Sabe que o vôo é como no verso, que grita para sair da frente. Sim, é ela também um rasante porque precisará da lembrança do mar em tempos de céu e sol, no horizonte desdobrável como um grande leque. Orientais, os desenhos sanfonados de seus sonhos não cabem mais nas arestas pretas, artefato de parede. Ela quer o suor, a saliva que a vida promete além da desdobrável-linha de horizontes improváveis, com milhares de vagalumes no estômago, gigantescos, carregados de saudades que ficam nas mãos que se abanam em solo firme, de quem não voará por já estar no céu. Tanto peso!

É pesada a carga da asa velha, que nem é mais asa, carregada até ali, para o alto do penedo. No vento cortante sempre azul, sabe que um dia ouviu falar de uma cor, de um labirinto e de cegos que se estrangulam. Fechou forte os olhos: mais versos, porque o mundo é para quem nasce para o conquistar.

Adeus tudo, por fim. Jogar ao mar velhas palavras, o velho discurso. Riscar outros fósforos porque o sol é pleno calor e a cera é nova, não se sabe quanto aguenta. O frio que respira fundo no peito, no rosto molhado pelo sal de muitos anos... No roxo das pálpebras, sente a vertigem, o medo de altura – velho medo de todo antecedente salto. Guardará de tudo aquela música? O retrato, tantos versos?

É hora, eis o pé que vacila. De força e fome, a vontade volta o rosto para o infinito: é bonita a linha que propaga, cheia de tantos desvarios! Deixar à praia tudo, até o cais. Voltar é desmedida, vontade entalada de quem nunca partiu por não saber que todo porto de retorno é o próprio peito carregado em suspensão, sem necessidade de piso. Partir porque é parte no Atlântico, em vôo-ícaro sobre o que escolheu, de penas novas, multicores, bruta cor de seus quereres.

Desfeitos os calendários e os mais, salta. O vento agora é parte do rosto. Percebe-se cheia de vento, é de vento, sobretudo, que se faz a carne de nós mesmos a caminho pelo não-sei-que do infinito. Lá na frente, sempre mostrando mais, o ar, a curva do rio, o mar que se perde de vista e o sol! Eu te amo, sol, mas sai da frente!


domingo, 15 de maio de 2011

Da falta

Disse certa vez que de todas as coisas que vivi desde quando a vida me trouxe o estar só, de todos os sentimentos que tenho, o mais incômodo não é o silêncio ou a ausência: é a falta.

Diferente do silêncio, a falta não nos coloca em suspensão, numa tranquilidade que nos reconstrói. Também não é a ausência, que faz com que nos voltemos a nós, num estado de nada, a um contato profundo com o mais íntimo que possuímos.

A falta nos abraça lentamente. Exige de nós as vozes mecânicas para que preenchamos os espaços de falta, da vida que passa a faltar em nós, pulsante. Rouba-nos o sono, o sonho, as capacidades. Lenta, é dura e implacável, caminhando no escuro daquilo que em nós grita, querendo de nós o que não entendemos, pressionando-nos forte contra um rijo peito: mudo buraco-negro que tudo transforma em falta.

Percebemos a falta, sentimo-na nas coisas todas, pois o alguém, fantasmagórico, só pode existir na linguagem quando assim dissemos. Ali não está a saudade - que preenche aquele espaço da falta com outros sentimentos -, não está a pessoa, não está nem sequer sua memória. Há o que ela deixou como desejo não concluído, que não entendemos a não ser por esforço profundo de linguagem.

Difícil definir a falta, separando-a profundamente do nada que não está presente nela. Nela sentimos o vazio profundo, completamente diferente do nada. Sentimos ali o que está em nós ligado pela não-presença de alguém que já se fez presente - corpórea ou subjetivamente - em nós de forma que a sua não-presença se faz sentir reverberante e plena, incômoda e impossível de não ser percebida.

Por isso, a falta impõe em nós certa inércia. Não podemos contra a falta a não ser nos lamentarmos. Ali, como algo que cresce no escuro, ela traz agonia, não nos tranquiliza. Quando em excesso, quando torna-se insuportável a sensação de falta, de maneira que esta atinja estágios incalculáveis de sentir, tudo mergulha nela, pleno e indefeso, vencido. Sabemos, neste momento, o que sentem alguns suicidas. Suicidar-se é sucumbir à falta.

Impossível não sentir falta. Sem sentir aquilo que em nós reclama a atenção que a linguagem contém, o elemento não existe em nós. Sentimos falta de algo que existiu em nós de forma tão particular que a reclamamos, quase em súplica, querendo seu retorno a nós a todo custo, como um viciado em presença. Viciados somos nas coisas que nos fazem falta e por isso sentimos falta delas. Caso contrário, o sentimento de nada valeria e não causaria a força que produz.

Em casa, muitas vezes toco e sou abraçado pela falta. Primeiro ela poda o sono, depois as vozes, depois alheia-me de mim num afastamento provocador que se preenche cada vez de mais falta. E ela, gigante, procria como uma bactéria. Fede como bactéria e passamos a ser seres em falta, feitos de matéria falta, e não sabemos o que é estar fora desse sentir. É preciso diariamente vencer a falta, e ela, gigante, torna a abraçar-me como um paquiderme.

domingo, 8 de maio de 2011

Do amor

Porque há em mim densidade, há amor que compartilha. Cumprindo coragens, amo a vida porque ela é densa e posso tocá-la nas flores, no chão, nos cabelos. Amo as pessoas porque nelas há cores que não compreendo, cheiros que não compreendo, sentimentos distantes das falas sem nenhuma linguagem.

Amo a cor dos dias porque ela pode chover e a chuva molha meu corpo, o mesmo que exponho despretensiosamente na noite, nas livrarias, nos bares, nos teatros. Corpo que modifico, que modifica, que me escapa de mim por mais que tente segurá-lo, que é água não dominada eternamente em fúria, buscando o que não vislumbro, sentindo o que me assusta, mas que não impede a vertigem.

É preciso coragem para amar, como potência, pois há em tudo a vida densa que atravessamos violentos, partindo ossos e fantasmas. Preciso amar por fúria, pela fúria indomada de mim que me sufoca, pois tudo é parte de nada que vislumbra a volta. E somo a tudo a sensação da camisa ao peito, quando a vida postou-se densa e me furtou o ar. Amo porque busco o ar que a vida me furta, que sempre me falta, e na ausência do ar em mim, onde drapeja esquecida fome embandeirada, há tantas figuras, tantas mãos, tantos cabelos, tantos olhos! E nos olhos, tanto medo de pessoas que se escondem como sinos feitos para o dobre, fundidos sob o solo, mudos eternos em suas gigantescas catedrais feitas para o amor e abandonadas, tornadas outros museus de parda ausência, de dor e escuro, em tudo que nada faz sentido.

Na noite semi-opaca do passado, na ausência do passado em mim agora, na vontade de amanhã pleno e indireto, o amor-locomotiva me alavanca e me empurra contra o tempo, querendo a desordem de tudo que compartilha, fúria fumegante de vontade em trilhos do sem-fim que me acometem, em medos que alimentam a fornalha e que lançam para o céu velhas faíscas engolindo com coragem as fumaças do que sobra, sabendo esperar outra partida, em desordem, sem medo da chegada.

sábado, 7 de maio de 2011

Do frio

Hoje me deu saudade das manhãs frias de Juiz de Fora. Neste maio, creio, o São Pedro já amanhece com poucas ruas em névoa. Depois, o sol pardo do outono vai esquentando, aos poucos, aquela densidade que sobe e se evapora. Quando acordava lá, ainda no banho, via pela janela do banheiro o bairro que dormia e a cidade que acordava mansa, o som de cada coisa aumentando e o frio doendo nos dedos.

Lila, depois que saí de Juiz de Fora, ficava ao telefone me dizendo isso, cheia de saudade, e me deu saudade de Lila me dizendo isso. Lembrei de como ela descrevia a vista da janela do seu quarto - muito diferente da do meu -, dos dias que esfriavam aos poucos como um prenúncio de um inverno rigoroso que aguardávamos com ansiedade.

Deu saudade também das manhãs em Mariana. Da janela do meu quarto, via as ruas que iam, de abril até julho, ficando cada vez mais frias de manhã, cheias de restos de nuvens e do mesmo sol pálido, frio. Nessas horas, depois das seis, a manhã era mais fria. Deu saudade de uma sacada de hotel em que, com Thaís, falei dessas coisas, dessa saudade das manhãs e ela me descreveu a saudade dela do som dos pássaros no forro do telhado da minha casa, sobre meu quarto, do pedaço de céu que se via da minha janela.

Deu saudade de andar bem cedo por Ouro Preto depois de uma noite perdida entre bares e bares, de ruas muito úmidas e chãos velhos e repisados, e o cansaço do corpo, dos olhos, aumentando o frio entre os dedos, escondidos nos bolsos da velha blusa surrada em um tempo onde tudo era imprecisão e vontade. As narinas vermelhas, alguma voz de mulher que escapava nas ruas, gritando, perdida na alvorada.

Lembrei-me das manhãs da infância, quando em Belo Horizonte as ruas de outono ficavam com um céu azul de doer e um cheiro da umidade das árvores. De nós, eu e meus irmãos, arrumando-nos para sair, descer o bairro, atravessar a Serra e nesse frio da manhã, à medida que descíamos a rua Palmira, o calor e o sol irem aumentando - pelos passos dados, pelo dia que deixava um amarelo despejado sobre as janelas dos prédios, nas pedras das ruas, nas mochilas dos estudantes, nos barracos da favela. Tudo amarelecendo e o frio que saia, deixando esse espaço que sobra.

Semana passada, revivi parte desse mesmo frio nas ruas de Paris, sem névoas como nas manhãs juizforanas e sem Lila empolgada com o frio que se aproximava; sem Thaís dizendo dos pássaros no forro do telhado; sem grito de alguma mulher perdida na alvorada, sem mochilas de estudantes. De brilho pouco mais brando, revi do outro lado do Atlântico o mesmo sol que iluminou muitos dos melhores momentos de minha vida, nas manhãs de frio que trazem uma falta imensa na janela sobre a cômoda, que sente o calor como os meus ossos.

Esta semana, sonhei com o capítulo junho, do livro "Como água para chocolate", de Laura Ezquivel, que li em Mariana e que releio incessantemente desde então. O frio do qual sinto falta, o que empolgava Lila e fazia Thaís dizer dos pássaros, não é o de fósforos não detonados, que esfriam Tita por toda uma vida no romance, mas os das manhãs, daquelas manhãs que me ensinaram que para o frio é preciso um sol mais brando, leve, que nos lamba com cuidado, sem tanta afronta, para que possamos, aos poucos, tirar as mãos dos bolsos e deixar as nuvens subirem, levando nossos perfumes com elas.