terça-feira, 26 de abril de 2011

Noturno

Ela mora nas linhas da minha mão. Como um presente que se sabe o dono antes de o dono conhecer-se dono do presente. E tem tanta sombra nisso tudo, tanta sombra! Nas unhas que crescem, alheias de vontade, cabe mais dela, nesses opacos que a guardam: velhos traços como as ruas.

Na noite, sem neblina, Paris acalma o sono dos vinhos. Quantas sombras, como os traços da minha mão! O Sena desce lento e Paris fecha os olhos com calma, grande dama com sono que espera no quarto pequeno, o livro no colo a pender. Fecho a mão e imagino outras sombras, seus reflexos no chão, seus dias.

Sabe Paris que ela, a das linhas da minha mão, vive na sombra, nos traços, nos rabiscos a lápis: à cidade toda. Ela e a cidade, nos enigmas. De dentro das tulipas, elas me olham, não mais agora nesta noite – e ainda nem são dez horas –, mas na tarde de outros relógios, em outras madrugadas.

As duas, na sombra, enquanto o sol desce lento na linha que a vista tenta, de cores mais brandas na primavera quente, nas ruas que dividem os fantasmas, seus poetas: versos de amor e a passante que não ouso cantar, na rua que curva depois do punho, do indicador, meu corpo.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Porque nela...

A cidade tem tantos cheiros, tantos sabores! No solo centenário, de pés já esquecidos, o impossível dos tetos toma todos os lugares. Há a forma-catavento onde o olhar, sem saber se vai parar, quer engolir as curvas todas, os detalhes. Nas mulheres, o jeito elegante, de cores vivas nos lábios, olhos de tantas outras cores, de tons de todos os tipos, mãos avermelhadas com cigarros, sentadas nos café.

A alegria: todos, em todos os lugares, sorriem. No chão de uma ponte sobre o Sena, muitas declarações de amor traçadas a giz, em muitas línguas. O encantamento de todos pelos dias de sol, tulipas roxas e jardins incontáveis. Nas portadas da rue de la Huchete, Cortázar coberto de razão: o hábito em todos, bandeiras da Itália nas sacadas, comidas do mundo todo se acotovelando, mesclando seus cheiros ao da cidade, pleno, leve.

Em Monmartre, ruas mais vazias, frutas que cheiram longe em bancas coloridas e multiformes, com produtos tão do nosso cotidiano em outra ficção, outra melodia. Em Saint Michel, estudantes na praça palco de revoltas e, ao fundo, a Universidade guarda nossas letras, nossos costumes, nossos paradigmas.

Do arco, meu silêncio: ver a Avenida (a única a que podemos de fato chamar Avenida) ao sol da primavera, confusa como uma catedral lotada, faz das vozes e dos sons humanos nossas desmedidas arestas. Coloca-nos pequeninos, não mais diante de indecifráveis palmeiras, mas ante grande obra humana, cristalizada em seus pilares.

Nas ruas da Ilha de Saint Louis, a pergunta: como será viver aqui, comungar com arte nos atropelando nas esquinas, nas lojas, na receita de sorvete passada de geração em geração, no obelisco da praça da Bastilha, que tanto sangue suportou, nas doze ruas do arco, todas estreitas, convidando-nos para o estreito labirinto? Com cruzar o Sena todos os dias, sem o silêncio cerimonioso que ele exige, descer a Rivoli sem emudecer ante o Louvre, sem se imaginar voando em torno da torre constantemente mirada por pessoas?

Sem respostas, a cidade abraça a mim como abraça a todos, sabendo que ela, mais que qualquer outra, ainda emana luz de forma intensa. Luz que, na tarde de abril, na Champs Elysées, sai dos romances, e eu esperei, ansioso, o coupé de Marguerite Gautier, o de Monte Cristo ou mesmo Maga vindo até ali depois de sair do Quartier Latin.

sábado, 16 de abril de 2011

...que penetran en el alma de quien los mire...

Com olhos e outros desalentos, nas verdades de nós mistificadas, sobram a sombra, os traços das mãos, os trilhos.

Quedamos perdidos por calles donde las personas no caminan, con cariños llenos de miradas y pensamientos. Mis ojos a la playa, volviendo a ti, cargados de versos nuevos.

Sem mais trilhos, nesta fome, o que nos faz perdidos entre cores e densidades, na verdade de dois braços estendidos, abertos com aquilo que se partem.

Y, lleno de otros aires, yo quedo a ponerlos en sus manos, para que tu puedas comerlos, vivir.

domingo, 3 de abril de 2011

Ao Dr. Luiz Inácio

Depois de uma semana em que a mídia transformou-se num imenso obituário, em que todos os meios de comunicação fizeram suas homenagens ao ex-vice-presidente José Alencar, o ex-presidente Lula recebeu duas homenagens importantes em Portugal, incluindo o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Coimbra.

Por motivo do óbito do companheiro de governo, tanto Lula quanto Dilma encurtaram sua visita ao referido país e a mídia, claro, aproveitou a morte de José Alencar para não ter que, repetidas vezes, dizer que aquele em quem ela tanto bateu por não ser mais que um torneiro mecânico agora era também um doutor, um reconhecido doutor de uma das mais importantes instituições acadêmicas do planeta. É difícil para o grupo Folha, para os Associados e para as organizações da família Marinho dizer que Lula tem um título com este peso.

Na semana anterior às homenagens, Lula foi citado em um texto de Perry Anderson, historiador da UCLA, no London Review of Books, como o “político mais bem-sucedido de seu tempo”, além de já ter sido considerado, tempos antes, o responsável pela efetivação da democracia brasileira pelo também historiador Eric Hobsbawm.

Lula é, de fato, um dos nomes mais importantes da história do Brasil. Fez com que nosso país fosse respeitado além das quatro linhas do gramado. O Brasil passou a ser ouvido, visto, analisado. O que Lula diz tem peso – seja na ONU, nos EUA, nas reuniões com a União Européia, aqui mesmo. Os acordos diplomáticos que o Brasil fez durante seu governo sustentam e fomentam as boas relações que hoje temos com as demais potências, em nossas exigências comerciais, em nossas posições nas cadeiras das Nações Unidas.

Ele mudou a cara do Brasil, mudou a voz que o país tem e o respeito que recebe da comunidade internacional. Mesmo que a direita – a velha direita que nunca conseguiu de fato governar por não conhecer o povo brasileiro e nunca se considerar parte dele – nunca admita. Mesmo que a mídia golpista ainda não consiga viver sem as bravatas contra ele, por não conseguir aceitar o que o mundo já aceitou: um torneiro mecânico, um líder sindical é um dos maiores estadistas que o Brasil tem na atualidade.

É importante nunca deixar de dizer isso, já que está mais que provado que ele é o melhor presidente que tivemos desde 1989 e um dos nomes mais importantes da história da República. Com todas as críticas – sempre saudáveis a quem busca o melhor (muitas ainda por se fazerem) – Lula conseguiu governar este país “como nunca antes”.