domingo, 30 de janeiro de 2011

vermelho-almodóvar


Sonhei com um poema. Um poema que não era meu e que surgiu no sonho inteiro, rico, cheio de rimas internas, feito em quadras. O poema, de bom título - Farra urbana - de som que me seduziu, não consegui reproduzir uma linha, a não ser a temática: um apartamento que quebra as amarras do costume e se revolta contra o hábito-concreto das cidades.

Lindo, denso, grandioso. O poeta que o leu, no sonho, era Adauto Novaes. Barbudo, de óculos pequenos, cabelos atrapalhados. Leu o poema pois estávamos todos em um evento: um congresso de literatura em que, numa espécie de sarau, os poetas ou liam seus textos, ou os expunham impressos em encartes distribuídos entre os presentes, ou em vídeos cheios de movimento. Eram muitos os textos, muito bons em sua maioria.

Acordei com os ecos do poema de Adauto Novaes, nome que para mim, no pós-sono, nada significava a não ser o de estar ligado ao poema, ao grandioso poema que não consigo reescrever e que merecia um belo papel, uma bela publicação.

Comentei com amigos e com alguns colegas o sonho, o acontecido. Pesquisei: achei em uma agenda, em data antiga, o nome de Adauto Novaes e um título de livro que ele organizou que ainda espera leitura: Poetas que pensaram o mundo. Há também em minha estante um bom livro organizado por ele, que ficou anos com a Thaís e que por isso ainda traz o cheiro dela: Ética. Um livro que dei como perdido, queimado, esquecido como o nome do organizador que voltou no sonho.

Fiquei com aquilo na cabeça e isso trouxe outra memória incompleta: a cena de um filme de Almodóvar que nunca me lembrei do nome. Lembrava o enredo, as cores, o ritmo. Mas o nome me escapou. Vi esse filme com Fernando em uma sessão Almodóvar que fizemos. Lembrei o filme sem lembrar o nome para Vanessa, na minha cozinha, enquanto conversávamos sobre situações tão Hable con ella.

Hoje, voltei à busca na casa de Adolfinho e achei o nome em uma imagem do cartaz do filme: Carne Trémula. O cartaz lembrava a cena que achei mais importante, quando Victor, injustiçado no início do filme, efetivava sua vingança, imprimindo na pele de Elena seu cheiro. Os dois, deitados, nus. Cheiro que ela, depois, busca ávida no banho, sob o chuveiro.

E tudo misturado, voltando assim de repente, cheio de suas cores. Como a cor vermelha do sangue no chão da cozinha em Volver, dos tomates vermelho-almodóvar que eu e Vanessa compramos. As imagens que só o tato tenta, como o cego em Los abrazos rotos.

Mas o poema, o poema...

porque eu torço contra o vento

É assim: penso em amor e é branco e preto. As cores do amor: os opostos.

Se nas duas pontas da corda das cores ficam todas as possibilidades, elas reunidas criam o infinito. Ladeadas, listradas no peito, criam sempre extremos. Da raiva ao riso, da dor à glória: sem meio termo.

Como amar mais? É isso que se lê nas totalidades. Não é um nome, não é um restrito, não é um limite. É amor, claro, amor maior. Pleno, das totalidades, porque só com esse amor é possível enfrentar e vencer o vento.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Never know how much I care




À cor da aurora, ao som de Miles Davis. No jazz, o esconderijo de um corpo que muito se expõe ao samba, sempre por mania, sem remorsos.

Na alvorada, como se Miles Davis puxasse o sol de detrás das janelas na janela sobre a cômoda. E tingindo aos poucos os tons dos sons do dia, que no domingo intenso (de madrugada dura como bebida amarga), o jazz acalma os músculos dos olhos, das pálpebras quase caídas.

Da janela, a desordem da fumaça no azul que se anuncia. Ao fim do solo, a pausa que o jazz traz antes de voltar, o compasso que troca nos discos o nome para Coletrane, manso como o toque aveludado da mão de uma mulher nos ombros. O sax, o lento sax de Coletrane que eleva randômico ao céu, quebrando as cores repetidas da manhã no desarranjo dos cães que acordam as esquinas da cidade. O mar é o embalo de Coletrane e a espuma depois que a onda quebra é Miles Davis.

Quando a cor é azul e a cidade já desperta em seu movimento manco do domingo, é de Lucille o solo das esquinas, nas mãos de B. B. King. E quando o longo solo termina, tudo troca rápido: é Ray e Ella em Fever: all through the night. You give me fever in the morning.

É preciso sair da cidade azul de verão, como o jazz que baixa de tom, sem a febre, sem Lucille, sem Miles Davis e Coletrane, holding tight o sono na manhã sem mais palavras.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Retomadas

Recuperar velhos hábitos como um mantra na madrugada. Tão sagrado e tão litúrgico é sempre o contato com o passado: mutante intocado, um corpo vivo.

Primeiro o cumprir promessas e o pagar as dívidas que temos com a alma, no nosso íntimo. Cortar os braços que não mais servem e que crescem em nós como enormes polvos sem controle. Depois, replanejar, repaginar, reencontrar.

Quando o passo adiante é estranho e novo, eu olho o passado-mutante. Recuperar hábitos, não os ruins, mas os de olhar com atenção, de ouvir mais, de usar menos palavras que sobram, que atrapalham demais. Praticar mais outros sentidos, experimentar mais as mãos, a pele, o olfato. Ter mais equilíbrio sobre a corda bamba, no vento. Apurar os hábitos para que eles percam o mando costumeiro e se tornem outras coisas, agora recolocadas.

Na onda, voltei a olhar o mundo, olhar os olhos dos passantes, as cores das paredes, os detalhes das portas fechadas, as palavras escritas no muro. Do alto da ponte dos suicidas, lê-se palavras de amor a uma única letra, escrita em branco sobre a pedra. Pombas na manhã remexem o lixo, recolocando tudo em outro lugar do sensível, como se elas ali mudassem o significado das coisas. Os olhares nos ônibus, os transeuntes distantes, imersos em si-mesmos mas com uma mágica de hipnose louca que põe um coletivo inteiro em transe, como zumbis indo cumprir as ordens costumeiras.

Abandonar algumas palavras, como a recuperação dos olhares. Esquecer de dizer demais, de buscar sempre o melhor alento, o melhor termo, mas intensificar o uso potente de um não que ao invés de excluir, agrega novas formas. Negar como construir, edificar, habitar. Não às antigas palavras ofertadas a qualquer um, em qualquer lugar. Mas o olhar volta a dizer mais, com mais potência, com o velho silêncio repaginado.

Tudo medido para recolocar no lugar na corda-bamba. Cada novo-antigo hábito revisto para que outro melhor, mais potente e certo, surja. Um dia tudo, enfim, será abandonado.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Das estações

Ele acordou de madrugada para cumprir a coragem. Adiava a decisão há meses, em noites sem fim em que só um nome boiava: voz que ela sussurrou na última manhã que se levantaram juntos.

No meio da viagem, no trem, entre um lugar no entre, lembrou-se dos momentos em que a viagem antecedia o sorriso dela à porta do apartamento, os traços das mãos.

O sol, os lugares. Nos momentos-cores, aumentava o bater da ansiedade de quem não se sabe sombra. Vê-la, na quinta-essência!

Repisou a cidade, subiu a pé a avenida. Como onda que se aproxima com muita fome da areia, fez retrair as águas: uma voz antes do susto. Um misto de indecisões e surpresas que nos olhos dela pronunciaram: dois estranhos que se reencontravam na mesma sala da despedida, na cozinha de tantos cafés.

Estranhos, um diante do outro. Olharam-se com o ar de quem, no passado de seus próprios olhares, entendessem o absurdo do momento, desnecessário para os então desconhecidos. Era estranha a improbabilidade da cena, como se ele voltasse de uma ida rápida à padaria, ou se ela acabasse de chegar com as compras. Mas ali, na mesa em que a xícara, o café, os talheres haviam sido preparados com o zelo de antes, deram-se os dois o momento que só às fotografias serve.

Como antigos amantes, enlaçando dedos na cidade, se olhavam mutuamente buscando as cifras de um enigma. Não cabia mais nada do que se dera com ambos no passar do tempo que os separou. O calor do abraço, as coincidências, as garrafas, tudo agora era recolocado, quente e estranho como um velho abraço.

Sentado na manhã, ele a olhava dormir. Ali, nada fazia sentido: nem a viagem, nem a noite, nem o passeio pela cidade. Não sabia dar a nada um contorno e percebeu o erro da empreitada, da odisséia perdida. Não fora reconhecida a cicatriz e nem se percebeu a colcha. Era ali, como em uma fotografia: os lençóis envolvendo uma mulher completamente diferente, que precisaria.

O tom da parede, o mexer dela na cama, o respirar. Era como se estivesse acordado diante da estranha e, ao mesmo tempo, da mulher que ele acordava à noite para ver dormir na semi-luz do antigo apartamento.

Em silêncio, de pernas cruzadas, ele também não era mais o homem que acordou naquela manhã de há muito. Não era mais o homem de até-amanhãs. Tampouco por isso menos lúcido. Dar à praia. À grande onda: espuma e outro movimento.

O dia do despertar foi um vago tempo em que ambos repensaram seus retratos. Efetivamente outros e distantes, nada mais tinha sentido naquilo. Tornou-se insuportável a verdade da presença daquela que ele cobriu de outras personalidades, da imagem que a custo esvaziou. Para ela, o homem ali era um tormento, a cristalização de um passado que a custo se desvencilha, como quem lança fora densa camisa que não mais serve, ridícula e desatualizada. Na cidade que antes as mãos passearam entrelaçadas, ambos fugiram por destinos opostos e ignorados.

Tentaram outra manhã mais uma vez para terem certeza de que os corpos já quedavam mortos. Ainda na madrugada, sem querer que a manhã se repetisse, foi retido pela mão que já não mais conhecia. Disseram que se amavam como um bom-dia.

No caminho até a estação, mortos. Emudecidos, tentaram dizer o costume na despedida.

Em pé na estação, segundos antes de partir, ele entrou em suspensão. Sem ontem e sem amanhã, vazio, era como se ele estivesse enfim dentro de um retrato: um quadro impressionista que mescla o vapor do trem, as pessoas, os sons em fortes borrões de tinta, que distanciado o olhar, tem-se a ilusão de pessoas, apitos, tudo cristalizado em movimento.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Porque um mineiro pega a estrada

Caí na inelutável sina mineira há dez anos. Li, tem uns dois anos ou mais, em um livro organizado por Drummond de título Minas Gerais, em um dos textos - não me lembro mais se de um cronista, se de Pedro Nava ou de Aníbal Machado - que o que nos fazia migrar (pelo país de Minas ou pelo mundo) era o nosso traço indígena, sempre nômade. Além disso, esse jeito descobridor - de vaqueiro, de garimpeiro - nos coloca no rastro, vítimas de nossa própria fortuna. Outro ponto é o trem: o trem nos leva e nos traz para Minas. Nos trilhos que cortaram o Estado e o país, muito mineiro chegou, muitos partiram. Não é de graça que o trem é base de nossa linguagem.

Pode-se pensar isso de todo o jeito, indo até à preocupação que tinha Juscelino em abrir estrada, em migrar até a capital de forma inconsequente. Mas o que sobra, afinal, é um fato: há em nós uma força inexplicável que nos faz sempre sair e sempre chegar. A mala está sempre ao pé da porta: nunca se sabe quando será preciso ir. E sempre há uma matula, um pano para amarrar panelas, um canivete para uma ocasião inesperada, uma medalhinha de santo e/ou uma figa. O partir está no batente da porta, no jeito de guardar as coisas do costume.

Talvez por isso o mineiro receba tão bem quem no seu lugarejo chega. A hospedaria só pode ser boa se aquele que recebe entende as necessidades do viajante. O mineiro sabe, de uma forma íntima, que aquele que anda longe da terra natal precisa de boa comida, de boa cama, de bom banho e de boa conversa. Ele sabe da solidão poeirenta da estrada, dos dias que o silêncio impera entre um canto e outro, seja no sacudido do trem, no balanço da mula de tropa, no gado da madrugada, no carro de bois e nos mais novos. Sabe o mineiro que aquele que parte pode nunca mais voltar. Sabe de um jeito hereditário, sem explicação. Por isso trata a visita como se nunca mais fosse vê-la de novo. A atenção é dobrada, é multiplicada. É preciso que ela conheça tudo do lugar antes de partir, para que se um dia voltar, seja recebida com um sorriso no rosto e os braços abertos como um parente distante.

Os mineiros viajam muito. Talvez mais do que a maioria dos brasileiros. Desde as pequenas distâncias às maiores, sempre viajamos muito e sempre para fazer alguma coisa. O mineiro viaja a passeio também, mas muito mais a trabalho. Ele muda de lugar porque o ouro estava em muitos lugares, porque é preciso levar e trazer secos e molhados. O trabalho move o mineiro. Diferente dos outros, ele viaja calado a trabalho. Foi o trabalho que tirou de Minas Carlos Drummond, Juscelino, Milton, Guimarães Rosa, Aníbal Machado, Fernando Sabino, Carlos Chagas, Vital Brasil, Santos Dummond, até a Dilma e o Pelé, só para citar alguns.

Muitos nunca voltam a Minas para morar, mas voltam para ver cidades, pessoas. As pessoas de Minas carregam nas malas dos trabalhos que fazem pelo resto do mundo a sua pátria. Por isso, quando mineiros se encontram pelo Brasil ou pelo mundo, eles se reconhecem como irmãos. Defendem o Estado até a morte e se ajudam - diferente do que dizem - mais que os demais. Mas sempre com um pé atrás. O mineiro sabe que o outro também sempre desconfia de tudo.

Com isso todas as distâncias são ali. Nunca há um lá. Se há, é porque é muito difícil chegarmos lá. Mas a Europa, por exemplo, é ali. Distância não é problema: devagar e com paciência, sem muito falar mas prestando atenção em tudo, sempre se chega.

Na estrada, é como se cumpríssemos um ritual: chega-se sempre cedo - à rodoviária, à estação - compra-se ou leva-se comida para a viagem, uma blusa mais grossa, uma mala boa. No trânsito, um misto de sentimentos nos toma. Em qualquer parte do mundo estamos todos cumprindo um legado secular - sim, ser mineiro é ter tradições. É tradição viajar como é comer queijo, receber bem, fazer café para a visita, benzer-se mesmo sem fé.

Por isso, tradicional mineiro que sou, estou sempre num entre-lugar. Entre um partir e outro partir para um dia voltar. Como Lila disse uma vez, meu nome é partir. Mas não só o meu: o dela e o de muitos outros mineiros também. Mais cedo ou mais tarde a viagem acontece no mineiro. É só esperar. Brota como um pé de couve, de ora-pro-nobis.

Sempre que o sol sai, há em mim um grito: pegar a matula, fazer as malas, partir em busca de fortuna - seja ela a do dinheiro, seja a de amizades, seja a de alegria, para ter histórias porque, no fim da vida, contar causos é o que o mineiro melhor faz.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Para aprender a sambar

Lição 1-) Eu vou ao samba porque longe dele não posso viver.

Não me lembro mais quando ouvi um samba pela primeira vez. Sei que o samba está comigo desde sempre. Nas festas da minha família, das que me lembro da infância, tinha samba. Tocava samba no rádio da minha avó na cozinha, aos domingos. O primeiro samba que me marcou, na infância ainda, foi Kid Cavaquinho, que meu pai tocava ao violão. Eu ficava quieto ouvindo a parada que a música tem, depois de "Genésio, a mulher do vizinho...". Eu gostava do som desse nome. Era engraçado ouvir meu pai gritá-lo no meio do samba, rápido, forte. Foi o samba que tentei tocar no violão de meu pai, em casa, nas tardes do fim da infância, com a pasta de músicas sobre a cama.

Eram muitos os sambas que meu pai cantava. Aliás, essa é uma mania que ele tem. Cantar sambas e de nos dizer coisas cantando algum samba. Mania que eu também tenho. Gostar de samba, a primeira lição, é uma mania antes de tudo. Herdei a mania do samba de meu pai. Principalmente do samba-canção.

De pai herdei o samba de palma de mão, o sambar, o batucar no balcão que ele me ensinou dentro do ônibus, quando saíamos de um médico que eu sempre ia por causa da saúde sempre com problemas.

Quando tinha uns sete anos, ouvi pela primeira vez Sinal Fechado do Paulinho da Viola. Fiquei parado, em silêncio, olhando. Eram os sábados: a rede Minas passava um programa sobre música popular e muito samba-canção. Ouvindo e vendo Arrumação, que emendava com outros programas de música, conheci a maior parte dos sambas que marcaram a minha infância. O samba, a mania do samba foi tão forte, que venceu os outros testes musicais de meu pai: o disco The Man-Machine, do Kraftwerk que tocava repetidamente numa vitrola velha, um disco dos Stones do meu irmão, Help, dos Beatles. O samba sempre foi mais forte porque samba é mania, o resto é gosto musical.

Lição 2-) Mas não me altere o samba tanto assim

O primeiro disco inteiro de Paulinho da Viola que ouvi foi uma coletânea. Foi a primeira das inúmeras vezes que ouvi Argumento, que fazia muito sentido para mim, num momento que o violão se enchia de bossa-nova. A bossa-nova pede o argumento de Paulinho. A bossa sempre foi uma saída interessante para um adolescente que não tinha uma banda de rock, que não era fã nem de Engenheiros, nem de Titãs, nem de nada que se parece com isso. Quando me perguntavam sobre rock, respondia que o disco mais legal que tinha ouvido era Revolver, que foi um presente de dia dos namorados do meu pai para minha mãe (assim como o violão foi um presente de namoro da minha mãe para meu pai). As músicas do meu todo-dia eram as de Ataúlfo, de Dalva, de Herivelto Martins, de Dolores, de Paulinho, de Noel, dos velhos sambas da Portela, de Martinho da Vila e de tantos outros nomes do samba. Podia citá-los por horas para as meninas que nada queriam com aquilo.

Por isso, mandei-as todas pastar ao som de Lupicínio, de Nelson, de Sílvio Caldas. Os mais pesados sambas-canção que já toquei no violão, e fechava a onda com Desilusão, do Paulinho, imitando o dedilhado que o Gil faz no CD da Marisa, mas com o jeito do Paulinho cantar.

O mais legal disso é que todas as meninas que não queriam nada com aquilo, anos depois me chamaram para um samba, com um discurso louco de que era preciso amar a música brasileira.

Lição 3-) Doralice, eu bem que lhe disse...

Foi Alice a primeira que entendeu que o samba tocava em outro tom em mim. Passávamos dias ouvindo um disco do João Gilberto e Doralice é uma das músicas que mais me lembram aqueles dias, além de Eu vim da Bahia. Foi no Rio, na madrugada de 30 para 31 de dezembro que comecei os meus dezoitos anos. Estava com Alice em um show da velha guarda da Mangueira e de Nelson Sargento. Na mesa ao lado, os filhos de Paulinho da Viola. Um show pequeno em que as cabrochas cantaram Alvorada, vozes estridentes em "Ai ai meu Deus, tenha pena de mim". Foi com os ecos desse show que vi 2000 nascer.

Foram presentes de aniversário que Alice me deu naquele ano: uma camisa azul, que usei até não poder mais, com a qual me despedi de meus amigos em Mariana, no meu velório; um par de canetas com as quais autografei o primeiro exemplar de Barulho Branco, que dei a minha mãe; Chega de Saudade, de Ruy Castro, que ocupa lugar de destaque na minha estante e que li incontáveis vezes, e o show da velha guarda da Mangueira. Amar é tolice, é bobagem, é ilusão? Mas ainda vivo sozinho ao som do lamento do meu violão.

Lição 4-) Beba do samba, beba da chama (bêbado samba, bêbada chama) também.

O samba cortou os longos dias de Mariana. No corujão, no corredor do ICHS, em Kaza com meus amigos. Nessa época, as pessoas queriam saber daquilo. Foi também nessa época que apertei a mão de Paulinho da Viola, num show que ele fez na praça da Universidade, em Ouro Preto.

Antes do show, anos antes do show, eu e Fabrício cantávamos samba e nos reuníamos para ouvir sambas. Em meus aniversários, no tamborim que ganhei de Alice, Fabrício marcava o tempo. E como ouvíamos Paulinho. Já sem a vergonha da tietagem, sabendo que o samba era mania, a notícia de um show de Paulinho - que vimos em silêncio, quase em lágrimas, com mais 700 pessoas (ou menos que isso) - foi para mim o que foi para um beatle-maníaco o show para bilhões em São Paulo em novembro. Era o Paulinho, ao alcance do braço. O sambista que compôs uma das músicas mais sofisticadas do cancioneiro brasileiro. O que não abandonou o barco, tornando-se timoneiro, em época que a Bossa-nova ganhava o mundo. Ele, que tímido chora em Saravá, quando canta o verso "... e as coisas estão no mundo, mas é preciso aprender." Que, sereno, toca Pecado Capital como quem canta Para ver as meninas, que é o meu silêncio de mil compassos. É como estar bêbado de samba e de chama, com boca negra e rosa.

Ali, no frio em Ouro Preto, Paulinho cantou Bêbado samba, cantou Argumento, cantou Meu pecado, música que cantei na casa de amigos outro dia. É também meu pecado "passar noites em serestas e bebendo por aí pela cidade" e "querer em minha mocidade amar tantas mulheres", mas ele é sábio: "meu tempo já passou, tenho saudade".

Quando o ouvi cantando um verso que quase traz a alvorada com "Duas horas da manhã, contrariado espero/ pelo meu amor / vou subindo o morro sem alegria", vi meus passos nas noites de Mariana. "Qual será o paradeiro daquela que até agora não voltou?"


Lição 5-) Chama que o samba semeia a luz de sua chama. A paixão vertendo ondas, velhos mantras de Aruanda. Chama por Cartola, chama por Candeia, chama...

Cartola chegou depois de Paulinho, de Dolores, de Orlando Silva, de Garoto, de Herivelto, de Dalva, de Nelson. Chegou depois de Candeia, de Martinho, de Sargento e de Elton Medeiros. Depois de Dorival Caymmi e de João Gilberto. E foi Cartola que fechou o ciclo. Já o ouvia, claro, como uma mania. Mas menos do que hoje.

Cartola cantou a música de muitas madrugadas em Vila Velha. "Nada consigo fazer quando a saudade aperta", e a saudade sempre aperta. Mas "Alegria era o que faltava em mim!" Todas as músicas de Cartola são a trilha sonora dos últimos anos dos meus 20 anos. Junto com Paulinho e com todos os outros. Um São Jorge na mesa, instrumentos, cerveja, cachaça, uma feijoada no fogo, como em meus aniversários em Mariana. Balde, prato, colher, tudo é percussão.

É de samba que se fazem todas as melodias, já disse João Gilberto. Basta chamar. Lembrar também que o samba tem um terno branco, um sapato bicolor, uma navalha no bolso. Sem malandragem, sem a nata da malandragem, não é possível perguntar nem com que roupa se vai ao samba, nem pedir um samba feito só para si, para acabar, virar, espalhar a noite inteira.

Com ou sem malandro, a mania do samba ensina. Chame o samba que ele sempre vem. Mas é como canta João Gilberto: "mas quem não gosta de samba não dá valor, não sabe compreender."

Agora sim, uma retrospectiva pocket

2010 levou com ele o ano em que mais coisas diferentes vivi em toda a vida. Vivi histórias até então adiadas, vivi outras completamente novas e bagunçadas, cheias de novos obstáculos, abandonei memórias que alimentei por tantos dias, participei de famílias de toda ordem, recebi homenagens, lancei livro, fiz deste blog uma bandeira. E hoje, lembrando, é tudo retorcido.

Descobri que algumas cartas nunca chegam. Constatei que há pessoas para certos livros e que os livros são, sempre, para todas as pessoas. Vi que há sempre mãos estendidas e braços que se cruzam. Entendi mais do que antes que às vezes as palavras não bastam e que o silêncio, poderoso, faz o sol sair do mar na manhã.

Revi amigos, casei amigos, fiz com que amigos se encontrassem para se descobrirem.

Entendi que na Ilha, nas cidades que a circundam, no convento, nos seus morros e nos olhos dos que cruzam diariamente as pontes da cidade, há sempre o sonho do mar. Casas que sempre querem se lançar ao mar, com medo das tempestades e das ondas.

O mar quebrou em mim as durezas e muitas das arestas de quem nasce com 80% de ferro nas almas, nos chãos de terra vermelha de minério, no vento seco que sopra na manhã da Serra do Curral. É do mar o meu respeito, nas espumas do mundo como o resultado das grandes ondas do Atlântico. O mar me mostrou que o que sobra, de tudo, é outro movimento.

Nesse ano comemorei com amigos um dos meus feitos que não imaginava que chegaria à grandiosidade que hoje tem. Não sabia, aos dezoitos anos, que fundar uma república era criar, em alguma quantidade, uma relação de identificação e de carinho, uma família e uma amizade. Não sabia o que nascia naqueles poucos cômodos do Beco do Cica: uma infinidade de porvires que tanto mudaram as vidas de pessoas. Eu, um estudante pobre, com outros estudantes pobres tecíamos, no gesto de acolher estudantes e trabalhadores, uma teia que ainda não se concluiu, recheada de contatos que não posso vislumbrar. Comemorei o feito com muitas das pessoas que acompanharam a trajetória, com aqueles que hoje são parte desta família.

As fotos dos que não estavam lá, sorrindo, na parede, junto com a minha, de alguma forma, faziam com que eles estivessem outra vez em Kaza: todos nós ao som dos discos do Fernando, de suas frases pintadas na parede, nas portas, na mesa laranja, ao som de Mulambo no meu violão, das risadas do Truão, do silêncio do Costilla, das brincadeiras francas entre os Eds e seus pertences duvidosos, da bateria imaginária do Welber, da aranha no lustre, das piadas do Boy, no Argos atropelando tudo pelos corredores, do Calouro acordado de madrugada aprendendo javanês e a geladeira sacudindo ao desligar. Amizade e aprendizado sob as palavras que trocamos na Lém Kaza.

Revi lugares. Revivi em Manhuaçu o carinho que entre as montanhas cheias de café recebi. Vi e revi os olhos daqueles para quem ensinei um pouco do que nunca aprendi. E vi mais olhos cheios de esperança, na inocência pulsante e caótica de tantos. De lá, parti para pisar o chão de outras cidades.

No amanhecer em Ouro Preto, com o cheiro do vapor de alumínio que cai na madrugada, ainda nas nuvens que dormem sobre o Carmo na alvorada, em passos lentos, os meus passos, antes apressados, repisaram-se. Em Mariana, o mesmo aperto de mãos e os mesmos abraços. Em BH, um monstro que não mais conheço, caótico e confuso chocando e misturando tudo o que toca. A velocidade tomou conta das ruas pensadas há mais de um século. E nelas, velhos amigos, velhas e novas palavras, outras músicas: novas vivências.

Foi também tempo de Farrapos, de Circo-Volante, de ciranda no samba no pé-de-moleque. Os mesmos velhos sorrisos do meu carnaval, outra vez. Os dias entre amigos em que a semana nos traz outros conhecidos, outros sons. Na parede da Deuses, meu rosto tão diferente entre o de tantos outros amigos. Não é mais a casa de onde saiu meu velório, onde disse que o que nos faz humanos é a amizade. A casa em que tomei tantos cafés, ouvi confidências, dei e recebi conselhos, que tocou tantos sambas carregados de fumaça de cigarros e de copos de cerveja. Mas na casa nova, na mesa da cozinha, meu café da manhã, os copos vazios, e outra família que acordava aos poucos para conversas, discussões e samba.

Também descobri que somos seres de tempo e que o silêncio nos forma e nos diz o que é efetivamente duradouro: o presente. E somos de linguagem, como estas memórias. Por muitos dias só a linguagem chegou aos que tanto valorizo e deles recebi todo o peso que a linguagem nos devolve em seus textos, seus telefonemas, seus gestos, seu silêncio.

Não visitei muita gente, não entrei muito no mar, não pude estar em muitos momentos importantes com meus amigos, com meus parentes, mas na estante da sala do meu apartamento, a palavra escrita em pedra carregou para dentro de si o ano todo: saudade. Foi ela, que mais uma vez me segurou em pé na corda bamba.

No mais, as coisas corriqueiras do todo dia: comer arroz e tomar café, estudar dias trancado em casa, ler poesia porque só ela nos alivia a alma, sambar na Lama, passar noites em claro e perder cabelo. Ver que as feridas da mão sempre estarão sob a pele para me lembrar de meus cadernos e meus livros. De saber que é sempre possível devotar palavra.

Como disse a Julian e a Beatriz, a desordem que o amor nos traz, as loucuras e as confusões nas gavetas, faz-nos saber que amar é compartilhar, é des-ordem. A palavra compartilha e só pela linguagem amamos. E em 2010 eu aprendi que é a linguagem que sempre fará com que eu ame. Seja em minhas memórias, seja nas fotografias da minha sala, seja nas noites em que sonho estar novamente numa cozinha, entre panelas e potes, cercado por azulejos verde e que, de repente, amigos cheguem - pulando as janelas, assobiando dos portões, batendo com força à frágil porta - para tomar um café forte e falar, falar, falar...


domingo, 2 de janeiro de 2011

Das vilanias

O ano começou de ressaca. O gosto ruim de uma noite em que as forças mais inteligentes do mito se materializaram. Se não houvesse Dionísio com suas artimanhas, talvez entendesse do início de 2011 outro recado. O sinal que tiro disso é que será um ano dionisíaco, desarranjado, mas frutífero em todos os sentidos.

E a frutificação começou. Abandonadas nas areias da praia ficam minhas ilusões, como um vômito escuro. O que verti na areia é símile do que hoje abandono, num labirinto de espelhos que mescla conhecidos e desconhecidos na ciranda das horas. Como um dionisíaco, seguirei a rua deserta da manhã, com passos lentos no asfalto molhado.

Dionísio – nas artes que pretendo consumir, nos livros que pretendo ler, nas conquistas ainda por alcançar, no compartilhar que meu ofício traz – vem me acompanhar, fazendo refletir o que há de humano nos atos, nos gestos, nas escolhas. É ele quem me mostra as respostas que não poderiam aparecer de outra forma, como o tempo que, nublado, precisa desabar para limpar as ondas. Não sobra mais que a ressaca, como a dos passos no asfalto. Nada mais, e o silêncio, profundo, dissolveu o que não tinha forças reais de se manter de pé.

Começo com a certeza de que meus pés me levam, sem mais. Que Dionísio, meu velho patrono, o deus das Letras e das artes, recoloque-me constantemente acordando em face de indecifráveis palmeiras, seguindo o que me ensina por anos Baudelaire. Para as demais, o que ficou na areia, meu silêncio: aquilo que se lavou no mar na manhã do dia primeiro.