domingo, 8 de maio de 2011

Do amor

Porque há em mim densidade, há amor que compartilha. Cumprindo coragens, amo a vida porque ela é densa e posso tocá-la nas flores, no chão, nos cabelos. Amo as pessoas porque nelas há cores que não compreendo, cheiros que não compreendo, sentimentos distantes das falas sem nenhuma linguagem.

Amo a cor dos dias porque ela pode chover e a chuva molha meu corpo, o mesmo que exponho despretensiosamente na noite, nas livrarias, nos bares, nos teatros. Corpo que modifico, que modifica, que me escapa de mim por mais que tente segurá-lo, que é água não dominada eternamente em fúria, buscando o que não vislumbro, sentindo o que me assusta, mas que não impede a vertigem.

É preciso coragem para amar, como potência, pois há em tudo a vida densa que atravessamos violentos, partindo ossos e fantasmas. Preciso amar por fúria, pela fúria indomada de mim que me sufoca, pois tudo é parte de nada que vislumbra a volta. E somo a tudo a sensação da camisa ao peito, quando a vida postou-se densa e me furtou o ar. Amo porque busco o ar que a vida me furta, que sempre me falta, e na ausência do ar em mim, onde drapeja esquecida fome embandeirada, há tantas figuras, tantas mãos, tantos cabelos, tantos olhos! E nos olhos, tanto medo de pessoas que se escondem como sinos feitos para o dobre, fundidos sob o solo, mudos eternos em suas gigantescas catedrais feitas para o amor e abandonadas, tornadas outros museus de parda ausência, de dor e escuro, em tudo que nada faz sentido.

Na noite semi-opaca do passado, na ausência do passado em mim agora, na vontade de amanhã pleno e indireto, o amor-locomotiva me alavanca e me empurra contra o tempo, querendo a desordem de tudo que compartilha, fúria fumegante de vontade em trilhos do sem-fim que me acometem, em medos que alimentam a fornalha e que lançam para o céu velhas faíscas engolindo com coragem as fumaças do que sobra, sabendo esperar outra partida, em desordem, sem medo da chegada.

13 comentários:

  1. Um silêncio vaporoso surgiu em mim. E a água do tender se esforça, num esforço de brasa, para fugir.

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  2. PQP! Meu coração acelerou como uma locomotiva...

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  3. Amigo, super querido, a cada dias escreves mais belamente! Comove e move nosso sentir!

    Beijos

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  4. SENSASIONAL!!!
    "É preciso coragem para amar".
    Meu nome é coragem...(muitos risos)
    Salete

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  5. Estou me tornando repetitiva em dizer que o texto é maravilhoso, mas devo dizer que estou mesmo é viciada e cada vez mais ansiosa pelos seus textos!
    bjos

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  6. Amigo, já li este da Inês Pedrosa e tenho um melhor ainda, Fazes-me falta. Puro amor!
    Forte abraço!

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Danilo poetando! Lindo!

    esse Fernando Alvarenga é o Fernando da Lèm Kaza? Tomara que seja! se for, olha só Fernando, pra você e pela sua visita para as amigas Intocáveis o ano passado na ceia, obrigada, como diria a Inês, fazes falta:

    "Prefiro esquecer, esquecer-te até se preciso for, para viver como tu vivias, apreciando cada momento - sobretudo os dolorosos, pela lucidez que trazem como bónus - desta tão precária maravilha a que chamamos existência. Tantas vezes te aconselhei as virtudes do silêncio. Queria calar-te para te proteger, sim. Há poucas pessoas apetrechadas para a verdade - mesmo nós, quantas vezes não fechámos à chave umas verdadezitas mais cortabtes para não nos magoarmos? Creio que me fazes - schiuuu! - assim, com uma vagar de embalo, sempre que a voz da minha consciência ( seja lá isso o que for) sobe o tom para me acusar pelo que não te dei. Creio sem crer, como um condenado. Afinal de contas, não tenho nada a perder. Mesmo que os anjos não existam, as asas com que te vejo, sentada na beira da minha cama, do cume enlouquecendo da minha insónia, ficam-te melhor do que todas as toilettes. Esforço a imaginação, estendo-a até aos teus dedos, mas não consigo mais do que um ligeiro raçagar de asas. São lençóis que agito, bem sei - mas não me concederás a graça de transformar a fímbria do meu lençol na ponta dos teus dedos?"

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  9. Amigos Danilo e Bia,
    viram como Fazes-me falta é lindo?!

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  10. Querido amigo Fernando, saudade de ouvir você poetando também! Só você mesmo pra tirar a Inês da cartola! É maravilhoso!

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