sábado, 7 de maio de 2011

Do frio

Hoje me deu saudade das manhãs frias de Juiz de Fora. Neste maio, creio, o São Pedro já amanhece com poucas ruas em névoa. Depois, o sol pardo do outono vai esquentando, aos poucos, aquela densidade que sobe e se evapora. Quando acordava lá, ainda no banho, via pela janela do banheiro o bairro que dormia e a cidade que acordava mansa, o som de cada coisa aumentando e o frio doendo nos dedos.

Lila, depois que saí de Juiz de Fora, ficava ao telefone me dizendo isso, cheia de saudade, e me deu saudade de Lila me dizendo isso. Lembrei de como ela descrevia a vista da janela do seu quarto - muito diferente da do meu -, dos dias que esfriavam aos poucos como um prenúncio de um inverno rigoroso que aguardávamos com ansiedade.

Deu saudade também das manhãs em Mariana. Da janela do meu quarto, via as ruas que iam, de abril até julho, ficando cada vez mais frias de manhã, cheias de restos de nuvens e do mesmo sol pálido, frio. Nessas horas, depois das seis, a manhã era mais fria. Deu saudade de uma sacada de hotel em que, com Thaís, falei dessas coisas, dessa saudade das manhãs e ela me descreveu a saudade dela do som dos pássaros no forro do telhado da minha casa, sobre meu quarto, do pedaço de céu que se via da minha janela.

Deu saudade de andar bem cedo por Ouro Preto depois de uma noite perdida entre bares e bares, de ruas muito úmidas e chãos velhos e repisados, e o cansaço do corpo, dos olhos, aumentando o frio entre os dedos, escondidos nos bolsos da velha blusa surrada em um tempo onde tudo era imprecisão e vontade. As narinas vermelhas, alguma voz de mulher que escapava nas ruas, gritando, perdida na alvorada.

Lembrei-me das manhãs da infância, quando em Belo Horizonte as ruas de outono ficavam com um céu azul de doer e um cheiro da umidade das árvores. De nós, eu e meus irmãos, arrumando-nos para sair, descer o bairro, atravessar a Serra e nesse frio da manhã, à medida que descíamos a rua Palmira, o calor e o sol irem aumentando - pelos passos dados, pelo dia que deixava um amarelo despejado sobre as janelas dos prédios, nas pedras das ruas, nas mochilas dos estudantes, nos barracos da favela. Tudo amarelecendo e o frio que saia, deixando esse espaço que sobra.

Semana passada, revivi parte desse mesmo frio nas ruas de Paris, sem névoas como nas manhãs juizforanas e sem Lila empolgada com o frio que se aproximava; sem Thaís dizendo dos pássaros no forro do telhado; sem grito de alguma mulher perdida na alvorada, sem mochilas de estudantes. De brilho pouco mais brando, revi do outro lado do Atlântico o mesmo sol que iluminou muitos dos melhores momentos de minha vida, nas manhãs de frio que trazem uma falta imensa na janela sobre a cômoda, que sente o calor como os meus ossos.

Esta semana, sonhei com o capítulo junho, do livro "Como água para chocolate", de Laura Ezquivel, que li em Mariana e que releio incessantemente desde então. O frio do qual sinto falta, o que empolgava Lila e fazia Thaís dizer dos pássaros, não é o de fósforos não detonados, que esfriam Tita por toda uma vida no romance, mas os das manhãs, daquelas manhãs que me ensinaram que para o frio é preciso um sol mais brando, leve, que nos lamba com cuidado, sem tanta afronta, para que possamos, aos poucos, tirar as mãos dos bolsos e deixar as nuvens subirem, levando nossos perfumes com elas.

4 comentários:

  1. Difícil tecer qualquer comentário sobre um texto desses, talvez se pudesse ver meus olhos rasos d'agua entenderia o efeito que suas palavras causaram em mim.

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  2. Mano, me lembro do seminário bacana de 'Como água para chocolate', nos tempos do "bom Leopoldo". Eu você e o Ednaldo. Muita conversa boa. Saudade.

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  3. engraçado, porque ontem, quando eu descia o morro daqui perto de casa para ir dar aula, vi o céu todo matizado de rosa. respirei fundo, e me vi descendo a rua santa ephigênia, em ouro preto, céu rosado. o céu, o sol, os cheiros da manhã... ah, se eles soubessem o quanto..!

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