domingo, 15 de maio de 2011

Da falta

Disse certa vez que de todas as coisas que vivi desde quando a vida me trouxe o estar só, de todos os sentimentos que tenho, o mais incômodo não é o silêncio ou a ausência: é a falta.

Diferente do silêncio, a falta não nos coloca em suspensão, numa tranquilidade que nos reconstrói. Também não é a ausência, que faz com que nos voltemos a nós, num estado de nada, a um contato profundo com o mais íntimo que possuímos.

A falta nos abraça lentamente. Exige de nós as vozes mecânicas para que preenchamos os espaços de falta, da vida que passa a faltar em nós, pulsante. Rouba-nos o sono, o sonho, as capacidades. Lenta, é dura e implacável, caminhando no escuro daquilo que em nós grita, querendo de nós o que não entendemos, pressionando-nos forte contra um rijo peito: mudo buraco-negro que tudo transforma em falta.

Percebemos a falta, sentimo-na nas coisas todas, pois o alguém, fantasmagórico, só pode existir na linguagem quando assim dissemos. Ali não está a saudade - que preenche aquele espaço da falta com outros sentimentos -, não está a pessoa, não está nem sequer sua memória. Há o que ela deixou como desejo não concluído, que não entendemos a não ser por esforço profundo de linguagem.

Difícil definir a falta, separando-a profundamente do nada que não está presente nela. Nela sentimos o vazio profundo, completamente diferente do nada. Sentimos ali o que está em nós ligado pela não-presença de alguém que já se fez presente - corpórea ou subjetivamente - em nós de forma que a sua não-presença se faz sentir reverberante e plena, incômoda e impossível de não ser percebida.

Por isso, a falta impõe em nós certa inércia. Não podemos contra a falta a não ser nos lamentarmos. Ali, como algo que cresce no escuro, ela traz agonia, não nos tranquiliza. Quando em excesso, quando torna-se insuportável a sensação de falta, de maneira que esta atinja estágios incalculáveis de sentir, tudo mergulha nela, pleno e indefeso, vencido. Sabemos, neste momento, o que sentem alguns suicidas. Suicidar-se é sucumbir à falta.

Impossível não sentir falta. Sem sentir aquilo que em nós reclama a atenção que a linguagem contém, o elemento não existe em nós. Sentimos falta de algo que existiu em nós de forma tão particular que a reclamamos, quase em súplica, querendo seu retorno a nós a todo custo, como um viciado em presença. Viciados somos nas coisas que nos fazem falta e por isso sentimos falta delas. Caso contrário, o sentimento de nada valeria e não causaria a força que produz.

Em casa, muitas vezes toco e sou abraçado pela falta. Primeiro ela poda o sono, depois as vozes, depois alheia-me de mim num afastamento provocador que se preenche cada vez de mais falta. E ela, gigante, procria como uma bactéria. Fede como bactéria e passamos a ser seres em falta, feitos de matéria falta, e não sabemos o que é estar fora desse sentir. É preciso diariamente vencer a falta, e ela, gigante, torna a abraçar-me como um paquiderme.

2 comentários:

  1. Essa crônica, lida por mim 34 dias após a partida do meu irmão mais novo, tem em mim uma repercussão "tectônica". obrigado por dar voz a isso tudo.

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