quinta-feira, 21 de abril de 2011

Porque nela...

A cidade tem tantos cheiros, tantos sabores! No solo centenário, de pés já esquecidos, o impossível dos tetos toma todos os lugares. Há a forma-catavento onde o olhar, sem saber se vai parar, quer engolir as curvas todas, os detalhes. Nas mulheres, o jeito elegante, de cores vivas nos lábios, olhos de tantas outras cores, de tons de todos os tipos, mãos avermelhadas com cigarros, sentadas nos café.

A alegria: todos, em todos os lugares, sorriem. No chão de uma ponte sobre o Sena, muitas declarações de amor traçadas a giz, em muitas línguas. O encantamento de todos pelos dias de sol, tulipas roxas e jardins incontáveis. Nas portadas da rue de la Huchete, Cortázar coberto de razão: o hábito em todos, bandeiras da Itália nas sacadas, comidas do mundo todo se acotovelando, mesclando seus cheiros ao da cidade, pleno, leve.

Em Monmartre, ruas mais vazias, frutas que cheiram longe em bancas coloridas e multiformes, com produtos tão do nosso cotidiano em outra ficção, outra melodia. Em Saint Michel, estudantes na praça palco de revoltas e, ao fundo, a Universidade guarda nossas letras, nossos costumes, nossos paradigmas.

Do arco, meu silêncio: ver a Avenida (a única a que podemos de fato chamar Avenida) ao sol da primavera, confusa como uma catedral lotada, faz das vozes e dos sons humanos nossas desmedidas arestas. Coloca-nos pequeninos, não mais diante de indecifráveis palmeiras, mas ante grande obra humana, cristalizada em seus pilares.

Nas ruas da Ilha de Saint Louis, a pergunta: como será viver aqui, comungar com arte nos atropelando nas esquinas, nas lojas, na receita de sorvete passada de geração em geração, no obelisco da praça da Bastilha, que tanto sangue suportou, nas doze ruas do arco, todas estreitas, convidando-nos para o estreito labirinto? Com cruzar o Sena todos os dias, sem o silêncio cerimonioso que ele exige, descer a Rivoli sem emudecer ante o Louvre, sem se imaginar voando em torno da torre constantemente mirada por pessoas?

Sem respostas, a cidade abraça a mim como abraça a todos, sabendo que ela, mais que qualquer outra, ainda emana luz de forma intensa. Luz que, na tarde de abril, na Champs Elysées, sai dos romances, e eu esperei, ansioso, o coupé de Marguerite Gautier, o de Monte Cristo ou mesmo Maga vindo até ali depois de sair do Quartier Latin.

4 comentários:

  1. Alguns podem apreciar melhor os encantos, belezas e sutilezas parisienses. Muito bom ler este texto.
    Se cuida, mano! Abraços

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  2. Lindo, levou me ate onde eu numca fui e provavelmente não irei, maravilhoso, so voce mesmo, obrigado.

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  3. Me senti lendo o Eça...o cheiro das ruas parece bom rsrs. Lembra do café que a gente combinou aí? Lembre-se de reservar o local ideal, ok? au revoir!

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  4. Meu Deus... Paris fica mais interessante ainda, se é que isso é possível, recheada com pessoas como você!
    Salut mon ami, viva la vie!

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